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horizonte artificial

ideias e achados.

Fortunata

Perco posts todos os dias, para a preguiça, para o descanso, para a leitura e muitas outras coisas fora de linha. Mas não queria perder este. Estava a correr há pouco na rua, já de noite (leram-no primeiro aqui, o verão de 2023 está a chegar ao fim), e estar num caminho de terra batida, sem iluminação pública, ativou aqui uma memória minha, de um regresso a casa similar, há mais de 20 anos, no interior da serra algarvia.

Tinha ido com a minha avó buscar alguma coisa à arca congeladora de uma vizinha, e devemos ter ficado à conversa mais do que o previsto, porque só me recordo de voltarmos a sua casa, a algumas centenas de metros de distância num local algo isolado, já depois do sol se pôr. Na minha memória, tateámos mais o caminho do que o marchámos, comigo um pouco apreensivo e de olhos totalmente abertos à escuridão. Era apenas um miúdo, criado na cidade, que desconhecia por completo a sensação de percorrer um caminho já caída a noite. A minha avó, entretanto, não hesitou por um minuto, como se visse no escuro. Não sei precisar a distância em causa, até porque a recordação desvanece-se por completo antes de reentrarmos em casa. Ainda assim, consigo recriar na imaginação a sensação de conforto que devo ter experimentado, garantidamente, ao subir o pequeno carreiro até casa e voltar à segurança da luz das velas (a única iluminação de que a minha avó dispunha), para um jantar especialmente saboroso (imagino que tenha sido bife, aquele que fomos buscar à vizinha).

É uma das poucas recordações da minha avó a que consegui agarrar-me e, por isso, uma das que mais prezo. A minha avó foi uma pessoas mais gentis e enérgicas que conheci até hoje, e quando me apercebi disso, passada a fase caprichosa da adolescência e do início da minha vida adulta, já era demasiado tarde. Depois do meu pai adoecer, deixámos de fazer férias e de a visitar. Nos seus últimos anos de vida, só voltei a vê-la uma vez, no seu centenário: um marco impressionante que, apesar de tudo, conseguimos assinalar, numa visita-relâmpago tão estapafúrdia (por motivos alheios a ela e a quem a quis visitar) quanto preciosa.

Sinto necessidade de contar tudo isto para que não fiquem dúvidas: não fui o neto que gostaria de ter sido. Perdi inúmeras oportunidades para criar e atualizar recordações com esta mulher admirável, que deu à luz 8 filhos e cuidou deles em condições que são impensáveis no nosso tempo. Lembro-me dela sempre com um sorriso ternurento no seu rosto enrugado e um brilho de tenacidade no olhar. Tinha um sagaz sentido de humor que partilhava connosco em poucas palavras e uma sabedoria tranquila que foi consolidando ao longo de décadas a superar todo o género de contrariedades, a começar naquelas mais básicas que o seu quotidiano lhe impunha (sem luz e sem água canalizada) e nas outras associadas ao isolamento a que estava votada numa região afastada das grandes cidades e progressivamente esvaziada de gente. Reveladoramente, todo este isolamento nunca produziu nela qualquer vestígio da tacanhez ou rudeza que hoje encontramos um pouco por todo o lado no nosso mundo em rede.

Se eu pudesse voltar atrás... podia completar esta frase de muitas maneiras, mas teria, sobretudo, aproveitado para passar mais tempo consigo. Ela, certamente, não teria pedido mais do que isto. Foi uma das pessoas mais impressionantes que conheci e só ganhei consciência disso quando já não estava entre nós.

Há muito tempo que sinto isto, mas só hoje, ao correr no escuro, é que me ocorreu como a memória desta pessoa praticamente já só subsiste na memória viva dos seus filhos e netos. Isso é o mais importante, e isso basta, mas senti falta de deixar aqui esta frágil (e já sumida) cópia de segurança da minha recordação.

O selo da saudade

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Foi uma semana meio desperdiçada, marcada pela falta de energia, sobretudo física, mas também criativa. Por isso, virei-me para o arquivo, onde encontrei esta fotografia de uma praia em Sagres, que me faz pensar num envelope de pedra, com uma aba feita de céu e mar. Olhar para novembro com os olhos de junho, deste junho, ainda parece um bocadinho irreal. O choque e a ansiedade de março já lá vão, mas a normalidade ainda parece estar longe. Aquela normalidade que nos permitia, por exemplo, desligar de tudo nas férias. Não me consigo lembrar de uma única coisa que estivesse a marcar a atualidade em novembro de 2019. A nível pessoal, só recordo o entusiasmo e a pressa que tinha, ao final de cada dia daquelas férias, para ir assistir ao pôr-do-sol no mar.