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03/04/20

O grande incêndio

Sexta-feira, 27 de março

76 mortes em Portugal desde o início da epidemia. A cada dia que passa há mais relatos aflitivos de lares de terceira idade em situações de contágio explosivo. Num certo sentido, o país parece estar novamente a arder.

Lá fora, as notícias são igualmente desanimadoras. Em alguns países da Europa, a catástrofe parece não ter fim, com centenas de mortes por dia. Nos EUA, a incompetência da administração atual, aliada a um sistema de saúde magríssimo e sem capacidade de resposta, faz-me recear pelo que pode vir a acontecer por lá. O país mais rico do mundo parece ser, inexplicavelmente, o menos preparado para esta crise.

No Brasil, o seu presidente incendiário está determinado a contrariar tudo e todos e a manter o país a funcionar, custe as vidas que custar. Já (quase) todos sabíamos o que podíamos esperar dele, mas esta indiferença zombeteira pela vida de milhões é de uma vileza criminosa. Infelizmente, o mundo está demasiado ocupado para reparar e repudiá-lo como merece, antes do mal estar feito.

Fui procurar distração de tudo isto na fotografia. Já é hábito antigo meu, pesquisar no flickr ou instagram por fotografias tiradas em Lisboa (e outros sítios que gosto de rever). A maioria das fotografias que encontrei hoje por lá são de passeios ou férias passadas na cidade antes da epidemia, mas foi um escape bem-vindo.

Há um ano, interessei-me pelo livro "O grande incêndio do Chiado", com fotografias de Rui Ochôa, José Carlos Pratas, Fernando Ricardo e Alfredo Cunha, para tentar perceber como os fotojornalistas da altura registaram um acontecimento com aquela magnitude no coração da cidade de Lisboa. A conclusão é que ninguém consegue registar tudo, e que todos temos de aproveitar ao máximo as circunstâncias em que o imprevisível nos encontra. É por isso que o livro juntou as perspetivas de vários repórteres, não só do incêndio em si, mas também dos trabalhos de rescaldo.

Um bom exemplo atual de como o fotojornalismo português está a responder à pandemia é o everydaycovid, um coletivo de repórteres que se juntou no instagram para partilhar algum do seu trabalho sobre o tema (haverá outros de momento? já não me recordo, sequer, do que abria os noticiários no final de fevereiro). Têm documentado ruas e estradas vazias, claro, mas também algumas das maneiras como a sociedade civil se tem mobilizado para proteger os grupos de maior risco e apoiar o trabalho dos profissionais de saúde.

É por saber que há gente empenhada em fazer a diferença lá fora que, mesmo sem ser fotojornalista, sinto o chamamento desta situação, e uma grande vontade de ir para a rua documentar o que está a acontecer e a ser feito. Também pode ser aquela frustração, que provavelmente muita gente já sentiu, em maior ou menor grau, nas últimas semanas, de sermos espetadores caseiros de tudo isto, sem um papel mais ativo para desempenhar. Seja como for, o estado de emergência, aliado às minhas circunstâncias pessoais, não me permite ir mais longe do que o fundo da rua. À falta de alternativa, aproveito as corridas ocasionais e as idas às compras para registar o que vou vendo com o telemóvel. É só o meu bairro, mas sei que reflete o que está acontecer por muitos outros bairros do país (e mundo).

A imagem do dia: o Papa Francisco, sozinho, a orar na Praça de São Pedro, no Vaticano. Um espaço feito para receber centenas de milhares de pessoas parece ganhar ainda mais monumentalidade quando visto assim, vazio à exceção de um só homem.

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