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15/03/20

Dias extraordinários

Em novembro, a pedido da MJP, escrevia sobre a liberdade e como se conjuga na rua. Nunca pensei, ao escrever essas palavras, que podia dar por mim, e por nós todos, praticamente privados dessa liberdade essencial, apenas alguns meses depois, devido ao esforço coletivo de contenção de uma nova ameaça à saúde pública. Felizmente, é só temporário e a criatividade, aliada à tecnologia, permite-nos continuar ligados e ativos.

À cascata de cancelamentos e encerramentos, durante a semana, seguiu-se o apelo generalizado para ficar em casa, onde estou a trabalhar desde quinta-feira, com as saídas indispensáveis à rua. Os meus únicos contactos sociais passam pela troca de mensagens bem-humoradas com amigos e familiares por todo o país, também em isolamento.

Este sábado, as esplanadas aqui do bairro ainda tinham clientes, a aproveitarem a tarde de sol, mas encontrei um restaurante encerrado, ao qual fiz nota mental de voltar quando tudo isto passar. A sentida justificação que se lê afixada à porta, escrita à mão, resume bem a responsabilidade que o momento exige: "Lamentamos a decisão mas é para bem de todos". O sublinhado não é meu.

A chuva de aplausos que se fez ouvir na minha rua às dez da noite, marcada pela internet em sinal coletivo de apreço pelo trabalho dos profissionais de saúde, foi a única coisa a arrepiar o sossego deste sábado estranho, com ar de feriado em véspera de temporal.

Perguntei à minha mãe, do alto dos seus 76 anos, se tem memória de alguma situação parecida, e a resposta foi perentória: "nada assim". Da minha parte, só consigo encontrar pequenos episódios com vagos ecos emocionais: a breve experiência coletiva do apagão de 2000 em todo o país, o choque generalizado com o 11 de setembro, a tímida apreensão com o esvaziamento do espaço aéreo durante a crise vulcânica na Islândia, etc. De resto, é um momento coletivo sem termo óbvio de comparação. É paz com guerra à doença.

Nas notícias, há relatos de enfermeiros e médicos a voluntariarem-se nos hospitais para assegurar turnos. Nas redes, correm fotografias das notas afixadas nas portas de alguns prédios com os contactos dos vizinhos que se disponibilizam para fazer as compras essenciais por quem pode estar mais vulnerável ao novo coronavírus. Nos blogs, andamos a destacar receitas, livros e todo o tipo de estratégias para afastar o tédio e exercitar a mente. Escrever este post já é uma forma de escape. Estamos isolados, mas parece que nunca estivemos tão unidos e empenhados no bem comum.

A mobilização para ficar em casa e este empenhamento comunitário sem precedentes, aliados ao trabalho dos profissionais de saúde, vai certamente evitar sofrimento e permitir-nos regressar à normalidade mais cedo do que tarde, porventura mais fortes do que antes. Quando isso finalmente acontecer, contem comigo para repetirmos julho de 2016, e corrermos novamente para a rua.

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