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horizonte artificial

ideias e achados.

Follow friday #4: Arca de Darwin

É um dos poucos blogs de fotografia e natureza que ainda resistem na blogosfera portuguesa e dá-me muito orgulho que esteja no nosso bairro. Falo da Arca de Darwin, que já coleciona maravilhas e curiosidades da natureza desde 2012 e podia (devia) ter dado uma crónica num jornal. Para nossa sorte, deu um blog, que podemos seguir facil e gratuitamente aqui ao lado. Não é raro pesquisar informação sobre uma espécie qualquer de flor ou árvore e o blog do Miguel ser o primeiro (e mais esclarecedor) resultado no Google. A esse conhecimento, o Miguel junta ainda um grande talento para a fotografia que invejo e me inspira continuamente. Não é preciso melhor recomendação do que essa.

Sobre manter um diário

"É superficial encarar um diário apenas como um recetáculo dos pensamentos privados e secretos de cada um — como um confidente surdo, mudo e analfabeto. No diário não só me exprimo de uma forma mais aberta do que faria com qualquer pessoa, mas crio-me a mim própria. O diário é um veículo para o meu sentido de individualidade. Representa-me como emocional e espiritualmente independente. Em consequência (infelizmente) não é um registo simples da minha vida diária — em muitos casos — oferece uma alternativa ela."

— Susan Sontag, em Renascer.

Ninguém, ninguém

Sobre as frases que nos encontram

No final do mês fui a Guimarães assistir a uma conferência dedicada ao tema das viagens do ponto de vista dos produtores de conteúdos (bloggers, escritores, profissionais da fotografia e vídeo, etc). Foi uma experiência um pouco solitária, mas muito positiva, sobretudo pelas histórias de viagens que ouvi relatadas e pelo foco na responsabilidade que cabe a cada um na hora de escolher os lugares para onde viaja e de relatar o que lá viu. No fundo, foi um lembrete para algo que todos há muito sabemos, mas tendemos a esquecer: viajar é como cozinhar e quanto mais lenta for a preparação, mais sustentável e apetitosa será a refeição (e a viagem).

O ponto alto da conferência para mim, todavia, pouco teve a ver com viagens. Envolveu simplesmente a letra de uma canção, improvisada a certa altura por um dos oradores mais carismáticos do fim-de-semana (e da minha curta experiência como conferencista). Falo de David Freitas, um professor de Gondomar que há uns anos sentiu o chamamento para se envolver em iniciativas de cariz humanitário. Em 2020, criou um projeto chamado Ambulance for hearts com o objetivo de angariar donativos para adquirir e doar uma viatura (cheia de latas de leite de substituição materno) a um orfanato na Guiné-Bissau, um país onde a taxa de mortalidade infantil nos primeiros anos de vida ainda é muito elevada. Acontece que conseguir a carrinha pareceu a parte mais fácil, comparada com a façanha logística, recheada de pequenos contratempos, de ter de a conduzir ao longo de mais de 4 mil quilómetros até ao seu destino...

Não consigo aqui resumir, por poucas palavras, o conteúdo da apresentação do David, uma daquelas pessoas que só ocorre descrever como transformadoras, mas basta dizer que foi especial. Usou o humor (virado contra si próprio), a música e um bandolim para desconstruir a intenção e o espírito da sua viagem de uma forma que deixava pouca margem à vanglória. Lá pelo meio, cantou uns versos de Ninguém, Ninguém, a canção de Marco Paulo, que já conhecia mas nunca tinha realmente escutado com a merecida atenção, talvez devido à velocidade que o cantor lhe imprime. Desta vez, porém, na plateia do David, não escapei ao impacto daquela frase certeira sobre como ninguém é mais forte que o amor.

É uma daquelas frases espantosas que parece que nos encontram inesperadamente nos sítios e momentos mais improváveis — e absolutamente certos.

Uma zebra nas ruas de Abrantes

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Uma borboleta-zebra a desfrutar de um pequeno canteiro no que parecia ser a balaustrada de uma residência particular em Abrantes. Se tivesse uma casa assim, seria difícil não ficar o dia todo à janela, a espreitar a passagem destes visitantes alados. Este passeio por Abrantes deu um bilhete-postal para o SAPO Viagens, se quiserem ver o pequeno oásis que encontrei no seu topo.

