"E eu pensava que a vida brilha quando descobrimos uma pessoa nova. É de espantar que haja tanta gente por descobrir e a vida não brilhe sempre."
A frase é de Afonso Reis Cabral, do livro "Pão de Açúcar". Há mais a dizer sobre este livro, que gostei de ler, mas não resisti a começar por aqui. A síntese perfeita daquela sensação, que todos já passámos, de "descobrir uma pessoa nova". Podia ser uma frase dita por uma criança. Não podia ser mais perfeita.
"A memória é, dolorosamente, a única relação que podemos ter com os mortos."
A frase é de Susan Sontag e do seu brilhante ensaio sobre o poder da fotografia, intitulado Olhando o sofrimento dos outros. É mesmo um ensaio brilhante, porque nota-se que é um texto que surge como a procura de um posicionamento mais ético em relação às imagens. Admiro qualquer pessoa que tem esta capacidade para parar e colocar-se a si própria em causa. Uma espécie de "Estou a fazer isto bem? Haverá outra forma de agir e pensar em relação a este assunto?".
Quase não passa uma página do livro de Sontag sem que tenha de guardar uma frase, mas a frase acima fez-me estremecer, por fazer tanto sentido para mim e abrir uma série de caminhos que ainda preciso de fazer na sequência da morte do meu pai. No fundo, e falando claro, ao fim de quase dois anos desde a sua morte, desenvolvi este receio de perder também essa relação com ele, se não trabalhar mais as memórias que tenho dele. Isso passa por falar mais dele, e não menos, por confiar recordações à escrita e, sim, falar com ele.
A frase de Sontag tem essa dupla valência para mim. Por um lado, sublinha a necessidade de estimar a nossa memória. Por outro, penso que atribui um significado um bocadinho restrito demais ao exercício da memória, que não se limita à consulta de recordações. Recordar também passa por atualizar e reforçar memórias.
Ontem ao final da tarde fiz algo que já não fazia há bastante tempo: falei em público. Aconteceu num encontro do Clube de Leitura da Cocó na Fralda. Acompanho o blog da Sónia desde que se mudou para o SAPO Blogs e há já algum tempo que sentia curiosidade em relação ao clube. Ontem, finalmente, consegui aparecer e quase derreti com a simpatia com que fui recebido por todas as participantes. Era o único homem no grupo e, aparentemente, o primeiro a aparecer sozinho numa sessão, o que me surpreendeu.
Nunca tinha participado num clube de leitura, mas gostei do formato adotado, no qual cada participante faz uma breve intervenção sobre um livro que tenha lido recentemente. É um formato informal e descontraído que me parecem ser o cunho da própria Sónia como anfitriã e moderadora. Quando chegou a minha vez, não consegui deixar de sentir aquela vertigem que surge com o desafio de falar em público, mesmo tratando-se de um grupo pequeno de pessoas. Acho que atabalhoei um bocadinho as palavras, mas a experiência foi positiva. Se sentem falta, como eu, de mais conversas e encontros à volta de livros, em que se possam trocar impressões e sugestões de leitura, recomendo vivamente que fiquem atentos ao blog da Sónia e apareçam numa futura sessão. Até há bolo...
E o livro que levei comigo? Foi o A Cultura Mundo, de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, dois filósofos interessados em analisar e enquadrar o tempo em que vivemos, as forças que o atravessam e os seus efeitos na vida em sociedade. Gostei de o ler porque faz um excelente retrato da nossa época, sem cair no pessimismo e deixar de apontar algumas possíveis respostas às difíceis questões que ela nos coloca.
É aquele momento em que vamos na rua, a sentir o frio da estação, e subitamente as nuvens dispersam e deixam passar alguns raios de sol quentes. É o meu quente-e-frio preferido.
Sou utilizador desde junho e conto até agora mais de 150 viagens no sistema - uma média de 2.5 viagens por dia, sobretudo entre o trabalho e o comboio.
Estou viciado.
O meu percurso favorito em ciclovia é entre o Saldanha e o Campo Grande, ao início da noite. Aquela reta enorme paralela ao jardim Mário Soares é uma espécie de A1 das bicicletas.
A bicicleta sempre foi uma espécie de brinquedo, mas quem é que tem as pernas e o luxo de poder suar a caminho do trabalho? A bicicleta elétrica é o brinquedo para todas as faixas etárias e dress codes.
