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25/07/20

O furor da tristeza

O delírio criativo de La vita nuova, o mais recente teledisco de Christine and the Queens

Imagem retirada do videoclip La vita nuova

"O olho é o mais autónomo dos nossos órgãos. É-o porque os objetos da sua atenção se situam inevitavelmente no exterior. (...) Porque a beleza é onde o olho descansa."

A citação é de Joseph Brodsky, do seu pequeno livro "Marca de Água" (uma declaração de amor a Veneza), que acabei de ler há dias e forneceu uma espécie de ponto de partida para falar aqui do feérico e surpreendente La Vita Nuova de Christine and the Queens, no qual os meus olhos não se fartam de descansar.

Desconfio que há dois tipos de telediscos: os que metemos a passar no Youtube como música de fundo enquanto trabalhamos e os outros — aqueles que, por mais vezes que os tenhamos visto, não conseguimos resistir ver novamente, de fio a pavio. O Vita Nuova é um desses rebuçados audiovisuais. Com 13 minutos de duração, é um vídeo um pouco maior que a média; tem cinco capítulos, um por cada canção do novo EP da Christine, lançado em Fevereiro.

Gosto de tudo no vídeo, a começar pelo trabalho de câmara. Não me surpreendeu saber que o realizador, Colin Solal Cardo, foi um dos responsáveis pelo estilo cinematográfico do projeto La Blogothèque. Aqueles tracking shots, com a câmara em perseguição de Christine pelo telhado e interior da Ópera Garnier, em Paris, lembram algumas das incursões musicais da Blogothèque pelas ruas e marcos da capital francesa. Nunca visitei a Ópera Garnier, mas a sua grandiosidade fica bem à mostra neste teledisco, uma espécie de visita dançada aos seus meandros.

It's true that, people, I've been sad (People, I've been sad)
It's true that, people, I've been gone (People, I've been gone)
It's true that, people, I've been missing out (I've been missing out)

Começa com o amanhecer no horizonte de Paris e um anúncio, desarmante e enternecedor na sua simplicidade: É verdade, malta, que tenho andado triste. É impossível saber a qual das sombras da tristeza (depressão, desgosto, solidão, etc) se refere, mas é como a canção diz: you know the feeling.

Pourrais-tu m’aimer ?
Ça j’en doute
Quand tu ne prends que ce que tu veux de moi
Que tu n’aimes que ce que tu veux de moi
Quand tu ne veux qu’une partie de moi

Falar da música de Christine and the Queens implica reparar na coreografia, aqui a cargo de Ryan Heffington. Um operador de câmara nos seus vídeos tem provavelmente de ensaiar tanto a coreografia quanto um bailarino. É algo que salta mais à vista durante o tema Je disparais dans tes bras, no qual vemos a câmara infiltrar-se num ensaio de dança, para se movimentar livremente no meio dos dançarinos e manter impune aos espelhos a toda a volta — um ato de desaparecimento em si mesmo digno de nota.

There's mountains
Mountains and mountains
And mountains and mountains and mountains
Mountains
Since we met

O operador de câmara não é o único a ser puxado para a dança. O teledisco abunda em imagens-ideias, mas uma das mais notáveis surge ao som de Mountains (we met), que é também uma das minhas canções preferidas. O parceiro de dança aqui é o operador de som (ou bailarino disfarçado de técnico de som). A imagem de Christine a perseguir o microfone como quem procura o ouvido da pessoa amada, ou simplesmente de alguém com quem partilhar a sua melancolia, é assombrosamente comovente. De resto, a ideia de cantar sobre um desgosto de amor em termos geológicos é de uma inspiração fulgurante (e, falando da minha experiência pessoal, emocionalmente rigorosa).

Coming to dust, nothing's here protected

Parte da razão para a Vita Nuova soar tão lúbrica ao ouvido é o seu multilinguismo e a facilidade com que Christine desliza entre o francês, inglês, italiano e castelhano. Não sei ao certo o que é (pode só ser a minha francofilia), mas há algo de sedutor no inglês (das quatro, a única língua que domino) modulado por um falante francês.

Voglio che tu mi tocchi con la tua rabbia
Voglio che tu mi tocchi con il tuo furore
Questa è la rinuncia della tua vergogna
Voglio fare l'amore con questa canzone

Sou fã de Christine desde, bem, Christine, outra demonstração sua do que a conjugação perspicaz da música, coreografia e videografia pode gerar. A estes elementos criativos, Vita Nuova junta mais um, o furore. É a palavra certa para descrever a paixão necessária para inspirar e produzir um delírio audiovisual destes, sublime na melancolia e febril na paixão.

PS: Já depois de escrever este post, encontrei uma curta entrevista a Héloïse Letissier com o título perfeito para falar de La vita nuova: Como curar um corpo triste? Dançando.

