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horizonte artificial

ideias e achados.

O caminho salgado

Se gostam de caminhadas na Natureza, aceitem este conselho: vão ver "The Salt Path", realizado por Marianne Elliott, ainda em algumas salas de cinema. Bastava dizer que é um daqueles filmes que nos abrem o coração ao mundo, mas apetece dizer muito mais e isso já é um sinal do quão bom é, quando nos encoraja a recomendá-lo aos quatro ventos.

Interessei-me pelo filme por completo acaso, ao ler a sinopse e dar pela coincidência de contar a história de um casal que é empurrado pelas circunstâncias da vida a iniciar uma caminhada ao longo da costa sudoeste da Inglaterra  apenas semanas depois de eu próprio ter percorrido parte do Trilho dos Pescadores, na nossa costa vicentina. Perdi o hábito de espreitar a programação dos cinemas, daí o acaso ter-me parecido especialmente feliz.

Não é um filme fácil, aviso já, mas caminhar longas distâncias também não. A minha caminhada mais recente foi marcada por altos e baixos, de percurso e emocionais, e não deixou de ser uma das melhores experiências que tive a viajar sozinho nos últimos anos. Ora sentia-me o ser mais pequeno do mundo, perante a extensão da caminhada e da solidão que tomava conta de mim, ora o maior, perante o panorama diante dos meus olhos. Não é muito diferente do que a vida faz connosco, mas tudo concentrado em alguns dias e em contacto com a Natureza (e o desconforto da ocasional camarata).

A minha forma de voltar a recomendar, a quem quer que seja, que faça (ou repita) alguma caminhada semelhante passa por este filme, realizado e filmado por alguém que, claramente, já fez o mesmo. Bom filme, e bom caminho!

Uma fotografia de 2023

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Já parece um pouco tarde, eu sei, para ainda estar a pensar em 2023, mas gosto deste exercício de criatividade/partilha, que consiste em contar a história de uma fotografia meio aleatória dos 12 meses anteriores. Vamos a isto?

A fotografia acima é de novembro, da viagem que fiz à Madeira com a minha mãe. A árvore ao centro da imagem é impressionante na forma como se multiplica em ramos (adorava saber que espécie é, algum género de cipreste?), mas não foi isso que me levou a tirá-la.

Como não queria conduzir nesta viagem, mas fazia questão de mostrar à minha mãe mais da Madeira para além do Funchal, inscrevi-nos numa excursão privada que passava por alguns dos principais pontos de interesse da ilha. Na tarde desta fotografia, uma das paragens mais demoradas acabou por coincidir com um dos pontos do circuito mais desprovidos de interesse de que alguém se podia lembrar (uma quinta de aquacultura). Estava tão frustrado com a coisa que decidi dar uma volta a pé na zona. Foi o que me fez descobrir que ali perto passava uma levada (algo que ainda não tinha visto na viagem até aí). O guia que nos conduziu tinha dado ao nosso grupo até às 16h15 para visitarmos a quinta e fazermos algumas compras nas lojas de recordações em volta (o verdadeiro motivo, parece-me, para a nossa paragem ali) até termos de regressar ao autocarro. Eram 15h45, e eu ali, dividido entre a obrigação de voltar para trás e o desejo de avançar no percurso e mergulhar um pouco no lado mais bravio da Madeira.

Decidi avançar, com uma regra-compromisso: ir o mais longe possível em 15 minutos e, esgotado esse quarto de hora, voltar para trás a tempo de embarcar sem obrigar alguém a ter de esperar por mim (uma situação que tento evitar a qualquer custo). Pois bem, a fotografia foi feita às 16h, no ponto em que o tempo e as minhas circunstâncias me obrigaram a inverter o percurso. Adorava ter continuado e descoberto onde um caminho assim, misterioso e saturado de natureza, podia conduzir, mas já tinha esticado ao máximo a "corda" invisível que me permitia sequer estar ali.

Sei que não sou o único a inventar estes pequenos jogos mentais para me obrigar (ou desobrigar de) a algumas coisas, e achei que seria engraçado partilhar aqui um deles. E sim, embora tenha cumprido à risca a hora estipulada, já só faltava eu para o autocarro poder arrancar para o próximo destino. Senti que mais ninguém vislumbrou um motivo para me fazer demorar num sítio assim, aparentemente tão desprovido de interesse. O meu segredo agora também é vosso.

Trilho dos Pescadores: um caminho entre o mar e a terra

 O que fazer quando temos uma semana de férias para gozar, ninguém disponível com quem passá-las e pouco dinheiro para gastar? A resposta: enfiar a tenda dentro de uma mochila e partir rumo à costa alentejana para caminhar 60 quilómetros em três dias.

