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25/11/21

Um foguetão no jardim

De volta à Gulbenkian

Voltei há uns tempos ao jardim da Gulbenkian, desta vez para ver ao vivo um dos objetos mais curiosos que me lembro de aparecerem ali (e já vi alguns, graças ao espírito da arte contemporânea): um foguetão. Na realidade, uma réplica, nem sequer de um foguetão real: aquele que foi desenhado por Hergé para levar Tintim, o repórter mais famoso da banda desenhada, à Lua.

A estátua (escultura?) está ali no contexto de uma exposição dedicada ao artista belga e quando dei por ela, soube que tinha de passar por lá e registar a sua presença na paisagem. Não é todos os dias que vemos um ícone da nossa imaginação juvenil materializar-se assim na cidade — como se tivesse aterrado ali.

Já não sei dizer com que idade li pela primeira vez Rumo à Lua (a primeira parte da aventura espacial de Tintim, seguida de Explorando a Lua), mas, além de ser uma das maiores aventuras de Tintim, é a que tenho mais presente na memória, sobretudo pela espetacularidade dos grandes planos do foguetão axadrezado que o transporta, mais aos seus amigos, até ao nosso satélite natural, e das paisagens que lá encontram.

Quando pesquisava alguma informação sobre estas obras de Hergé encontrei a fascinante comunicação que João Mascarenhas preparou a propósito das fontes de inspiração, científicas e visuais, que Hergé incorporou na sua visão da Lua e da engenharia necessária para alcançá-la. Cito o João:

"fui-me apercebendo que na génese da aventura na Lua de Tintin, estavam conhecimentos científicos muito profundos, tendo-se feito Hergé rodear de bons conselheiros em áreas específicas do Conhecimento, de forma a tornar credível esta narrativa. Não se tratava de fazer ficção científica, mas sim uma narrativa científica plausível, à qual Hergé misturou o seu humor literário e visual."

O João inclui algumas ilustrações que mostram claramente os materiais nos quais Hergé se inspirou para compor alguns dos visuais mais marcantes da odisseia lunar, incluindo a do próprio foguetão, infelizmente bem sombria (foi baseado num míssil balístico nazi com o nome de código V2). Mais adiante, o João detém-se num detalhe curioso da obra de Hergé que reforça a ideia de como a ficção foi capaz de antecipar e projetar a realidade:

Segue-se uma sequência de vinhetas espectaculares, onde podemos ver os elementos da tripulação a flutuar pelo habitáculo do foguetão. Estas cenas são tanto mais incríveis se nos lembrarmos que na altura ainda não tinha havido nenhum voo espacial tripulado que permitisse testemunhar este efeito. Inclusivamente os primeiros voos espaciais (cerca de dez anos depois) dispunham de espaço tão exíguo no interior das naves que era quase impossível ver os astronautas em tais situações.

Depois de ler este artigo, a primeira pesquisa que fiz na internet foi "Hergé em entrevista sobre a verdadeira chegada à Lua". Afinal, Hergé chegou a testemunhar a chegada dos primeiros homens à Lua em 1969. Pergunto-me sobre o que terá pensado do feito desse dia (dessa década!) e nos pontos de contacto com a sua arte em que terá reparado (o Google, infelizmente, não devolveu nenhuma pista sobre o tema).

Seja como for, este pezinho na ciência, aliado à dimensão extraterrestre da odisseia, ajudam a explicar por que razão as aventuras de Tintim na Lua se destacam tanto das restantes. Apesar das óbvias liberdades da ficção com a astronáutica, estes dois livros podiam ser um manual ilustrado simplificado de como viajar até à Lua. Marcaram a minha imaginação e, estou certo, a de muitos mais.

2021 foi o ano em que se tornou possível, aos ultra-milionários, apanhar um foguetão até ao espaço e, dez minutos depois, voltar à Terra. Pela combinação da imaginação e da nostalgia, o foguetão de Tintim estacionado na Gulbenkian é, ainda assim, capaz de nos levar mais longe.

A exposição "Hergé" pode ser visitada na Gulbenkian até dia 10 de janeiro.

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