Follow Friday #3: Brr

Estamos em 2023 e quando pensamos que já não é possível encontrar um blog que trate um tema ou situação absolutamente nova, descobrimos o brr, um diário mantido a partir de um dos locais mais remotos do planeta, a Antártida.

O autor é um engenheiro informático norte-americano que está a trabalhar e viver numa das bases científicas dos EUA mais isoladas do continente gelado, a meros 100 metros do ponto que assinala o Pólo Sul. É um local tão extremo, em termos de clima e geografia, que está efetivamente cortado do mundo durante os seis meses do inverno polar. Nessa altura, entre fevereiro e outubro, a estação é mantida por uma equipa de 50 elementos entregues a si próprios, sem qualquer ligação aérea ou terrestre possível à base mais próxima (sem exceções, até para emergências médicas).

Outros já mantiveram diários a partir de sítios remotos, mas este blogger oferece um ponto de vista no qual a maioria das pessoas é capaz de se rever. Não sendo cientista, militar ou veterano deste género de trabalhos, o autor parece-se com alguém que podia ter caído ali de pára-quedas e começado a fazer perguntas sobre tudo. Ele não aprofunda a sua motivação para se ter voluntariado a passar meio ano fechado no Pólo Sul, mas imagino que não é algo que se faça de ânimo leve.

Os posts são esporádicos, mas muito completos (sem serem técnicos ou fastidiosos no nível de detalhe) na forma como abordam cada vertente do funcionamento e quotidiano da base. Não tenho dúvidas de que, mais cedo ou mais tarde, irá inspirar uma série (ficção, documentário, policial ou terror na neve, o que quiserem) na Netflix. Não sou argumentista, mas só de ler o blog, consigo imaginar alguns enredos que podiam ter lugar ali.

É uma experiência pela qual eu gostava de passar? Uma pandemia, e uma Jornada Mundial da Juventude depois, tenho que responder negativamente. Imagino que fosse capaz de aproveitar bem o confinamento (e vencer no Goodreads), mas passar seis meses sem ver o sol seria terrível para mim. Mesmo no verão, a ideia de não ver terra, árvores e/ou quaisquer outros seres vivos (além de humanos) durante tanto tempo é algo que me parece intolerável ao ponto de parecer uma tortura psicológica desnecessária. Esta região toca tantos extremos (a temperatura média mais baixa registada, por exemplo, chegou aos 73 graus Celsius negativos) que é difícil de acreditar que faz parte do mesmo planeta que nós.

Fortunata

Perco posts todos os dias, para a preguiça, para o descanso, para a leitura e muitas outras coisas fora de linha. Mas não queria perder este. Estava a correr há pouco na rua, já de noite (leram-no primeiro aqui, o verão de 2023 está a chegar ao fim), e estar num caminho de terra batida, sem iluminação pública, ativou aqui uma memória minha, de um regresso a casa similar, há mais de 20 anos, no interior da serra algarvia.

Tinha ido com a minha avó buscar alguma coisa à arca congeladora de uma vizinha, e devemos ter ficado à conversa mais do que o previsto, porque só me recordo de voltarmos a sua casa, a algumas centenas de metros de distância num local algo isolado, já depois do sol se pôr. Na minha memória, tateámos mais o caminho do que o marchámos, comigo um pouco apreensivo e de olhos totalmente abertos à escuridão. Era apenas um miúdo, criado na cidade, que desconhecia por completo a sensação de percorrer um caminho já caída a noite. A minha avó, entretanto, não hesitou por um minuto, como se visse no escuro. Não sei precisar a distância em causa, até porque a recordação desvanece-se por completo antes de reentrarmos em casa. Ainda assim, consigo recriar na imaginação a sensação de conforto que devo ter experimentado, garantidamente, ao subir o pequeno carreiro até casa e voltar à segurança da luz das velas (a única iluminação de que a minha avó dispunha), para um jantar especialmente saboroso (imagino que tenha sido bife, aquele que fomos buscar à vizinha).

