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24/02/21

Auto-poesia

Inventei um sistema de fintar a preguiça de ler poesia: deixá-la no carro, para aquelas alturas em que não resta literalmente mais nada para fazer. Chamei-lhe auto-poesia e é uma das minhas mais imaginativas (e desesperadas) ideias de 2020. O primeiro livro de poemas que usei para testar este sistema, e o primeiro em anos que consigo terminar de ler, foi Jóquei, de Matilde Campilho, publicado em 2014.

Não consigo fazer-lhe um elogio mais completo do que aquele que Pedro Mexia lhe dedicou, mas achei que podia falar dele aqui, sobretudo na sequência do post anterior, sobre o processamento que a escrita faz da vida. O Jóquei é um exemplo muito claro disso, e do que a poesia pode ser. Passei o livro a pensar para os meus botões como gostaria de ter a habilidade para fixar em poemas algumas das coisas que só a mim podem ter acontecido (naquele minuto, naquela rua, com aquelas pessoas, com a minha atenção). Vou fixando algumas delas aqui no blog, pela escrita ou fotografia, porque acho que preciso dessas construções, mas também porque me parecem infinitamente mais fáceis de mexer nelas. Além do grande domínio da língua que exige, a poesia é biografia sem bilhete de identidade (ou, para usar uma expressão minha, é fotografia sem metadata). Implica prescindir de uma série de coisas que estamos formatados a pedir ao texto, a começar pela explicação. O poema é um texto que não sente necessidade de se explicar. E isso vai contra tudo o que fui habituado, no entretenimento e no jornalismo, a esperar do texto.

A analogia não deve ser nova, mas a poesia parece estar para a prosa, como o bonsai está para a jardinagem. No fundo, a poesia também é uma arte da miniaturização, feita de uma atenção extrema às unidades mínimas do sentido (as palavras?). A esse nível "microscópico", a escolha de uma palavra pode fazer toda a diferença. Fascina-me imaginar, por exemplo, que um poeta, desafiado a isso, consiga escrever um poema a partir de um hemograma (sim, acredito que já tenha sido feito).

A propósito de tudo isto, Roland Barthes tem um pensamento, no seu ensaio "O prazer da leitura", que me parece valer muito a pena trazer para aqui:

Valéry dizia: «Não pensamos palavras, só pensamos frases.» Dizia-o porque era escritor. Chama-se escritor, não àquele que exprime o seu pensamento, a sua paixão ou a sua imaginação por frases, mas sim àquele que pensa frases: um Pensa-Frase (isto é: aquele que não é nem um pensador nem um fraseador).

É isso que um escritor faz. Inventa, pensa frases, que são, no fundo, novas formas de ver o mundo. A escrita, seja poética ou não, é uma máquina de reinventar o mundo.

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