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horizonte artificial

ideias e achados.

Algumas das minhas leituras de 2021

Dom Casmurro, Machado de Assis

É engraçado ler as críticas no GoodReads a este livro depois de o ler. A maioria dos seus leitores parece apreciar o narrador e o estilo da escrita, marcado pelo humor e por uma franqueza que nem por isso deixa de diminuir a ambiguidade em volta do possível tema do livro. Li-o duas vezes em 2021 (primeiro, sozinho e, mais tarde, no âmbito de uma leitura coletiva), e mesmo assim é possível que tenha de o ler mais algumas vezes para chegar a uma leitura mais firme. Isso já torna claro que não se trata de um livro que pode ser visto apenas a uma luz. Tendo que justificar esta recomendação, todavia, faço-o, acima de tudo, pelas imagens que Machado de Assis é capaz de gerar de uma só penada. Alguns exemplos (a existirem erros, podem ser da minha transcrição):

  • "Não tinha janela; se tivesse, é possível que fosse pedir uma ideia à noite."
  • "E quem sabe se os vaga-lumes, luzindo cá em baixo, não seriam para mim como rimas das estrelas, e esta viva metáfora não me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e sentidos próprios?"
  • "Os olhos pareciam ter outra reflexão, e a boca outro império."
  • "Mas o que pudesse dissimular ao mundo, não podia fazê-lo a mim, que vivia mais perto de mim que ninguém."
  • "Certa ideia, que negrejava em mim, abriu as asas e entrou a batê-las de um lado para o outro, como fazem as ideias que querem sair."

Húmus, de Raul Brandão

Escutei alguém há uns anos nomear este livro como uma das maiores obras da literatura portuguesa, e essa é uma distinção que não se esquece. Eu diria que é um dos mais bem escritos e completos tratados literários sobre a Morte que eu já li.

Londoners, de Craig Taylor

Um retrato de Londres a partir de pequenos depoimentos de quem lá vive e ama ou odeia a cidade. A chave do interesse do livro está na grande diversidade de gente ouvida, quase toda ela anónima, de pilotos de avião a paramédicos. É um livro enorme, ideal para ser lido aos poucos. Está cheio de pequenas histórias que ilustram bem a variedade de experiências de vida que uma cidade do tamanho de Londres pode comportar. Adorava fazer algo dentro do género aplicado a Lisboa, que tem, com certeza, muitas mais histórias do que aquelas que o jornalismo tradicional consegue captar.

O céu sobre Lisboa, de Pedro Ornelas

Por falar em histórias de Lisboa, o blog do Pedro contou algumas. A história do seu blog, transformado em livro, é ela própria uma história desta cidade. Uma das minhas leituras de 2021 a que dediquei um texto aqui no blog.

Groundhog Day, de Ryan Gilbey

Um ensaio sobre um dos filmes mais adorados dos anos 90, que a passagem do tempo não parece envelhecer nem as inúmeras repetições na televisão tornar previsível. Quem, como eu, não se cansa de o rever, vai apreciar conhecer a história por trás da sua produção e ler a análise de Gilbey sobre o que o torna, para um filme de Hollywood, tão especial e um favorito de tanta gente.

Ética a Nicómaco, de Aristóteles

Pus-me a lê-lo um pouco por capricho, sem saber o que esperar, e fiquei maravilhado com a clareza do pensamento de Aristóteles. Neste tratado sobre a ética, o filósofo grego debruça-se sobre o que diferencia a Humanidade de outros seres vivos e a forma como a capacidade para pensar racionalmente deve orientar a conduta de cada um em relação a si próprio e aos outros. Nunca deixa de impressionar como alguém de um tempo tão diferente do nosso consegue soar tão pertinente.

Ainda não regressei a todos os meus sítios preferidos

Uma espécie de post-balanço de 2021

Foi um dos objetivos que coloquei na cabeça assim que começámos a falar em desconfinar, ali a partir do passado mês de maio: regressar a todos os meus sítios. Já estamos em 2022, a sair aos poucos de uma "semana de contenção" (mais uma para o glossário destes tempos estranhos que vivemos), e dei por mim a pensar se já teria revisitado todos esses sítios que frequentava ou dos quais tirava prazer em espreitar ocasionalmente.

Acrescentei sítios novos a essa lista em 2021, alguns dos quais passei a frequentar regularmente, mas os sítios do costume? Esses, continuam, à falta de melhor palavra, intermitentes. Visitá-los ainda depende da vontade explícita de regressar. Falta espontaneidade e serendipidade, por um conjunto de motivos.

Daqueles que atribuo à pandemia, consigo ilustrar um: a falta de vontade de ficar meia hora com um chá e um livro aberto numa das minhas pastelarias (o meu coração pasteleiro franchisa mais localizações do que a Padaria Portuguesa). Mesmo com todas as medidas de segurança, continuo a evitar passar muito tempo em espaços fechados que sejam frequentados por muitas pessoas.

Portanto, não, ainda não regressei a todos os sítios, todas as vezes que gostaria de ter regressado. E escrevo isto mais em jeito de constatação do que de lamento. O meu desejo para 2022 é que, estando o essencial assegurado, saibamos aproveitar cada aberta na meteorologia, cada hora livre e regressar aos nossos sítios favoritos.