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30/12/21

Os tempos do Céu sobre Lisboa

E a oportunidade de reler um dos meus blogs preferidos

Em setembro, pude segurar um blog nas mãos — e um blog só pode ter o peso de um livro. Falo d'O Céu sobre Lisboa, o blog mantido pelo Pedro Ornelas entre 2003 e 2008, e que hoje só pode ser lido em livro.

Nunca cheguei a conhecer o Pedro, nem sequer a interagir consigo como leitor, mas lembro-me de ter descoberto o seu blog, logo em 2003, e de o ler de uma ponta à outra, entre o intrigado e o invejoso. Inveja, em primeiro lugar, com aquele título fabuloso, que já pinta uma aguarela na imaginação, antes do modem sequer ter tido tempo de descarregar o template. E depois, com aquele modo de escrever, direto e descontraído, de quem está dentro da cidade, mas a vê-la de fora, graças à lente da curiosidade.

O Pedro parecia sempre pronto para reparar em algo, fosse um detalhe ou cena inusitada, e em partilhar esse motivo de espanto. Os seus textos revelam alguém movido a curiosidade (divertia-se, a título de exemplo, a apanhar o primeiro comboio que estivesse a passar numa qualquer estação de comboios), com lata jornalística para espreitar tudo e travar conversa com todos. O Céu era o seu caderno de observações e curiosidades colhidas nas ruas de Lisboa, e não só. Como o Ivan Nunes explica no prefácio do livro, não se trata, todavia, do típico flâneur:

O narrador deste livro é um flâneur - mas sem inconsequência, sem diletantismo. (...) O que lhe interessa não é só a novidade, mas sobretudo a mudança, que tanto se pode encontrar em coisas novas como naquelas que guardam os traços de uma vida muito antiga.

Por tudo isto, o Céu foi um dos blogs que mais influenciou, no tom e conteúdo, a minha própria escrita nos blogs. Já em setembro de 2008, quando fiquei a saber da morte do Pedro, o admitia: o Céu era o blog que gostaria de ter feito. É por isso que senti o assalto da nostalgia (embrulhada na expetativa sobre o aspeto que um dos meus blogs preferidos teria como livro) quando soube que o blog do Pedro tinha sido resgatado do apagão eletrónico e editado como livro, por iniciativa e esforço de alguns dos seus amigos. Em setembro, pude finalmente adquirir um exemplar, diretamente das mãos da Helena Soares, a mentora do projeto e sua editora.

Para começar, é um livro muito bonito. Nota-se o esmero na sua apresentação, da belíssima capa à paginação (o design é da Silvadesigners), com os posts do Pedro vertidos para o papel tal e qual como foram publicados, sem dispensar as fotografias. A fotografia servia muitas vezes de ponto de partida para os posts do Céu, ao ponto de me fazer questionar se o Pedro hoje seria mais blogger ou instagramer. A relação entre a palavra e a imagem no Céu era, na iminência dos smartphones (e da facilidade na recolha e partilha da fotografia), curiosa e, em retrospetiva, um bocadinho à frente do seu tempo.

Por falar em tempo, a Lisboa das crónicas do Pedro não dista assim tanto da nossa e, no entanto, as duas já não coincidem exatamente. Perceber isso, identificando as diferenças, também faz parte do gosto de ler este diário lisboeta dos anos zero. Como leitor (repetente, ainda por cima) do Céu, achei especialmente surpreendente a quantidade de vezes que me cruzei com o Pedro nos mesmos locais que visitei recentemente: o Castelo de Almada, as bilobas no Jardim das Amoreiras (estamos, precisamente, na sua "época de ouro", em finais de dezembro), a Tapada da Ajuda (que só explorei este ano), são só alguns exemplos. É o tipo de encontro-desencontro que só um livro, com a sua mobilidade, pode proporcionar entre duas pessoas que, apesar de tudo, partilham a mesma cidade-paixão.

