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24/03/20

Realidades trocadas

Terça-feira, 17 de março

Como muita gente, senti a necessidade de colocar por escrito as pequenas e grandes maneiras como o nosso quotidiano foi abalado na última semana pela pandemia da Covid-19. Optei por publicar estes posts em diferido, cada um com uma semana de atraso, para minimizar o risco da minha própria (e assumida) ansiedade poder contribuir para a de outrem.

Depois de cinco dias a trabalhar a partir de casa, com saídas pontuais para apoiar as deslocações de outro membro da família, chega a hora de enfrentar a nova realidade.

Bem cedo de manhã, saímos de casa pela primeira vez para ir às compras no mercado da nossa freguesia. À entrada, sinais pintados na calçada indicam a distância de segurança a manter de quem espera à nossa frente na fila, à semelhança das marcas de segurança que vemos na auto-estrada. É uma boa ideia, só que a novidade da situação apanha as vinte ou trinta pessoas já presentes desprevenidas. Ninguém se tinha apercebido dos sinais antes da fila começar a serpentear aleatoriamente pelo passeio fora.

Minutos antes do mercado abrir, funcionários da junta chamam a atenção para a necessidade de seguir o percurso marcado na calçada e a fila deixa de existir, assim como a distância de segurança. Na confusão, perdemos o nosso lugar e somos assediados por um indivíduo, chegado depois de nós, que tenta furar alguns lugares na fila e sugere, em tom provocatório, que estamos a tentar fazer-lhe o mesmo. Tentamos ignorá-lo e deixamo-nos estar no nosso não-lugar, nem dentro nem fora da fila, à espera que todos voltem a encontrar o seu. Sinto a tensão do confronto e uma sensação nova, assustadora, de insegurança.

Minutos depois, chegados à entrada da praça, um funcionário de máscara, vestido num fato de proteção dos pés à cabeça, pede-nos para aguardar, enquanto outro esguicha um gel desinfetante nas nossas mãos. Nada preparava, à saída de casa, para uma tentativa de intimidação ou para o aparato sanitário à entrada do mercado, apenas dias depois desta crise se precipitar. A sensação, entre a descrença e o pavor, é a de estar perante um caso de realidades trocadas.

Lá dentro, tudo mais calmo, apenas uma linha desenhada no chão, a limitar a distância que se deve guardar das bancadas com alimentos expostos. Estamos na minoria, dos que não usa máscara (e não tem, em casa, stock suficiente para usar uma nova diariamente), o que parece reforçar a nossa vulnerabilidade.

Menos de 15 minutos depois, abandonamos o mercado com as compras mais essenciais feitas, entramos no carro (habitualmente desnecessário para um percurso tão pequeno) e, sem trocarmos um olhar ou palavra, permitimo-nos respirar fundo. Foi uma experiência que não queremos repetir tão cedo.

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