É uma das poucas recordações da minha avó a que consegui agarrar-me e, por isso, uma das que mais prezo. A minha avó foi uma pessoas mais gentis e enérgicas que conheci até hoje, e quando me apercebi disso, passada a fase caprichosa da adolescência e do início da minha vida adulta, já era demasiado tarde. Depois do meu pai adoecer, deixámos de fazer férias e de a visitar. Nos seus últimos anos de vida, só voltei a vê-la uma vez, no seu centenário: um marco impressionante que, apesar de tudo, conseguimos assinalar, numa visita-relâmpago tão estapafúrdia (por motivos alheios a ela e a quem a quis visitar) quanto preciosa.

Sinto necessidade de contar tudo isto para que não fiquem dúvidas: não fui o neto que gostaria de ter sido. Perdi inúmeras oportunidades para criar e atualizar recordações com esta mulher admirável, que deu à luz 8 filhos e cuidou deles em condições que são impensáveis no nosso tempo. Lembro-me dela sempre com um sorriso ternurento no seu rosto enrugado e um brilho de tenacidade no olhar. Tinha um sagaz sentido de humor que partilhava connosco em poucas palavras e uma sabedoria tranquila que foi consolidando ao longo de décadas a superar todo o género de contrariedades, a começar naquelas mais básicas que o seu quotidiano lhe impunha (sem luz e sem água canalizada) e nas outras associadas ao isolamento a que estava votada numa região afastada das grandes cidades e progressivamente esvaziada de gente. Reveladoramente, todo este isolamento nunca produziu nela qualquer vestígio da tacanhez ou rudeza que hoje encontramos um pouco por todo o lado no nosso mundo em rede.

Se eu pudesse voltar atrás... podia completar esta frase de muitas maneiras, mas teria, sobretudo, aproveitado para passar mais tempo consigo. Ela, certamente, não teria pedido mais do que isto. Foi uma das pessoas mais impressionantes que conheci e só ganhei consciência disso quando já não estava entre nós.

Há muito tempo que sinto isto, mas só hoje, ao correr no escuro, é que me ocorreu como a memória desta pessoa praticamente já só subsiste na memória viva dos seus filhos e netos. Isso é o mais importante, e isso basta, mas senti falta de deixar aqui esta frágil (e já sumida) cópia de segurança da minha recordação.

O X não marca o lugar

Apanhei uma referência ao Feedly num blog esta semana, pela primeira vez em anos, e lembrei-me subitamente que já não o abria há quase tanto tempo. Fui a correr espreitar o leitor de feeds e, para meu espanto, a minha conta ainda estava ativa e a receber as atualizações de um punhado de blogs dispersos pela internet afora, sobretudo norte-americanos.

Dei-me ao trabalho de limpar as subscrições que já não funcionam (blogs que foram apagados e perderam-se no éter binário) e, apesar de tudo o que já sabemos sobre a grande crise na blogosfera, não consegui evitar ficar admirado com a quantidade de domínios desaparecidos (alguns deles criações geniais, das quais não abdicaria facilmente, se tivessem surgido da minha cabeça).

E onde é que andei para perder de vista o Feedly durante todo este tempo? O Blogs tem uma área de leituras que funciona como um leitor de feeds e que me deixa acompanhar todos os blogs que subscrevo no charco. Ocasionalmente, vou espreitando os blogs que são atualizados noutras plataformas e que não aparecem nessa área, mas ter um leitor de feeds que faz isso por nós é muito melhor, claro. Infelizmente, o Feedly parece ter mudado consideravelmente desde a última vez que o usei, com publicidade a aparecer dissimulada na listagem de posts atualizados. Vou dar uma oportunidade, mas sinto que já estou com um pé na rua novamente.

Há outro motivo para sentir um certo vazio nas minhas rotinas digitais, precipitado por aquilo que só consigo designar como o "fim" do Twitter. Para mim, o final coincidiu com o dia em que abri o telemóvel e dei com o ícone e o nome do pássaro azul trocados por um X branco em fundo preto. Assim de repente, não me ocorre outro exemplo em que uma marca tão conhecida tenha simplesmente desaparecido da noite para o dia, para dar lugar a algo que, literalmente, não é possível verbalizar e não parece ter associada qualquer ideia substantiva.