Estas ideias à volta do tempo levam-me, inevitavelmente, a pensar em tudo aquilo que o Pedro teria para ver, investigar e comentar nos últimos anos em Lisboa. O que pensaria da cidade confinada? E da cidade esvaziada pelo Airbnb (fundada, precisamente, em 2008)? E do que mudou para melhor? A Ribeira das Naus, descrita no blog, em 2005, com a sua "estação fluvial fantasma", seria um bom exemplo de algo que o Pedro teria, certamente, gostado de conhecer. Não me recordo da existência da estação, mas lembro-me de passar várias vezes pelo estaleiro de obras que ali esteve durante anos, enquanto a zona aguardava definição. Em 2021, é um dos locais obrigatórios da cidade para recuperar horizonte e desfrutar do rio.

Como ideia, este livro também é o fruto tardio, e belo, da amizade. Em 2017, os escritos do Pedro estavam prestes a desaparecer da blogosfera. Hoje, já não é possível consultar o blog no seu endereço original (motivo pelo qual não faço link aqui). Os seus amigos juntaram-se e prestaram-lhe esta derradeira homenagem, a da memória. Ler o Pedro é poder voltar a seguir-lhe os passos e acompanhar o seu olhar por uma Lisboa que ora parece continuar igual, ora mostrar-se irremediavelmente mudada. Por tudo isto, foi uma das leituras que mais me cativaram este ano. É, seguramente, um dos melhores livros sobre Lisboa publicados nos últimos anos.

04/02/21

Desvios

Foi o último livro de biblioteca que trouxe para casa antes do confinamento ser decretado, e parece feito para os dias que correm. Chama-se Lisboa, inclinações, desvios e consiste essencialmente de fragmentos poéticos, escritos e fotografados, inspirados por Lisboa, da autoria de Henrique Dinis da Gama, arquiteto e auto-intitulado amante da cidade.

Dei pela sua capa em destaque há uns anos numa estante da Biblioteca de Belém, e bastou-me folhear algumas páginas para saber que me ia interessar. É uma experiência especial, que invejo a quem faz investigação académica e passa a vida em bibliotecas, esta de encontrar livros sobre os nossos temas preferidos. E ali estava um livro que reúne poesia e fotografia sobre essa musa volúvel e misteriosa que é Lisboa.

Passaram alguns anos desde esse primeiro encontro, até que em dezembro lá o requisitei. Só o abri há uns dias, e ainda bem que o reservei para este tempo de confinamento, porque soube a passeio sem destino pelos telhados da Baixa, pelas escadinhas de Alfama e tantos outros desvios. Lembrou-me o luxo que é passar a perna à rotina e tomar um caminho diferente, na incerteza deliciosa de onde vai desembocar. Um desvio não é só fugir ao caminho mais direto entre A e B. Também pode ser uma forma de passar o tempo e de curto-circuitar o nosso mapa mental da cidade. Já disse que sinto falta de passear por Lisboa?

É uma falta não só dos lugares, mas dos meios. Já estive várias vezes na Baixa da cidade desde março de 2020, mas nunca mais de transportes públicos. O carro tem as suas vantagens, assim como ir à Lua num invólucro metálico com uma reserva de oxigénio para alguns dias. Já fomos à Lua, mas podemos dizer que já passeámos por lá? O carro é uma âncora, que obriga a voltar sempre ao ponto de partida. Todas as distâncias passam a ser medidas em relação ao estacionamento e ao esforço necessário até ao regresso, sem contar que está sempre , a aliciar-nos com a promessa de uma deslocação mais rápida e menos cansativa. Tenho saudades daquelas tardes de sábado sem nada para fazer em que saía de casa sem a mais pequena ideia de onde iria parar. Deixar ao acaso, e ao primeiro autocarro a surgir na paragem, a escolha de uma direção ou zona da cidade para passear sem rumo. O carro nunca me ofereceu essa serendipidade, essa entrega quase total aos caprichos do destino (mesmo que sob o disfarce da oferta de fim-de-semana da Carris).

Isto foi um desvio, certo? Voltando ao livro de Dinis da Gama. Gostei dos seus poemas e do surrealismo que lhes dá corpo. São poemas com geometria à mistura, que abrem vistas novas da cidade.