 

Fiquei a saber do Trilho dos Pescadores pela reportagem da Isa no seu blog e entrou imediatamente na minha lista de coisas a fazer um dia. As circunstâncias alinharam-se finalmente há duas semanas, pelas razões acima, e posso já dizer que partir à descoberta deste pedaço da costa alentejana foi uma das melhores experiências que tive até hoje de contacto com a natureza. Percorrer aquelas paisagens valeu todas as dores que inflingi aos meus pés nos dias seguintes.

Decisão tomada, a preparação foi toda feita em um dia. Graças aos posts da Isa, já tinha uma noção geral do trilho e do grau de esforço envolvido, pelo que só precisei de estudar um pouco o site oficial do projeto e planear as paragens que faria em parques de campismo ao longo das quatro etapas recomendadas (Porto Covo, Vila Nova de Milfontes, Almograve, Zambujeira do Mar e Odeceixe).

Descobri que levar o indispensável e um pouco menos do que isso é uma das regras mais importantes para quem se prepara para caminhar com uma tenda às costas. Comprei uma mochila para longas caminhadas (com 70 litros de capacidade), na qual transportei confortavelmente 3 a 5 quilos de tralha para acampar e mais algumas tshirts. A vantagem de acampar (em parques, visto que o campismo selvagem é proibido em toda a extensão do percurso) é que me permitia viajar sem ter de fazer reservas. Se tivesse precisado, teria flexibilidade para descansar mais tempo entre cada etapa.

 

No primeiro dia, fiz como a Isa: aguentei as 3 desnecessariamente longas horas de autocarro até Porto Covo e comecei imeditamente a seguir os sinais (deixados em postes, árvores, paredes, pedras e pequenos marcadores de madeira, etc). Menos de 5 minutos depois de deixar a vila, estava entregue a mim mesmo, sem ninguém à volta. O trilho está completamente integrado no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Rota Vicentina, pelo que é muito pouco frequentado e quase exclusivamente por outros viajantes (além de, como o nome sugere, alguns pescadores). Conjugada com a autonomia proporcionada pelo trilho (só precisei de recorrer ao GPS do telemóvel uma ou duas vezes para tirar dúvidas), a sensação é de liberdade quase absoluta quando damos por nós sozinhos no topo de uma falésia, a dominar um areal deserto e a perder de vista.

Outro aspeto formidável deste trilho tem de ser o contraste que oferece a cada lado do cérebro. À esquerda (ou direita, para quem ruma a Norte), a terra, feita de dunas, bosques e toda a espécie de vegetação. À direita, o mar, com as suas falésias, rochedos e praias desertas. Estamos a trilhar, muitas vezes sem margem de erro (tal é a proximidade do precipício), a linha que desenha o continente. É uma espécie de exercício de funambulismo paisagístico.

 

Se ficarem curiosos para saber e ver mais, saltem para o relato completo da Isa, que fez o trilho na melhor altura do ano (primavera) e publicou provavelmente a melhor reportagem fotográfica das paisagens ao longo do percurso (não é por acaso que, nos resultados do Google, os seus posts aparecem logo depois do site oficial).

Deixo só mais algumas notas rápidas sobre a minha experiência:

- essencial: ténis ou botas de caminhada, de preferência pouco porosos (por causa da areia).

- útil mas não essencial: uma app que permita carregar e consultar o trilho contra a vossa localização em tempo real. O trilho é muito direto e intuitivo (segue quase sempre junto à costa), mas faz alguns desvios para evitar áreas de elevada erosão, pelo que pode ajudar a tirar dúvidas.

- etapa preferida: tive de regressar mais cedo a casa (por motivos alheios à viagem), pelo que ainda me falta fazer a etapa entre a Zambujeira e Odeceixe, mas do que fiz, o que mais me deslumbrou foram as praias desertas (durante a semana e em setembro, é certo) a sul de Porto Covo.

- o grau de dificuldade para principiantes como eu em trilhos: houve 2 ou 3 pontos do trilho (exemplo) que me surpreenderam por obrigarem a subir ou descer com pontos de apoio, mas a verdadeira dificuldade reside mesmo nas longas distâncias feitas em areia. Calçado adequado e confortável é o aspeto mais crítico desta viagem (assim como toda a espécie de cremes que possam levar para fazer as pazes com os vossos pés ao final do dia).

- um atalho (ou batotice): na segunda etapa, aceitei a sugestão de encurtamento e apanhei o barco entre Vila Nova de Milfontes e a praia das Furnas, para poupar o esforço de fazer 1 a 2 quilómetros em cidade (o barco custa 2€ e é muito rápido).