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20/01/21

Sono pesado

Esta madrugada, por volta das 3h, acordámos cá em casa com o som tímido, mas percetível, de um "acudam" vindo da casa colada à nossa no mesmo piso do prédio ao lado. Nunca tínhamos visto a vizinha em causa, apesar de já aqui viver há mais tempo do que nós, mas sabíamos tratar-se de uma senhora idosa, já na casa dos 90 anos, a viver sozinha. Não eram gritos de socorro, pelo menos como imaginamos que soam. Era preciso encostar praticamente a cabeça à parede para ouvi-la. O tom era lamuriento, sem sinal de pânico ou aflição na  voz. Podia passar por uma conversa mais triste ao telefone, se não fosse o tardar da hora e o ocasional "ajudem", que a parede pelo meio podia ou não estar a distorcer. Na dúvida, ligámos para a esquadra local e explicámos a situação. O carro-patrulha apareceu quase imediatamente. Depois de tentarem a casa da vizinha, os agentes tocaram em todas as campainhas do prédio. Eventualmente, alguém lá despertou e abriu a porta da rua, mas deu tempo para os agentes pedirem para entrar em nossa casa, de modo a tentarem ouvir a senhora e avaliar o que se passava. Foi preciso quase uma hora, e um escadote dos bombeiros, para conseguirem entrar na casa e encontrarem a senhora caída da cama, apenas com sinais de alguma desorientação. Não havia perigo iminente, nem foram precisos cuidados médicos, felizmente, mas era mesmo um pedido de auxílio.

Se tivesse que nomear a maior dificuldade que a pandemia agravou no meu quotidiano, não hesitaria em responder: vizinhos. Já perdi a conta ao número de noites que passei em claro depois de ser arrancado do sono ao som de música, jantares tardios, portas a explodirem, conversas animadas até altas horas, entre outras causas. E, para tornar tudo ainda mais frustrante, com origem quase sempre diferente. Alguns problemas resolveram-se sozinhos, com outros foi precisa uma cordial chamada de atenção. Na maioria das vezes, não consegui mais voltar a adormecer. É difícil saber exatamente em que medida é que a pandemia veio piorar a situação (a minha vizinhança nunca foi especialmente cuidadosa ou respeitosa das horas de sossego), mas a ansiedade e o acréscimo de tempo passado em casa vieram agravar tudo. Nunca estive tão atento aos ruídos que me rodeiam (e são muitos) como agora e tão precisado de uma boa noite de sono.

Posto isto, o que me desconcertou em toda a situação desta madrugada foi mesmo a dificuldade que a polícia teve a despertar os nossos vizinhos do prédio ao lado, na maioria gente jovem, para lhes abrirem a porta da rua. É um dos prédios mais barulhentos da nossa vizinhança, e foi preciso um quarto de hora, possivelmente, até que o dedo insistente na campainha surtisse efeito. Foi estranho presenciar aquele avesso: estar acordado quando todos estão a dormir, querer acordá-los e, mesmo assim, não conseguir.

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