A segunda metade do livro é dedicada à fotografia e aos detalhes que tornam Lisboa única: os jogos de luz, figuras e texturas do empedrado; a sinuosidade das escadinhas; as ondulações da calçada (levantadas lascivamente pelas raízes das árvores como membros que se movem debaixo de lençóis); os adornos das fachadas e as molduras em pedra das janelas; a árvore, fotografada de cima, que contrasta a exuberância verde da sua folhagem com o quadriculado comprimido do passeio; a pose sedutora de uma árvore, a lembrar um corpo nu de braços no ar; os candeeiros afixados nas esquinas dos prédios que parecem meter a cabeça para fora (sim, precisamos de uma monografia dedicada aos candeeiros lisboetas); a idosa enquadrada pelo postigo da porta, com ar de quem aguarda expectante a passagem do carteiro. Quase todas as fotografias aqui podiam ser o ponto de partida para algo mais.

Ver Lisboa assim fixada nos seus contornos e idiossincrasias é especialmente cativante quando estamos recolhidos em casa na periferia esquecediça da cidade. Dinis da Gama reserva a Lisboa o mesmo olhar apaixonado de um amante pelas pequenas coisas da sua amada. Ela não está toda ali, nunca podia estar, mas os detalhes já são suficientes para descortinar a personalidade e medir o seu poder de sedução. O segredo de beleza de uma cidade só pode ser revelado assim, num poema ou numa fotografia.

09/01/21

Leituras para 2021

Um guia para algumas das leituras que vou tentar fazer este ano

Terre des hommes, Antoine de Saint-Exupéry

"Alguém disse que cada língua que se fala é uma vida a mais a que se tem direito", escreveu a Maria Ribeiro, no seu delicioso livro de crónicas Trinta e oito e meio. E eu continuo a lutar por essa vida extra, persistindo no francês, apesar da falta de prática e da fraca memória. Ler este livro de memórias de Saint-Exupéry vai ser o meu desafio francês do ano.

 

Shooting an Elephant, George Orwell

Outro livro de memórias, que me despertou a atenção pelo título, e que, pela sinopse, não é para ser interpretado no sentido figurativo. Depois de 1984 e de O Triunfo dos Porcos, nunca mais voltei a Orwell e tenho curiosidade para o ler no campo da não-ficção.

 

Oscar Wilde, Richard Ellmann

Quem ler a Carta a Bosie, de Wilde, fica com uma ideia muito precisa da personalidade e estado de alma do escritor na fase final da sua vida, mas continuo curioso para saber mais sobre o seu percurso e obra. Esta biografia de Ellmann é uma das que encontro mais vezes referida.

 

Born With Teeth, Kate Mulgrew

Não cheguei a vê-la em Orange is the New Black mas Mulgrew surgiu e destacou-se aos meus olhos na pele de Kathryn Janeway, capitã da Voyager, a primeira série do universo Star Trek com uma mulher no papel principal. É a série televisiva que eu segui mais de perto e mais vezes revi. Este interesse na Voyager provavelmente merecia um post só dedicado ao tema, mas é uma série, como poucas outras, que soube aliar o futurismo da exploração espacial (um tema que já me é caro) ao humanismo das suas histórias e personagens. Para o género, é uma série bem filmada, que começa a beneficiar dos efeitos especiais avançados dos anos 90, mas a sua força reside no desenvolvimento dos personagens e na existência de um tema central bem definido: a dificuldade em sermos nós próprios (e de nos segurarmos aos nossos valores e princípios) quando somos arremessados para longe de casa e de tudo o que nos é familiar. As fontes de inspiração são muito diversas (a título de exemplo, ocorre-me logo o episódio inspirado na Vita Nuova de Dante Alighieri) e é esse domínio da história e literatura que prendem à vida uma série sobre uma nave espacial perdida noutra galáxia. Mulgrew é a capitã dessa nave e uma das protagonistas femininas mais fortes e seguras que já acompanhei na televisão. É o papel da sua vida, que ela conta na sua autobiografia e estou muito curioso para ler. Por falar em títulos literais (admito que não sabia que era possível nascer com alguma dentição), este é outro que impressiona e oferece um vislumbre sobre a personalidade dentro do livro.

 

Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola, Maya Angelou

Fiquei a conhecer a Maya Angelou pela primeira vez no programa televisivo da Oprah, onde a escritora e poetisa norte-americana foi algumas vezes convidada. A sua bonomia impressionou-me logo, mas nunca cheguei a espreitar nada escrito por si. O seu nome, e este livro em particular, voltou a aparecer referido em 2020, como uma leitura útil para levantar as raízes do racismo sistémico nos EUA (e não só).