Ainda tenho a minha conta no-antigo-serviço-conhecido-por-Twitter, mas despromovi a aplicação para um ecrã secundário no telemóvel (para contrariar o gesto automático de abertura) e passei a publicar mais regularmente no Mastodon, uma plataforma que se parece com o antigo Twitter, mas à qual ainda faltam algumas coisas, a começar por gente para seguir. O lado bom: parece um sítio mais sossegado e amigável do que a plataforma que pretende emular. O lado mau: sinto uma falta enorme da facilidade com que seguia diariamente alguns OCS e instituições que foram tornando o Twitter cada vez mais interessante. O exemplo mais patético de uma conta de que sinto falta é a "Palavra do Dia", do dicionário da Priberam, que soube casar uma funcionalidade já existente da sua página com um meio de comunicação ideal para espalhar, bom, a palavra, sem tirar nem pôr. Adoro a simplicidade daquela conta (exatamente uma palavra, e uma rodela de conhecimento, por dia, sem anúncios ou outras brincadeiras de comunicação) e é um exemplo perfeito de como a brevidade podia brilhar no Twitter.

Uma parte de mim está convencida de que ainda voltaremos a ver o pássaro azul a piar por aí (parece-me que há simplesmente demasiadas pessoas neste mundo que se afeiçoaram àquele conceito para ser deixado no caixote do lixo). Enquanto isso não acontece, continuo a experimentar alternativas, à procura de um novo galho para pousar.

Follow Friday #2: Entre Parêntesis

Nesses tempos longínquos dos anos zero, um dos blogs mais procurados no SAPO era dedicado ao universo Twilight, baseado nos romances da escritora Stephenie Meyer. A popularidade da saga foi provavelmente um dos maiores, e últimos, fenómenos mediáticos a trazer gente à blogosfera portuguesa. E uma das pessoas que veio para ficar foi a Carolina, uma das autoras do Twilight Portugal e daquele que viria a tornar-se um dos meus blogs preferidos, o Entre Parêntesis. Guardo sempre os seus posts para ler mais tarde, com atenção, e evitar a leitura diagonal que é um dos grandes vícios do meu ofício muito particular. Gosto muito do título do blog, não só pelas várias camadas de sentido que sugere, mas porque admiro quem sabe usar estrategicamente, e para grande efeito, os parêntesis.

Aprecio ler os seus roteiros de viagem (vale a pena recuperar aqui os posts dedicados ao Japão), de me rever em algumas das suas fontes de ansiedade e de rir com o seu sentido de humor (marcado por um género muito próprio, pontual e sem malícia, de sarcasmo). Ainda assim, aquilo que mais se destaca para mim na Carolina é que me parece tratar-se de alguém com uma ideia muito precisa da pessoa que gostaria de ser e do que precisa de fazer para alcançar essa visão de si mesma. É isso que torna tão interessante, para um leitor de longa data como eu, acompanhar o que pensa sobre o que lhe acontece e rodeia. Um dos seus textos mais recentes, datado de março, ilustra bem aquilo a que me refiro e alguns dos valores que a norteiam. Não é todos os dias que leio uma empresária portuguesa a escrever daquela maneira sobre o mundo do trabalho e dos negócios. Dá-me esperança e algum conforto saber que, algures, existem pessoas como a Carolina a tentarem viver à altura das suas (altas) expetativas para o mundo e si próprias.

Em 2020, poucas semanas antes da pandemia chegar a Portugal, pude entrevistar a Carolina para um esboço de podcast sobre blogs no blog oficial da nossa plataforma. A conversa aconteceu virtualmente, mas foi tão descontraída e agradável como esperava que fosse. A Carolina é uma daquelas pessoas que se nota pela voz quando sorriem e isso já diz algo sobre o seu carisma. Se sentirem curiosidade, fica a dupla recomendação, para ler e ouvir.