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horizonte artificial

ideias e achados.

filmes: ainda Pina

Apetece-me tanto falar deste filme, mas quando tento colocar tudo por escrito, as palavras não parecem suficientes para descrever a sua beleza e simplicidade. Se o cinema e a dança podem fazer algo espantoso juntos, a prova acabada está em "Pina", o tributo cinematográfico de Wim Wenders à obra quase sobre-humana da coreógrafa alemã Pina Bausch (1940-2009). O filme revela como Wenders está para o cinema como Bausch para a dança, na maneira como puxam e alargam os limites das formas de arte em que se movimentam.

"Pina" é tão diferente de todos os outros filmes, e mesmo assim consegue comover e impressionar tanto ou mais do que a maioria deles. Adorava isolar aqui todas as cenas, todos os aspectos do filme que eu achei brilhantes, mas é mesmo uma daquelas coisas, diferentes e inesperadas, que para serem devidamente celebradas precisam de ser vistas. Sem pensar muito nisso, 5 estrelas, para inaugurar aqui no blog o hábito de classificar filmes.

Também a não perder, a banda sonora do filme, que pode ser ouvida no Grooveshark. Aquela incrível música que toda a gente procura depois de sair do cinema é Lillies of the Valley, de Jun Miyake (e no excerto acima ouve-se "My one and only love", de Thom Hanreich).

Pina (2011), de Wim Wenders: 5/5

10 filmes de 2010

flickr/ordinaryphoto

Devo ter visto mais de 40 filmes no cinema em 2010, graças ao cartão Medeia, e houve de tudo. Filmes que repeti, filmes difíceis de aguentar até ao fim, filmes com os quais impliquei desde o primeiro minuto e outros que esqueci mal saí da sala de cinema. Esta é a lista, com 6 meses de atraso, dos 10 que por vários motivos guardei na memória e recomendo.

 

Estômago (2007), Marcos Jorge

Um filme de dar água na boca e a prova de como é pelo estômago que se governam os homens. Caminha ali numa linha ténue entre a insalubridade e a voluptuosidade culinária.

 

 

Entre Irmãos (2009), Jim Sheridan

Irmandade, lealdade e coragem são alguns dos temas desdobrados, mas aquilo que fica é o olhar fixo de Tobey Maguire e a noção de que se pode morrer por dentro. É raro um filme americano deixar tantas perguntas difíceis por responder.

 

Um profeta (2009), Jacques Audiard

O filme conduz-nos ao interior de uma cadeia francesa e é rápido a largar-nos a mão. Os primeiros 20 minutos são de uma brutalidade angustiante e revelam em termos seguros como a sobrevivência é o único modo de vida ali permitido.

 

Precious (2009), Lee Daniels

Tinha tudo para correr mal: uma história de faca e alguidar passada no Harlem, uma actriz principal desconhecida que traz o seu peso na vida real para o papel, o apoio financeiro da maior personalidade televisiva dos EUA (Oprah Winfrey) e, claro, num papel secundário, Mariah Carey. E mesmo assim não correu nada mal.

 

Canino (2009), Giorgos Lanthimos

Uma comédia negra que nos conduz ao interior de uma insuspeita vivenda grega, onde três jovens adultos foram endrominados desde nascença a temerem e evitarem o mundo exterior. Os três são vítimas de uma farsa tão completa que os isola de qualquer noção da vida lá fora ("Mar", é-lhes dito, é uma cadeira) e que tem como arquitectos os próprios pais. Não é um filme para ver com a família.

 

Estado de Guerra (2008), Kathryn Bigelow

Um filme de explosões e emoções controladas, sobre o quotidiano no Iraque de um especialista em desmantelamento de bombas do exército americano. Como é que um sítio pode ser tão hostil à normalidade e a violência ser tão impiedosa? É impossível não sair deste retrato do Iraque sem pensar nisso e no que a ficção fica a dever à realidade.

 

Um cidadão exemplar (2009), F. Gary Gray

Clyde Shelton, interpretado por Gerard Butler, é um homem fora de controlo, depois de sucumbir a um desejo de vingança total, imparável e inesgotável na sua capacidade para nos surpreender até ao fim com os novos níveis de absurdo a que chega. Um thriller de acção que cumpre a sua parte do acordo, sem fazer perguntas. Da mesma forma, não me perguntem o que está a fazer nesta lista.

 

A Rede Social (2010), David Fincher

A história das pessoas que nos fizeram olhar para os nossos amigos como uma forma de entretenimento virtual. Fica a dúvida se gostaríamos de ser amigos de alguma delas. Fiquem atentos aos gémeos (isto é, para quem não tenha visto ainda).

 

Um lugar para viver (2009), Sam Mendes

Burt e Verona descobrem que estão à espera de um filho e embarcam numa viagem pela América à procura de um sítio onde possam criar a sua família. Enternecedor, engraçado e uma das melhores bandas sonoras do ano no cinema (a cargo de Alexi Murdoch) ajudam-no a conquistar o lugar nesta lista.

 

Humpday (2009), Lynn Shelton

Um reencontro entre dois grandes amigos, uma enorme bebedeira e uma ideia tão tresloucada que faz "A Ressaca" parecer uma brincadeira de crianças. Genuinamente hilariante, capaz de gerar ao mesmo tempo desconforto e ternura. Inesperadamente honesto e um dos melhores filmes que vi em 2010. Não se deixem assustar pela sinopse.

Nas nuvens


 


Quem já viu "Up in the air" deve ter apreciado a beleza do genérico inicial do filme. Estabelece o tom do filme na perfeição, e quem já acompanha aqui o blog sabe que não podia deixar de referir o jogo entre os títulos e as nuvens. O site da Apple tem um pequeno vídeo sobre o genérico. (via)

Man on Wire

Só há alguns dias é que cheguei finalmente a ver o documentário Man on Wire, que conta a história de como Phillipe Petit, com a ajuda de alguns amigos e de uma grande dose de ousadia, foi capaz de subir, à socapa, ao topo do World Trade Center, em 1974, e caminhar numa corda bamba entre as duas torres gémeas, 400 metros acima do solo.

 

Foi uma das coisas mais excepcionais que vi recentemente e recomendo vivamente o documentário a quem esteja curioso em saber como Petit planeou e executou tamanha proeza. Diga-se que foi tanto um golpe de génio quanto de sorte.

 

Um dos muitos aspectos fascinantes da façanha é a maneira como a própria ideia de andar entre as torres gémeas surgiu a Petit. Segundo ele, aconteceu enquanto folheava uma revista na sala de espera do dentista. Uma imagem das duas torres, na altura ainda não construídas, foi o suficiente para o enfeitiçar, fazer arrancar a página da revista e sair porta fora, tomado pelo entusiasmo. A dor de dentes que o levou lá continuou durante dias, mas levava no bolso algo capaz de mudar a sua vida para sempre. O que é uma dor de dentes comparada com o sonho de uma vida no bolso, pergunta ele para a câmara.

 

Deixo um remix do trailer oficial do documentário que encontrei no Vimeo, que me pareceu bem feito e mais sintonizado com o tom do filme do que o oficial.