27/12/20

6 leituras de 2020

Uma seleção dos livros que mais me marcaram no último ano

Açores a pé, de Nuno Ferreira

Comecei a sua leitura no início do ano, quando ainda fazia parte dos planos voltar aos Açores, e não sonhava que 2020 seria quase todo passado em casa. Antes de surgir a pandemia e o confinamento, já sentia o desejo de partir numa viagem, e a do Nuno não deixa ninguém indiferente. Quem se imagina, hoje em dia, a percorrer ou chegar a algum sítio a pé? É uma proposta única, tanto para quem escreve como quem lê. E abriu caminho, claro, para a leitura, já em confinamento, de outra caminhada épica, Portugal a pé, pelo mesmo autor. 

Não sei quando poderá acontecer, mas este livro redobrou o meu desejo de regressar aos Açores, de ficar a conhecer mais ilhas do arquipélago e de voltar a sentir a hospitalidade dos açorianos.

O prazer da leitura, de Marcel Proust

O título sugere que se trata de um simples, ainda que belo, elogio à leitura e ao mundo dos livros, mas é um pouco mais sombreado do que isso. Proust descreve a leitura como um "milagre fecundo de uma comunicação no interior da solidão" (uma das descrições mais bonitas que já encontrei do ato da leitura), mas desconfia do culto dos livros e da ideia de que é possível cultivar e estimular o intelecto apenas pela leitura.

O Primo Basílio, de Eça de Queirós

Tenho um certo medo de pedir (e fazer) recomendações de leituras a amigos, mas quando uma acerta em cheio, a gratificação é a dobrar, pelo bom gosto na escolha: do livro e do amigo. É um romance que tem todos os ingredientes para uma leitura absorvente: humor, ironia, sexo, traição, crítica social e Lisboa do século XIX.

Marca de Água, de Joseph Brodsky

Falar em literatura de viagens em relação a este livro parece um bocadinho deslocado. Falta uma categoria onde arrumar livros que falem de viagens, sim, mas sempre com o mesmo destino. Literatura de sítios ou Literatura de viagens repetidas parece mais apropriado. No caso de Brodsky, trata-se de uma declaração de amor a Veneza, à sua geografia peculiar, aos seus mistérios e labirintos, às suas sombras e reflexos. 

A man on the Moon: the voyages of the Apollo astronauts, de Andrew Chaikin

Por falar em viagens, eis a mais ousada de todas elas. Já estão em curso os preparativos para enviar novamente homens (e, pela primeira vez, mulheres) à Lua, mas continua a ser difícil de acreditar que houve um tempo e um sítio no século XX (o século das grandes guerras, da explosão do capitalismo e do individualismo) em que foi possível mobilizar quase meio milhão de pessoas com um objetivo tão específico e limitado no tempo. Chaikin faz provavelmente o relato definitivo desse feito da engenharia e audácia humana, sem perder o foco nos 12 homens que pisaram a Lua. Quando lemos sobre os seus percursos de vida, os desafios que enfrentaram e as suas impressões de explorar um mundo extraterrestre, percebemos que são esses testemunhos que servem de prova irrefutável da presença do Homem na Lua. Ninguém com aquele nível de preparação técnica (e emocional) seria capaz de passar o resto da vida a ser recordado de uma mentira dessas pela visão constante da Lua lá no alto do céu.

Anna Karénina, de Lev Tolstoi

Ainda não o quis terminar, mas já é claro que se trata de um dos livros mais impressionantes e arrebatadores que li até hoje. A densidade psicológica dos personagens é tal que parece impossível que aquelas pessoas não tenham existido realmente em algum ponto da história da humanidade e que não tenham aceite partilhar os seus pensamentos com Tolstoi. Sabia que estava a abrir uma das obras-primas da literatura mundial, mas não ia preparado para me rever nas tristezas, ambições e angústias daquela galeria extravagante de personagens da Rússia Imperial. Não consigo desenvolver esta ideia até ao fim, mas imagino que este romance está, de alguma forma, na génese da psicologia moderna. Um dos poucos livros deste ano que tive de desistir de sublinhar logo nas primeiras páginas (sob o risco de todo ele ficar sublinhado).

