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10/06/20

Desconfinamento

Uma atualização ao meu diário diferido sobre o tempo que vivemos, com algumas notas soltas sobre a atual fase de desconfinamento:

  • Não sinto que passaram três meses. O tempo parece ter dilatado e encolhido várias vezes desde que tudo isto começou. A impressão agora é de que voltou a dilatar. Daí me parecer que passou muito mais tempo desde aqueles primeiros dias de março.
  • Nunca deixei totalmente de sair à rua, para comprar bens alimentares ou correr (na realidade, passei a correr mais) durante a fase de confinamento, pelo que não sou daqueles que está a viver o desconfinamento mais intensamente (daquilo que fui lendo nos blogs, houve quem efetivamente tenha conseguido não sair de casa durante estes três meses). Mesmo assim, é um alívio não ter de pensar em cercos sanitários e proibições de deslocações entre concelhos. Acatei e compreendi as restrições aplicadas aos movimentos, mas nem por isso deixei de sentir que a minha liberdade individual esteve condicionada durante aquele tempo.
  • Ao nível do meu quotidiano, para lá de continuar a trabalhar a partir de casa, a única mudança assinalável é que passei a ter sempre comigo uma máscara têxtil, na eventualidade de precisar de entrar em alguma loja ou espaço fechado. Não me causa qualquer transtorno e, à luz do que sabemos hoje sobre a disseminação do vírus (que ainda é muito pouco, diga-se), penso que podíamos ter sido aconselhados mais cedo a usar máscara comunitária no nosso dia-a-dia. Mesmo sabendo que as máscaras comunitárias não filtram partículas mais pequenas, e que, portanto, não oferecem grande proteção, o seu uso generalizado dá-me uma sensação de segurança acrescida. Pergunto-me, por isso, até quando serão obrigatórias em espaços fechados e, depois disso, se as continuarei a usar por opção pessoal.
  • O número de casos na área metropolitana de Lisboa continua a crescer, aparentemente em contra-ciclo ao que está a ocorrer no resto do país, e admito que não sei bem o que pensar dessa evolução. Para já, sinto que não se justifica qualquer alarme social, se continuarmos todos a seguir as recomendações das autoridades de saúde.
  • Voltei a rever, aos poucos e com algumas cautelas (uso de máscara, encontros ao ar livre e mantendo alguma distância), algumas caras amigas. As chamadas e as mensagens escritas são boas, mas nada substitui a presença física. Tenho-me aguentado bem, mas espanta-me, e muito, contar pelos dedos de uma mão, o número de amigos que vi ao vivo nos últimos três meses.
  • Cá em casa, já esplanámos juntos, numa pastelaria perto de casa, que nos pareceu oferecer todas as condições de segurança. A primeira vez foi um pouco a medo, mas as vezes seguintes souberam mesmo muito bem - souberam a limão, para ser exato, que é o sabor da água com gás que costumo pedir.
  • Já lá tinha passado de carro, durante o estado de emergência, e testemunhado o esvaziamento total da Baixa, mas na semana passada voltei a descer a rua Garrett a pé. Visita obrigatória à Bertrand, claro, onde comprei o meu primeiro livro em meses. Estava uma tarde ótima, sem demasiado calor, e mesmo assim, parecia estar tudo a meio-gás. Ainda falta gente à Baixa (eis uma queixa que nunca pensei que faria).
  • Voltei a provar um pastel de Belém, quentinho, com canela. Cada um de nós cá em casa acabou por comer dois. E já repeti a visita.
  • Ainda sobre o tema do tempo, há uma coisa que ainda não me largou: esta ideia de viver numa moldura virtual de 14 dias (o tempo estimado, após o contacto com o vírus, para apresentar sintomas da COVID-19). Dou por mim a pensar no que fiz há 14 dias e a respirar de alívio sempre que alguma visita (a uma loja ou espaço fechado) ou interação social, que na altura me pareceram mais arriscadas, ficam de fora dessa janela de tempo.
  • Entretanto, fiz anos, e foi um dia bem passado por casa, com direito a bolo de laranja caseiro.
  • Terminei cinco livros, incluindo três dos que me propus ler este ano. Também arranjaram um canto de leitura na vossa casa? A minha teoria é de que sinto falta daquele cantinho no comboio onde costumava abrir o livro que carregava comigo, e que se tornou uma espécie de espaço-tempo reservado à leitura (agora abolido).
  • Por falar em transportes públicos, não entro num há exatamente três meses.
  • Não fui à manifestação anti-racismo em Lisboa, mas teria ido, se tivesse sabido dela antecipadamente. No contexto de uma pandemia, acho sensato evitar grandes aglomerações de pessoas, mas a angústia e a revolta com o racismo e a discriminação não são festivais de verão, que podem ser reagendados. Perante as provas de brutalidade policial e discriminação sistémica nos EUA, houve um grande número de pessoas que reconheceu que esses males também estão presentes e ativos na sociedade portuguesa. É por isso que me parece que ir para a rua protestar, com máscara e distância de segurança, só é perigoso para o racismo.

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