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22/03/21

Um ano depois

Uma das reações que tive ao último ano foi virar-me (ainda mais) para o meu blog. Sabia que tinha de registar de algum modo a estranheza e dimensão do que estava a acontecer e, confinado em casa, só sobrava a escrita. Um ano depois, sinto que tenho de voltar ao tema e fazer um balanço a partir da minha limitada perspetiva. Limitada, porque só posso realmente falar da forma como vivi este tempo.

Escrever sobre a pandemia

Se havia um ano para escrever ou manter um diário, foi este. Não faltou tema, tempo ou vontade. Falando por mim, a escrita foi distração e escape. Os noticiários não falaram de outra coisa, as redes também não, mas a ansiedade, a estranheza, o isolamento, são coisas de que ninguém pode falar por nós. Além disso, não foram poucas as vezes ao longo deste ano que senti que tinha de calar desabafos ou impressões sobre o rumo da crise, umas vezes feitos de esperanças, outras de pessimismos, para preservar outros à volta. A escrita, sobretudo esta feita em público, longe das redes sociais (não é curioso como na era dos feeds e murais algorítmicos, dois cliques na internet podem parecer léguas de distância?), abre esse espaço ao desabafo e à reflexão em voz alta, sem obrigações com terceiros. Aqui, só lê quem consulta, quem procura, e quem se sente preparado para o fazer, sem precisar de fazer vistoria (pondo um like). Uma certa limitação dos blogs foi, neste caso, um descanso para quem, como eu, precisava de desabafar sem pensar num possível destinatário.

O impacto mental e físico

É difícil separar as águas, entre o que foi causado pela pandemia e os achaques normais que a vida nos reserva, mas a minha saúde mental, pelo menos, não está no ponto em que estava há um ano. O isolamento é um grande fator, claro, mas atribuo a maior quota-parte do desgaste à fricção social introduzida no meu dia-a-dia (quando alguém não respeita a "distância de segurança" na fila do supermercado, por exemplo). Aquilo de que me sinto mais roubado é, precisamente, da paz de espírito de não conhecer a "distância de segurança". Fui sempre alguém muito consciente da proximidade dos outros, seja numa fila ou sala de espera, e toda esta situação tornou-me ainda mais defensivo do meu espaço pessoal.

Lembro-me de escrever aqui sobre a estranheza que senti das primeiras vezes em que saí à rua, em março do ano passado, e me deparei com aqueles dois metros de distância nas filas da padaria ou do supermercado. Trata-se de uma cautela básica, claro, mas a maneira como começou a ser praticada na rua, sem aparente aviso e praticamente da noite para o dia, foi uma das coisas que mais me marcaram dos primeiros tempos da vida em pandemia.

Hoje, sou uma daquelas pessoas que olha constantemente por cima do ombro e, a ser preciso, se vira para trás para pedir, com uma gentileza ártica, para que outros mantenham a distância. Esta vigilância permanente, e a acrimónia que gera, acarreta inevitavelmente um custo psicológico.

Ao nível do isolamento, já antes deste segundo confinamento sentia muita falta de ver caras amigas, ao ponto de notar uma diferença imediata no meu estado de espírito sempre que me cruzo acidentalmente com alguém conhecido na rua. Os confinamentos desregularam de tal forma o convívio (mesmo na rua e em segurança) que o encontro parece ser mais feliz precisamente quando é acidental, como se o acaso nada ficasse a dever à lei. Nunca fui grande fã de encontrar pessoas conhecidas na rua, muito por conta daquela incerteza sobre quem está a reter quem. Agora, já não tenho tanto medo disso: faço questão de parar e mostrar que estou disponível para tentar uma troca mais significativa de palavras.

Fisicamente, as coisas também não estão muito famosas. O impacto mais direto e prolongado foi na duração e qualidade do sono. Há outras causas indiretas (a maior das quais é a vizinhança..), mas nunca mais tive uma daquelas noites completas de sono que nos deixam renovados e recarregados para um dia cheio de atividades fora de casa (até porque esses dias também ficaram para trás). Um problema físico mais recente, ainda sem contornos bem definidos, veio frustrar os meus planos mais urgentes para o desconfinamento (mais e maiores caminhadas na natureza), mas estou a investigar o que se passa e a torcer para que passe rapidamente. 

Janeiro

Receámos o verão, o apelo das praias e do convívio ao ar livre, mas era o inverno que nos reservava o maior pesadelo. Por um lado, o cansaço com as cautelas impostas pela pandemia, aparentemente sob controlo, por outro, a noção de que seria quase impossível, por mais restrições que fossem decretadas, cancelar o convívio da época natalícia. Chegou ao ponto em que parecia que toda a gente conhecia alguém com a suspeita de estar infetado ou, pior, que perdeu alguém para a doença.

Sobre o período que se seguiu ao Natal, tenho a sensação de que esgotámos as formas tradicionais de falar da morte em grande escala. Um forte temporal ou grande incêndio são fenómenos extremos em que a tragédia parece pontuar o nosso quotidiano. A pandemia, porém, está a revelar ser uma suspensão prolongada da normalidade. As convenções (mediáticas, conversacionais, sociais) a que nos habituámos para enquadrar a dor e a morte parecem ser insuficientes, senão mesmo desajustadas, num tempo em que nem um abraço sai espontâneo. Nessa dimensão muito específica, de sentir a necessidade de calar o espanto e a novidade, imagino que viver em pandemia não é muito diferente de viver em guerra.

Um mapa de não-ditos

Podia fazer um mapa das coisas que ficaram por dizer ou desabafar nestes doze meses. As mais desconfortáveis, claro, estão mais próximas de mim. A forma como alguns silêncios se instalaram, com pessoas que admiro e que me fazem falta, continua a ser, para mim, um dos aspetos mais inesperados deste último ano — e um dos mais difíceis de abordar pela escrita.

Quando toda a gente passa, ao mesmo tempo, por uma interrupção tão profunda e prolongada das suas rotinas, consigo perceber como algumas pessoas podem sentir que não é preciso ou desejável aprofundar mais o tema. Ninguém quer ficar preso num elevador com alguém que sofre de claustrofobia, certo? Acontece que a perspetiva oposta também não é muito melhor: não quereria ficar preso num elevador com alguém completamente desligado da situação (seja pelo humor, por exemplo, ou pela negação, mais perigosa). Existe um meio termo entre o pânico e a apatia, claro. A dificuldade está em encontrá-lo e mantê-lo, de dia para dia, com pessoas diferentes. Essa adaptação constante perante os outros, na forma como me mostrava ora indiferente, ora preocupado em relação à pandemia, foi outra das coisas que mexeu muito comigo neste último ano.

Os próximos tempos

A maioria dos problemas que tenho em mãos não foram causados ou agravados pela pandemia. O meu quotidiano deu uma cambalhota, mas o grande impacto humano e económico foi sentido por outros. É nesse limiar da minha experiência que me sinto obrigado a ler ou escutar o que se passa no país e a confiar na ciência, na medicina e, mais do que nunca, na democracia.

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