Mais recomendações de anos anteriores na tag leituras do ano.

06/12/20

Um antídoto para 2020

Uma caminhada do tamanho de Portugal.

Percorrer o país a pé. Dá para conceber um projeto mais nos antípodas de 2020? Foi o que Nuno Ferreira se propôs a fazer, em 2009, e conta no seu livro, Portugal a pé, que andei a ler nos últimos meses. 

O que leva alguém a percorrer tamanhas distâncias pelo seu próprio pé, quando o pode fazer de automóvel ou bicicleta? O Nuno não perde tempo a explicá-lo. Qualquer que tenha sido o motivo para encetar um projeto exigente (de tempo e pés) destes, supõe-se que o leitor que se interessa por um livro assim entende um dos possíveis apelos: a possibilidade de partir numa grande viagem sem depender de mais nada nem ninguém. Um apelo ao escapismo com o qual um leitor de 2020, porventura, é capaz de se identificar de forma mais pungente.

Logo nos primeiros dias, à saída de Sagres, ficam claros os desafios de uma empreitada destas: as queixas dos pés, o peso da mochila, a atenção permanente ao trânsito automóvel. Como seria de esperar pelo ritmo de uma viagem "lenta", as recompensas são um pouco mais espaçadas no tempo e espaço. O Nuno fez carreira no jornalismo e a sua escrita, pouco contemplativa ou introspetiva, reflete essa vocação. Mesmo a dimensão do esforço físico exigido em algumas etapas só é referida ocasionalmente, e por poucas palavras. É igualmente rara a referência a estados de alma, mesmo quando o caminho lhe oferece a ocasional recompensa, habitualmente sob a forma de uma cascata revigorante (no calor do verão) ou de uma vista deslumbrante. Esse registo jornalístico ajuda a manter o foco do livro naquilo que o Nuno mais valoriza ao longo do trajeto: as pessoas com que se cruza e as histórias que têm para contar, sobretudo quando associadas a tradições que ainda tentam manter vivas. Podia ser de outro modo, com uma viagem-livro? De quanto espaço dispõe realmente alguém para resumir num livro tudo o que se pode ver ao longo de uma viagem desta envergadura?

E como é ver Portugal, de uma ponta à outra do território continental, ao longo das quatro estações, pelos olhos de um caminhante solitário, em 2009? Por um lado, um país ligado por estradas, dependente do automóvel, desabitado e envelhecido no interior, marcado pela chaga dos incêndios e descaraterizado pela construção caótica. Por outro, uma paisagem natural rica em contrastes e beleza, das praias às serranias, pontuada pela hospitalidade, boa comida e pelo empenho em conservar e reavivar tradições quase esquecidas.

Algo que também ressalta da forma como o Nuno é recebido em alguns dos sítios por onde passa é uma certa desconfiança em relação àqueles que vêm de fora, ou se apresentam de formas inesperadas, nos lugares mais tocados pela desertificação. O Nuno procura dar mais importância aos muitos exemplos de simpatia e bom acolhimento que recebeu, mas também dá conta como o seu avistamento em algumas aldeias quase desabitadas gerou sobressalto e, por alguns acasos infelizes, conduziu a encontros bruscos com as autoridades.

Desprovido de companhia e de grandes percalços, são muitas vezes os detalhes aparentemente insignificantes que o Nuno vai captando, à beira do caminho ou na voz daqueles com quem se cruza, que ajudam a manter o interesse na paisagem. É também por isso, e pela sua habitual contenção, que é tão surpreendente chegar, a dado ponto do livro, a uma corajosa revelação pessoal do Nuno, que a longa viagem o obriga a confrontar e faz abandonar a estrada durante alguns meses. Essa interrupção, a par de um acidente no Marão (um episódio com o qual qualquer pessoa que já se perdeu na natureza consegue identificar-se), são os momentos mais dramáticos narrados no livro, que mesmo assim não chegam para lhe dar ares de uma viagem de auto-descoberta. O Nuno parece mais partir de um lugar de curiosidade e disponibilidade do que de ânsia reflexiva, e isso reflete-se nas suas crónicas, mais próximas da reportagem do que da auto-contemplação. 