Congestionamento de bicicletas já é uma realidade no centro de Lisboa. Alguma falta de civismo (sobretudo falta de cedência de prioridade aos peões nos sítios onde a ciclovia se cruza com passadeiras) também.
O sistema de pontos torna o sistema ainda mais viciante (já somo 13 mil).
Já vi malta a ciclar com uma mão no guiador e outra a escrever no telemóvel.
Agora que ando mais à superfície, noto como a poluição no centro da cidade é muito real.
Fora das ciclovias, partilhar a estrada com automóveis ainda é uma experiência intimidante e cansativa (é preciso o dobro da atenção).
Andar de bicicleta pelas ruas de Lisboa com amigos. Olá adolescência que nunca tive.
Terminei ontem de ler "Não respire", o livro que Pedro Rolo Duarte escreveu durante e sobre o seu último ano de vida. Como alguém disse na apresentação, é um livro que não queremos que acabe. Quando acaba, fica a tristeza de perder alguém que trabalhava tão bem as palavras e que ajudava a fazer sentido do nosso tempo. Para lá disso, todavia, dei por mim, ontem ao final do dia, a sentir a vontade, algo adormecida nos últimos tempos, de voltar a escrever sobre as minhas coisas, os livros que vou lendo, as pessoas que vou conhecendo e a cidade que vou observando. É por isso que agora aqui estou, a falar do livro do Pedro. Ler as suas memórias e aceder, até certo ponto, à esfera privada da sua vida, onde se cruzam preferências e convivências, despertou-me para essa necessidade de escrever. É isso que o Pedro sempre soube fazer e é também essa a maior impressão que fica deste livro, de uma vida realizada e preenchida por afetos, palavras e paisagens.
Outra coisa que fica clara nestas páginas é o amor e orgulho que o Pedro sente pelo filho. Se não tivesse ido à apresentação do livro, no Museu da Eletricidade, não teria uma ideia da pessoa a quem associar esse deslumbramento paternal. Mas fui e fiquei assombrado pela graça e naturalidade com que o António Maria, com vinte e poucos anos, colocou a plateia ora a rir ora em absoluto silêncio ao falar do pai. Um silêncio feito de admiração pela prova de maturidade à nossa frente, sem dúvida, mas também de algo que só a palavra carisma explica. O posfácio, da sua autoria, é um texto comovente, que reconforta qualquer leitor ali chegado.
O tema da paternidade é aquele que inspira algumas das passagens do livro que mais fiz questão de guardar para mim. Deixo uma delas, extraída de uma das crónicas do Pedro para a Lux Woman, na qual fala da carta que escreveu ao filho, quando este atingiu a maioridade:
"O que lhe disse? Bom, que aos 18 anos o mundo é maior do que sabemos, mas mais pequeno do que desejamos. Felizmente, ele já conseguiu perceber quão grande ele é, e como somos pequenos e insignificantes neste espaço imenso. Como tudo indica que só vivemos uma vez, sugeri-lhe que aproveitasse o melhor do mundo e saboreasse cada dia como se fosse o último. Não é, mas muitas vezes parece. (...) Para ele, a vida começa realmente agora. Escrevi-lhe: «Se olhares com atenção, há tanto por fazer que parece faltar-nos o ar e vida para tudo. Sugere o teu pai: faz pouco, mas faz bem. Um passo de cada vez."
Agora a sério, uma ideia gira para introduzir mais novidade à feira: um tema diferente por edição.
Sentimos todos falta do sol nas últimas semanas, mas é impressão minha ou foi uma das feiras mais "secas" dos últimos anos? A chuva não marcou muita presença, à exceção de uma ou duas manhãs.
Trabalho perto, e sou atraído por livros como uma melga a uma lâmpada acesa, por isso, sim, fui mais vezes à feira do que me sinto à vontade para admitir aqui (vá, umas 7 ou 8 vezes).
Provei finalmente os estaladiços gofres à venda na feira e fiquei desiludido.
A feira do livro continua a ser, para mim, uma excelente forma de descobrir e acrescentar livros à minha lista de leituras. De outro modo, como me teria cruzado com este delicioso título de Mário Cesariny, a Primavera Autónoma das Estradas, a surpreender transeuntes desprevenidos algures na feira?
Livros comprados? Só um, num alfarrabista, para oferecer à mulher mais perigosa que conheço: Mulheres que lêem são perigosas.