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21/10/15

"Vai e põe uma sentinela": o lado lunar do romance que cativou o mundo

vaiepoeumasentinela.jpg

Nota: li a versão original, Go Set a Watchman, mas neste post uso o título da tradução portuguesa, Vai e põe uma sentinela, editada pela Editorial Presença.

 

Deve o esboço de um livro, há muito esquecido e até certo ponto renegado pela sua autora, ser publicado? Sobretudo quando promete abalar a percepção de outra obra acarinhada por milhões de leitores?

 

“Vai e põe uma sentinela” foi escrito primeiro, mas dois anos de revisões produziram “Por favor, não matem a Cotovia?”, o único livro que marcava, até agora, a carreira literária da autora norte-americana, Harper Lee. Publicado em 1960, “Não matem a Cotovia” tornou-se numa espécie de tesouro literário da América, pela serenidade da sua mensagem de igualdade e justiça aliada a um nostálgico retrato da infância.

 

A polémica à volta de "Vai e põe uma sentinela" envolve questões sobre a forma como o seu manuscrito foi descoberto pelos representantes legais de Harper Lee e como a autora, debilitada pela idade, deu o aval à sua publicação. A tradução portuguesa do livro chega hoje às mãos do público, pelo que só resta responder às questões de caráter literário: é um bom livro por mérito próprio? Ou não passa de um rascunho que devia ter ficado na gaveta? O seu conteúdo trai, de algum modo, a história e os personagens que os leitores já conhecem?

 

Apesar de conter os indícios que dariam origem ao primeiro livro a ser publicado, “Sentinela” é um livro acabado e diferente. Escrito a partir do ponto de vista de Jean Louise, agora com 26 anos e a viver em Nova Iorque, a sua história tem lugar quase 20 anos depois dos eventos descritos em “Não matem a Cotovia” e com o movimento dos direitos civis dos negros como pano de fundo.

 

Ao regressar à sua terra natal, Maycomb, Jean Louise espera reencontrar as pessoas e os locais da sua infância inalterados pelo tempo, mas o presente tem necessidades mais urgentes. A maior prova disso é a revelação de que o seu pai, o advogado Atticus Finch, aceitou participar num conselho de cidadãos oposto ao reconhecimento de direitos políticos à maioria negra da população de Maycomb.

 

No primeiro livro, Atticus é o único defensor público que aceita representar (e consegue ilibar) um jovem negro de uma acusação falsa de violação. Não é fácil conciliar esse exemplo de justiça e retidão com o Atticus racista e calculista que a história agora publicada apresenta. A revelação desencadeia em Jean Loiuse uma rejeição do pai e do seu modelo moral. Para um leitor de “Não matem a Cotovia”, que tenha sido cativado pela sua idealização de Atticus, o desnorte não é menor.

 

A um nível metatextual, o desapontamento sentido pelo leitor dos dois livros em relação à figura de Atticus causa um certo fascínio, na medida em que esse efeito decorre de um contacto anterior com o personagem que não foi planeado ou previsto pela autora. A deceção de Jean com Atticus espelha o sentimento de quem lê o segundo livro e sente que perdeu um exemplo de virtude, ainda que ficcional.

 

“Vai e põe uma Sentinela” é um livro igualmente fascinante pelo vislumbre que oferece do processo criativo na origem de “Não matem a Cotovia”. Os dois livros parecem tocar-se nos momentos em que Jean Louise recua na memória até à sua infância, passada com o irmão Jem. Lee sabe evocar com imaginação e habilidade a magia e a inocência da infância. O novo livro, e os episódios de infância da protagonista que nele constam, dão sentido à opção de Lee, nos anos 50, de voltar atrás e rescrever “Sentinela” a partir do ponto de vista de uma criança.

 

Sem a história agora vinda a público, o primeiro livro nunca teria sido possível. Ao mesmo tempo, é por ter sido escrita primeiro, e contar uma história diferente, lunar e de perda de inocência, que "Sentinela" merece ter sido encontrado e lido.

 

O final de “Vai e põe uma Sentinela” é algo inconclusivo e abre o livro a críticas de um certo conformismo e até condescendência. Em qualquer caso, é uma história que lembra como, apesar da mudança das leis, restam sempre as consciências individuais. Tal como a segregação racial, no seu tempo, ou os direitos LGBT, no nosso, há um intervalo entre as leis e as mentalidades, que leva o seu tempo a ser fechado. A tolerância não pode ser cultivada com intolerância é mais um eco da mensagem de “Não matem a Cotovia".

 

O novo livro não é uma "traição" da história conhecida desde os anos 60. É o recontar da mesma lição, a partir de um perspetiva diferente. Pode dizer-se que “Vai e põe uma sentinela” é a versão mais adulta e exigente de “Não matem a Cotovia”, na qual questões sobre a desigualdade, o progresso e a vida adulta sublinham a responsabilidade intransmissível de cada um formar e seguir a sua própria consciência.

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