Precisei de quase dois meses para terminar a leitura porque fazia questão de reservar dez a vinte minutos do meu dia para verificar o progresso do Nuno, como se estivesse a acompanhá-lo em tempo real. Abrir este livro, em qualquer página, é abrir uma espécie de portal para uma localidade algures no país. No contexto do teletrabalho e do confinamento, foi bom ter esse escape à mesmice dos dias ao alcance de um livro. Não há forma mais fácil e barata de viajar.

Tudo isto leva-me a pensar na dimensão do desafio subjacente a esta viagem e na sorte que temos de habitar uma terra que é possível palmilhar de lés a lés num espaço de tempo relativamente curto (dois anos, no caso do Nuno). Ficar a conhecer um país ao ritmo de uma caminhada, mesmo um com o tamanho de Portugal, é um feito físico e psicológico notável, e até quem não sente o chamamento para repetir tal façanha é capaz de se sentir inspirado pela perseverança demonstrada pelo Nuno Ferreira. Difícil também não pensar como é que se encara o ano de 2020 com as lembranças de uma viagem destas.

Onde é que encaixa um projeto destes, de caminhar sozinho ao longo de milhares de quilómetros? Não é por acaso que, por onde passou, o Nuno seja confundido ora com um peregrino, ora com um meliante. A modernidade e a desertificação esvaziaram de sentido a viagem a pé, ao ponto de aparecer quase sempre retratada como ato de fé ou de loucura. Este Portugal a pé (e o excelente Açores a pé que se seguiu) não é um nem outro, mas, como qualquer ideia que apaixona a imaginação, oscila perigosamente entre os dois. 

25/05/20

Interrupção à normalidade

Estava a precisar de começar um livro novo, e virei-me para o Ensaio sobre a Lucidez, de José Saramago, que aguardava na estante há uns anos. Tinha vaga ideia de se tratar de uma espécie de Ensaio sobre a Cegueira virada do avesso, e fiquei surpreendido por perceber que é quase uma sequela, com pontos de ligação à história e personagens do romance anterior.

A ideia de uma cidade inteira a votar em branco tem tanto de estapafúrdio quanto a população de um país a cegar de um dia para o outro, mas conhecendo a obra de Saramago, e o que ele consegue fazer com situações que desafiam a verosimilhança, rendi-me à curiosidade.

Se tivesse que contrastar muito rapidamente a Cegueira e a Lucidez, diria que este romance concentra-se naquilo que o primeiro empurrou para fora do caminho, que é o lado político. A Cegueira é um livro sobre a perda da humanidade numa situação-limite, cuja evolução ultrapassa rapidamente qualquer possibilidade de intervenção política. É nesse ponto que o enredo da Lucidez pára o relógio, a tempo de evitar a desagregação total e de nos deixar ver como é que o poder político reage a um fenómeno novo que não compreende e, portanto, tem tudo para recear.

Uma história sobre as maquinações do poder político tem tudo para me interessar, mas senti problemas logo à partida, com aquela impessoalidade característica que Saramago aplica a algumas situações, por servirem de exemplos de uma realidade maior. Uma espécie de "não vale a pena demorarmos muito nestes personagens, porque são apenas um exemplo em mil". Percebo a utilidade do mecanismo, mas isso fez com que tenha dado por mim sempre a calcular as hipóteses do próximo personagem sem nome ser o nosso protagonista. Foi preciso chegar a meio do livro para ter um vislumbre da direção na qual a narrativa seguiria, e mesmo depois disso, dei por mim a olhar constantemente pelo ombro, como quem duvida das direções recebidas.

Apesar dessas ligeiras frustrações de leitor impaciente, estaquei quando cheguei à parte do muro. Não quero spoilar nada a ninguém, por isso basta dizer que foi nesse ponto que o livro deu uma reviravolta para mim. O que passava por estapafúrdio, passou a parecer, a este leitor do ano 2020, uma descrição desconcertante dos males que afligem atualmente algumas das democracias ocidentais. Está lá tudo: a prepotência, o culto da ignorância e a manipulação pela comunicação em massa. Nada disto é novo, nem sequer a ideia do muro, mas é difícil não ver e sublinhar as semelhanças entre aquilo que Saramago imagina e a real interrupção à normalidade que vivemos.

