Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

horizonte artificial

ideias e achados.

Ninguém, ninguém

Sobre as frases que nos encontram

No final do mês fui a Guimarães assistir a uma conferência dedicada ao tema das viagens do ponto de vista dos produtores de conteúdos (bloggers, escritores, profissionais da fotografia e vídeo, etc). Foi uma experiência um pouco solitária, mas muito positiva, sobretudo pelas histórias de viagens que ouvi relatadas e pelo foco na responsabilidade que cabe a cada um na hora de escolher os lugares para onde viaja e de relatar o que lá viu. No fundo, foi um lembrete para algo que todos há muito sabemos, mas tendemos a esquecer: viajar é como cozinhar e quanto mais lenta for a preparação, mais sustentável e apetitosa será a refeição (e a viagem).

O ponto alto da conferência para mim, todavia, pouco teve a ver com viagens. Envolveu simplesmente a letra de uma canção, improvisada a certa altura por um dos oradores mais carismáticos do fim-de-semana (e da minha curta experiência como conferencista). Falo de David Freitas, um professor de Gondomar que há uns anos sentiu o chamamento para se envolver em iniciativas de cariz humanitário. Em 2020, criou um projeto chamado Ambulance for hearts com o objetivo de angariar donativos para adquirir e doar uma viatura (cheia de latas de leite de substituição materno) a um orfanato na Guiné-Bissau, um país onde a taxa de mortalidade infantil nos primeiros anos de vida ainda é muito elevada. Acontece que conseguir a carrinha pareceu a parte mais fácil, comparada com a façanha logística, recheada de pequenos contratempos, de ter de a conduzir ao longo de mais de 4 mil quilómetros até ao seu destino...

Não consigo aqui resumir, por poucas palavras, o conteúdo da apresentação do David, uma daquelas pessoas que só ocorre descrever como transformadoras, mas basta dizer que foi especial. Usou o humor (virado contra si próprio), a música e um bandolim para desconstruir a intenção e o espírito da sua viagem de uma forma que deixava pouca margem à vanglória. Lá pelo meio, cantou uns versos de Ninguém, Ninguém, a canção de Marco Paulo, que já conhecia mas nunca tinha realmente escutado com a merecida atenção, talvez devido à velocidade que o cantor lhe imprime. Desta vez, porém, na plateia do David, não escapei ao impacto daquela frase certeira sobre como ninguém é mais forte que o amor.

É uma daquelas frases espantosas que parece que nos encontram inesperadamente nos sítios e momentos mais improváveis — e absolutamente certos.

3 comentários

Comentar post