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27/01/21

Um dia de janeiro em confinamento

Acordar às 04h30 da manhã, apesar do despertador estar definido para as 06h45. Sair de casa pouco tempo depois, para uma saída essencial que não dura mais de 15 minutos. Os primeiros blogs da manhã, seguidos do pequeno-almoço, um dos bons momentos da manhã. Às 8h, nova saída à rua, para uma caminhada rápida pelo bairro. Ruas quase vazias, que o tempo cinzento deixa ainda mais desoladas. O frio das primeiras semanas de janeiro foi embora, mas o sol ainda não voltou. Sugiro darmos a volta por um percurso diferente. Ao longe, numa praceta pouco movimentada a esta hora (a este ano?), já se vêem alguns reflexos das luzes azuis das viaturas de emergência. À medida que nos aproximamos, começamos a descortinar a ambulância, o carro dos bombeiros e a polícia. Estão todos tão imóveis e alinhados de tal modo, de frente para nós, que dão a impressão de estarem no cenário de uma filmagem qualquer. Mas não há câmara. Conseguimos apenas ver um carro particular parado a meio da passadeira e alguém a ser imobilizado pelos paramédicos no passeio defronte. Conseguimos perceber que se tratou de um atropelamento, especialmente azarado por ocorrer nesta fase tão crítica da pandemia, mas tudo o resto é uma cena muda. Retomamos o nosso passeio. Ao virar da esquina, reparo na marquise de uma das poucas pastelarias do bairro ainda abertas, transformada em montra para os tabuleiros cheios de bolos. Há qualquer coisa no encerramento das pastelarias que me faz vacilar cá dentro. De todos os espaços do nosso quotidiano que foram encerrados (escolas, bibliotecas, restaurantes, cinemas, etc), que contribuem para a nossa perceção da normalidade, não esperava que fosse esta a peça ausente que me fizesse perceber o quanto o puzzle do nosso dia-a-dia está incompleto. Menos de um quarto de hora depois, regressamos ao local do atropelamento, já sem qualquer vestígio do que se desenrolara ali apenas minutos antes. Voltou a ser uma curva na estrada e uma passadeira sem história. Estes passeios higiénicos fazem-me sentir ainda mais como espetador da vida na cidade, mesmo sem a máquina fotográfica. Já a chegar a casa, a passagem de dois batedores da PSP chamam a nossa atenção. Escoltam uma carrinha branca, identificada com o logótipo do SNS e seguida por um carro-patrulha da GNR. Presumimos que se tratava de um carregamento de vacinas. Passados dez meses de pandemia, é uma realização espantosa, perceber que o caminho das vacinas, o início do fim deste pesadelo, também passa pela nossa rua. É o tipo de coisa que me faz sempre recordar aquele lema da TSF, sobre como vai dar ao mesmo, para um orgão de informação, ir ao fim da rua ou ao fim do mundo. Por instantes, pareceu realmente que estávamos em ambos os sítios ao mesmo tempo. Depois do almoço, um phase out no trabalho (eufemismo profissional para despedida, menos tingido de tristeza) e depois, a última saída essencial de casa, com a peça que faltava ao relato destes dias anormais: a fila de ambulâncias em espera à entrada das urgências COVID do hospital mais próximo. Só dei pela fila nas últimas semanas, e não a vejo todos os dias, mas hoje lá estava, assim como as equipas de reportagem televisivas. É curioso o poder de uma câmara de televisão, até mesmo ao vivo, para dirigir a vista. Toda a gente, incluindo eu, parecia estar a olhar na mesma direção, como se a câmara fosse um dedo apontadosim, isto está mesmo a acontecer, isto é a pandemia. E está a acontecer um pouco por todo o lado. Já tenho amigos em isolamento na sequência de testes positivos e, por aqui, nos blogs, tenho-me cruzado, dia sim, dia não, com relatos de quem está por casa a passar pela mesma situação, sem sintomas graves. Os números dos últimos dias da evolução da pandemia, todavia, são tão impensáveis que evito repeti-los aqui. Onde é que errámos para chegar a este ponto? Quando é que isto começa a melhorar novamente? E o que mais podemos fazer para ficar seguros? São as dúvidas que me inquietam de momento.

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