Feito esse paralelo, o que podemos aprender com a Lucidez de Saramago, e trazer para os nossos tempos de incerteza? Recusar a culpabilização, que serve como forma de distração, e leituras simplistas da realidade, baseadas na noção de que a realidade pode ser aquilo que o poder político quer que seja, são dois pontos de partida.

15/12/19

8 livros que podiam aparecer no meu sapatinho

Livros na minha wishlist

Gosto de listas, gosto do Natal, não podia deixar de gostar de wishlists. A ideia não é realmente pedir presentes, nem sequer de ir comprar as coisas que listo. É mesmo pela satisfação de listar, de organizar desejos e, com isso, quem sabe, resistir-lhes...

1. Apollo to the Moon: A History in 50 Objects

Fiz uma pausa na leitura do livro de Andrew Chaikin, sobre o programa Apollo, mas continuo atento a livros sobre o tema. Este, em particular, pisca o olho a quem gosta de listas e fotografia para contar a história da viagem à lua.

 

2. The Making of Tintin: Mission to the Moon, de Benoît Peeters

Por falar em viagens à Lua, a aventura do Tintin deslumbrou-me em miúdo. Este livro conta a história do seu making of e é uma oportunidade para poder regressar a esse cantinho do meu imaginário, com a desculpa de perceber como foi criado.

 

3. Paris Street Tales

Só a ideia de viajar até Paris cansa-me. As distâncias envolvidas, os transportes, as enchentes de turistas, a exorbitância dos preços... é mesmo mais fácil e confortável de explorá-la em livro. Este reúne contos sobre ou passados na cidade, um por cada arrondissement.

 

4. Humans of New York: Stories, de Brandon Stanton

Já o li e falei dele aqui, mas é um daqueles livros que gostava de ter na prateleira.

 

5. Epic bike rides around the world

Aquela capa transporta-me imediatamente. Não ando de bicicleta há coisa de um ano, desde que o meu passe das bicicletas Giras expirou, e estou a acusar a falta dessa liberdade. Andar de bicicleta é uma liberdade, para tomar a via menos direta, para apanhar sol, para sentir o vento na cara, para mostrar que há outras formas de nos movermos. Este livro prendeu-me logo pela capa, muito sugestiva dessas liberdades e dos caminhos que nos esperam mundo fora. Gostava de, pelo menos, saber que caminhos são esses.

 

6. The Institute, de Stephen King

A crítica no NYT ao mais recente livro de King não é entusiasmante, mas li algumas páginas numa livraria e senti a faísca da curiosidade. Sei que vou acabar por ler a edição eletrónica, mas gostava de evitar olhar para um ecrã nas minhas férias de Natal.

 

7. Ficção Curta Completa de H. G. Wells

Já li algumas coisas de H. G. Wells e embora não tenha ficado rendido, gostava de lhe dar uma segunda oportunidade.

 

8. Groundhog Day, de Ryan Gilbey

Um dos meus filmes favoritos de sempre teve direito a um livro sobre o seu making of. Como resistir?

31/12/18

Dez livros de 2018

Lord Jim, de Joseph Conrad
Conrad tornou-se nos últimos anos, à medida que vou lendo mais da sua obra, um dos meus autores preferidos, apesar da arrogância que pressinto em alguns momentos da sua escrita. Não encontrei ninguém, até agora, que rivalize com o poder descritivo de Conrad. "Lord Jim" é mais um exemplo acabado do que é possível fazer com esse poder.

 

Viver com os outros, de Isabel da Nóbrega
Um exercício de leitura de mentes entre um grupo de amigos e conhecidos reunidos para jantar e socializar num apartamento lisboeta na década 60. Parte da diversão (ou desafio) deste livro também passa por ser feito quase exclusivamente de diálogos (alguns deles interiores), sem atribuição explícita a esta ou aquela personagem. Não sabia quem era Isabel da Nóbrega até ler este ano um artigo sobre a sua obra, mas o que li suscitou a minha curiosidade. Não me arrependi de ter dado a oportunidade.

