Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

25/05/20

Interrupção à normalidade

Estava a precisar de começar um livro novo, e virei-me para o Ensaio sobre a Lucidez, de José Saramago, que aguardava na estante há uns anos. Tinha vaga ideia de se tratar de uma espécie de Ensaio sobre a Cegueira virada do avesso, e fiquei surpreendido por perceber que é quase uma sequela, com pontos de ligação à história e personagens do romance anterior.

A ideia de uma cidade inteira a votar em branco tem tanto de estapafúrdio quanto a população de um país a cegar de um dia para o outro, mas conhecendo a obra de Saramago, e o que ele consegue fazer com situações que desafiam a verosimilhança, rendi-me à curiosidade.

Se tivesse que contrastar muito rapidamente a Cegueira e a Lucidez, diria que este romance concentra-se naquilo que o primeiro empurrou para fora do caminho, que é o lado político. A Cegueira é um livro sobre a perda da humanidade numa situação-limite, cuja evolução ultrapassa rapidamente qualquer possibilidade de intervenção política. É nesse ponto que o enredo da Lucidez pára o relógio, a tempo de evitar a desagregação total e de nos deixar ver como é que o poder político reage a um fenómeno novo que não compreende e, portanto, tem tudo para recear.

Uma história sobre as maquinações do poder político tem tudo para me interessar, mas senti problemas logo à partida, com aquela impessoalidade característica que Saramago aplica a algumas situações, por servirem de exemplos de uma realidade maior. Uma espécie de "não vale a pena demorarmos muito nestes personagens, porque são apenas um exemplo em mil". Percebo a utilidade do mecanismo, mas isso fez com que tenha dado por mim sempre a calcular as hipóteses do próximo personagem sem nome ser o nosso protagonista. Foi preciso chegar a meio do livro para ter um vislumbre da direção na qual a narrativa seguiria, e mesmo depois disso, dei por mim a olhar constantemente pelo ombro, como quem duvida das direções recebidas.

Apesar dessas ligeiras frustrações de leitor impaciente, estaquei quando cheguei à parte do muro. Não quero spoilar nada a ninguém, por isso basta dizer que foi nesse ponto que o livro deu uma reviravolta para mim. O que passava por estapafúrdio, passou a parecer, a este leitor do ano 2020, uma descrição desconcertante dos males que afligem atualmente algumas das democracias ocidentais. Está lá tudo: a prepotência, o culto da ignorância e a manipulação pela comunicação em massa. Nada disto é novo, nem sequer a ideia do muro, mas é difícil não ver e sublinhar as semelhanças entre aquilo que Saramago imagina e a real interrupção à normalidade que vivemos.

Feito esse paralelo, o que podemos aprender com a Lucidez de Saramago, e trazer para os nossos tempos de incerteza? Recusar a culpabilização, que serve como forma de distração, e leituras simplistas da realidade, baseadas na noção de que a realidade pode ser aquilo que o poder político quer que seja, são dois pontos de partida.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

imagem de perfil

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.