27/07/19

Um novo olhar para a Lua

Li algures esta semana, a propósito do aniversário da chegada do Homem à Lua, que as  missões Apollo mobilizaram mais de 400 mil pessoas, entre operários, engenheiros e toda a espécie de trabalhadores. Naquela primeira cápsula, o Neil, o Buzz e o Michael seguiam, em todos os sentidos possíveis, nos ombros de um gigante. Dias depois, encontrei este vídeo, de um rapaz na rua a convidar as pessoas que passam a espreitarem por um telescópio apontado à Lua. O efeito é mágico, tanto para quem espreita como para quem assiste ao vídeo. Não faz pensar nas maravilhas que estão aí à mão de semear?

07/11/13

o mexefest do Youtube

 

O videoclip filmado "ao vivo" dos Arcade Fire, com a atriz Greta Gerwig (a única boa razão para ir ver "Frances Ha", se me perguntarem). O videoclip em direto foi um dos conceitos que Spike Jonze teve a liberdade para experimentar na produção da primeira "gala" de prémios do YouTube, transmitida em direto a partir de Nova Iorque no domingo. O espetáculo pode ser visto na íntegra aqui e teve mais um ou dois pontos altos destes, incluindo uma pequena encenação, também ela filmada ao vivo, com todas as marcas habituais de uma metragem de Jonze. Foi uma gala que se quis demarcar das outras. Os apresentadores não tinham guião e a passagem de um momento musical para outro obrigava o público presente a correr de palco em palco, como se o espetáculo fosse um pequeno festival de música dentro de portas (a ideia-chave aqui) que pode ser visionado em tempo real por uma audiência global. Os únicos momentos aborrecidos foram mesmo as entregas de prémios, quase sempre previsíveis e desajustadas ao tema geral da noite (o improviso e o "estamos aqui a experimentar uma cena nova, em direto, sem rede"). Os vídeo-fenómenos da internet são demasiado efémeros e inconvencionais para a convencionalidade toda de uma cerimónia de entrega de prémios. Pelo número reduzido de categorias (6?), alguém no Youtube percebeu isso, mas foi difícil mesmo assim cortar por completo com o formato tradicional. (Uma cerimónia de entrega de prémios sem prémios: aí está algo que seria realmente muito à frente fazer.) De qualquer forma, já valeu pelo videoclip acima.

22/06/13

momento Youtube: Just for laughs

 

Já andava a passar quantidades pouco saudáveis de tempo sintonizado no YouTube quando tropecei no canal mais viciante de sempre: o canal do Just for Laughs TV. Sim, são os tipos que produzem aqueles clips de apanhados desmiolados que passam na SIC para encher espaço de antena.

 

Percorrendo o canal youtube, e vendo a quantidade de conteúdos e de visualizações, percebe-se melhor o fenómeno da coisa, ao ponto de já passarem anúncios de turismo para Montreal, onde supostamente as filmagens são feitas. Fica a suspeita de que os apanhados televisivos tornaram-se uma das principais indústrias exportadoras do Quebec, o que a avaliar pela quantidade e diversidade de situações inventadas em ruas e parques da cidade, não pode ser uma coisa boa para o típico habitante de Montreal que gosta de passear despreocupado.

 

O vídeo acima mostra aquela que é, sem sombra de dúvida, uma das mais engenhosas (o meu sentido de humor, por algum motivo, valoriza isso). Um carro, um "satélite da NASA" e um twist no final que aumenta ainda mais a perplexidade dos apanhados (afinal, o objetivo e prazer da coisa). Não é garantido que faça rir toda a gente, mas algumas das situações que estes tipos provocam mereciam um óscar técnico da Academia pelo grau de ardileza envolvido.

02/05/13

carros: Fiat 500

Hoje passei os olhos por tantas coisas que gostaria de partilhar aqui, mas o mais recente vídeo do já aqui mencionado Petrolicious venceu-me logo pela manhã: a cor da pintura, o primor colocado na renovação do carro e, claro, o óbvio gozo que dá à sua dona conduzi-lo. (é quase assim que imagino a Carla a andar pelas ruas de Lisboa - até a cor do blog quase que coincide com a do carro)

06/04/13

por falar em Coches, baby

 

O YouTube no iPad é um dos motivos porque deixei de ligar a televisão à noite. Foi por lá que descobri o canal do Petrolicious, uma série de pequenos vídeos sobre carros de estimação e os seus proprietários. O vídeo acima é sobre o Lamborghini Countach, o superdesportivo das portas que abrem em tesoura, e um dos carros mais icónicos dos anos 70. O seu dono no vídeo tem quase tantas coisas boas quanto más a dizer sobre ele, mas não há dúvidas que é um design ousado em quatro rodas.

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