 

Humans of New York: Stories, de Brandon Stanton
Já conhecia o Humans da internet e, mesmo assim, não contava gostar tanto deste livro. Cada um de nós tem uma história única para contar, com a qual podemos aprender, rir, chorar e crescer. E é fascinante que baste a um tipo com carisma e uma câmara parar desconhecidos na rua para vermos isso tão claramente.

 

Não respire, de Pedro Rolo Duarte
Já falei deste livro aqui no blog e continuo a pensar nele de vez em quando, sobretudo naquela frase do Pedro sobre o tanto que falta para fazer. Não há tempo e energia a perder.

 

Pão de açúcar, de Afonso Reis Cabral
É um livro que a cada capítulo fica mais perto de um desfecho terrível que, de início, me parecia errado ser apropriado pela ficção. O que é que a ficção pode acrescentar ao que aconteceu à Gisberta? Ou o risco pode mesmo ser o de subtrair algo? Terminada a leitura, pareceu-me que acrescenta alguma humanidade à história da Gisberta e também à daqueles miúdos. Mísero consolo, talvez. Mas já é qualquer coisa para quem não quer acreditar que tudo se perdeu naquele poço.

 

A Cultura Mundo, de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy
Mais um livro de que falei aqui no blog e que recomendo a qualquer pessoa que procure uma moldura para enquadrar e pensar o tempo em que vivemos.

 

O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick
Uma surpresa e o ponto de partida para descobrir a obra de Philip K. Dick, que me parece ter sido um autor invulgar a vários níveis.

 

Call me by your name, de André Aciman
Uma leitura que soube a uma escapadinha de 5 dias pela Itália. Tem a combinação perfeita de horas de sol, refeições ao ar livre e passeios de bicicleta por aldeias italianas. Além de ser uma bela história do primeiro amor (e do mais difícil).

 

Os Filósofos e o Amor, de Aude Lancelin
Por falar em amor, um apanhado muito por alto, mas interessante, das várias formas como esse sentimento foi pensado e explicado ao longo da história. Na falta de um manual para amar, é um belo substituto.

 

Olhando o sofrimento dos outros, de Susan Sontag
Se o livro fosse meu, teria voltado para a estante quase todo sublinhado. Sontag não se demora em contemplações, é muito direta a fazer ligações e a partir para hipóteses de sentido. Como fotógrafo amador e consumidor de notícias é um livro que me parece obrigatório para pensar o lugar privilegiado que ocupamos de observadores da tragédia do nosso tempo e mundo.

20/10/18

Falar em público

Ontem ao final da tarde fiz algo que já não fazia há bastante tempo: falei em público. Aconteceu num encontro do Clube de Leitura da Cocó na Fralda. Acompanho o blog da Sónia desde que se mudou para o SAPO Blogs e há já algum tempo que sentia curiosidade em relação ao clube. Ontem, finalmente, consegui aparecer e quase derreti com a simpatia com que fui recebido por todas as participantes. Era o único homem no grupo e, aparentemente, o primeiro a aparecer sozinho numa sessão, o que me surpreendeu.

Nunca tinha participado num clube de leitura, mas gostei do formato adotado, no qual cada participante faz uma breve intervenção sobre um livro que tenha lido recentemente. É um formato informal e descontraído que me parecem ser o cunho da própria Sónia como anfitriã e moderadora. Quando chegou a minha vez, não consegui deixar de sentir aquela vertigem que surge com o desafio de falar em público, mesmo tratando-se de um grupo pequeno de pessoas. Acho que atabalhoei um bocadinho as palavras, mas a experiência foi positiva. Se sentem falta, como eu, de mais conversas e encontros à volta de livros, em que se possam trocar impressões e sugestões de leitura, recomendo vivamente que fiquem atentos ao blog da Sónia e apareçam numa futura sessão. Até há bolo...

E o livro que levei comigo? Foi o A Cultura Mundo, de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, dois filósofos interessados em analisar e enquadrar o tempo em que vivemos, as forças que o atravessam e os seus efeitos na vida em sociedade. Gostei de o ler porque faz um excelente retrato da nossa época, sem cair no pessimismo e deixar de apontar algumas possíveis respostas às difíceis questões que ela nos coloca.

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