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20/03/22

Um sinal de paz na pauta da cidade

Ontem, vi uma reportagem sobre o fluxo de refugiados ucranianos a chegar à estação de comboios de Badajoz, ponto a partir do qual algumas dezenas continuam a sua viagem até Portugal num comboio da Linha do Leste da CP. Estive ali em meados de fevereiro, quando Badajoz parecia ser o sítio no mundo mais afastado de uma guerra (bom, e de tudo o resto, dada a pacatez da região). Apesar de se tratar de uma estação moderna (e servida, no lado espanhol, por comboios modernos), pareceu-me mais pequena e menos movimentada que algumas das estações suburbanas de Lisboa. Hoje, a crise humanitária posta em marcha pela guerra (que já deslocou milhões de ucranianos), já está à vista ali, que é praticamente, dada a proximidade da fronteira portuguesa, um aqui.

Os sinais da guerra estão por todo o lado, portanto, mas os da paz também. O mais impressionante deles, até agora, surpreendeu-me o olhar há poucos dias, e também envolve a ferrovia. Na realidade, é muito difícil não dar por ele: trata-se de um enorme símbolo da paz, pintado em azul escuro a toda a largura do caminho-de-ferro da Linha de Sintra.

Desconheço quem pintou o símbolo clandestino, mas quem quer que tenha sido, conhece bem a zona onde o fez (escolheu pintá-lo onde é possível vê-lo de cima, a partir de uma ponte pedonal que atravessa as linhas ferroviárias) e não pensou pequeno. A dimensão do grafíti é tal que, muito provavelmente, vai ser possível avistá-lo do espaço (quando as imagens de satélite do Google Maps forem, eventualmente, atualizadas).

A ousadia e o sentido de oportunidade do símbolo (apareceu ali algures entre 6 e 8 de março), na sua localização e dimensão, impressionaram-me. Não sabíamos, mas precisávamos de um símbolo destes: anónimo, indelével, feito à escala da cidade. Universal no seu significado.

05/03/22

Ucrânia

É como se estivéssemos a assistir a uma agressão gratuita na rua, e nenhum de nós ousasse mexer um músculo em defesa da vítima, com medo de sermos agredidos a seguir. É a analogia mais próxima que  encontro para descrever o que está a acontecer no mundo, e o sentimento de impotência que surge perante a insanidade a desenrolar-se à nossa frente.

Não esperava voltar a sentir esta forma de angústia em relação ao estado do mundo tão cedo depois destes últimos dois anos. A diferença desta vez, claro, é que existe alguém que, com uma palavra, pode parar tudo o que está a acontecer. E isso muda a própria natureza de desesperança que sentimos. Tenho dado por mim repetidas vezes a abanar inconscientemente a cabeça ao escutar as notícias mais recentes sobre a devastação a ser infligida na Ucrânia. É difícil de acreditar que isto está a acontecer no nosso tempo, mas sobretudo que tudo isto é consequência de uma decisão: não se trata de um desastre natural, é uma catástrofe por ação humana.

Não conseguimos, para já, impedir a insanidade em curso, mas parece haver uma quase total censura e rejeição desta guerra. As cores da bandeira ucraniana aparecem um pouco por todo o lado, transformadas em apelo à paz. Toda e qualquer expressão de solidariedade que o meu olhar surpreende (uma bandeira ucraniana à janela de uma casa isolada, um pin numa mochila a viajar ao meu lado, uma escola a formar a palavra PAZ com os seus alunos) comove-me e dá-me algum alento, como espetador passivo deste atroz e brutal espetáculo, numa altura em que nos preparam, com a mais sombria das expressões, para o que ainda está por vir.

Podemos ser impotentes para intervir, mas não somos indiferentes à desgraça que se abate sobre o povo ucraniano. A par da solidariedade material (feita dos donativos às ONGs no terreno e do acolhimento dos refugiados), a solidariedade simbólica, a ser transmitida em todas as frequências e idiomas do mundo, já é um movimento do espírito, uma aproximação ao que se passa e a quem vive na pele o medo e horror da guerra.

Por tudo isto, preciso de deixar, também aqui, esse apelo: Paz para o povo ucraniano!

03/03/22

Uma fotografia de 2021

Um medronho maduro pousado em cima de um poste de madeira

Só hoje me apercebi que falhei, pela segunda vez em dois anos, a pequena tradição anual de publicar aqui uma fotografia dos doze meses anteriores que não tenha partilhado em qualquer outro sítio. Não se trata de escolher a minha melhor fotografia do ano nem nada parecido. Apenas algo que fique de recordação desse ano. Bom, lá abri o Lightroom, e toca a puxar das fotografias feitas em 2021. Tenho por lá algumas fotografias visualmente marcantes, que dispensariam legenda ou explicação. A fotografia acima, não é uma delas. Podia passar por mais uma das muitas fotos que fiz ao longo dos anos no Parque Florestal de Monsanto. Um medronho maduro, colocado por mim em cima de um poste de madeira, para tentar um enquadramento fotográfico diferente, não tem, à primeira vista, nada de especial. A expressão-chave aqui é mesmo primeira vista. Alguns dias (sim, no plural) depois de ter feito a fotografia, voltei a passear pelo mesmo local com a minha mãe, completamente abstraído de já ter ali passado nessa semana. "Olha, alguém deixou um medronho em cima do poste", aponta divertida, enquanto eu seguia distraído uns metros à frente. Quando me virei para trás, mesmo antes de pousar os olhos no ponto vermelho, a minha cara já devia trair alguma da doce descrença que aquela frase acabara de fulminar no meu pensamento. Há momentos assim, em que o mundo parece repentinamente mágico e muito, mesmo muito, pequeno.

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