Uma das formas que encontrei de alimentar este blog passa por colocar a mim próprio esta pergunta simples: qual foi a coisa mais assinalável que me aconteceu ou encontrei durante a semana? Pois bem, na semana passada, foi mesmo uma pergunta que me fez abrir os olhos de espanto:
"O que farias na tua vida se o dinheiro não fosse um problema?"
É uma pergunta que já vi feita antes a outros, claro, mas que nunca me foi colocada assim, num contexto inesperado e por alguém que não tem qualquer motivo, além da mera (mas potente) curiosidade, para se mostrar interessada na minha vida. O que realmente me surpreendeu, todavia, foi a minha reação interior - o espanto e aquela secreta satisfação que se misturaram cá dentro por ter alguém a expressar curiosidade por algo meu, neste caso, os meus potenciais projetos pessoais.
Trabalho a dar atenção aos outros (espremido muito bem, é nisso que consiste trabalhar com uma comunidade de pessoas) e, mesmo assim, doze anos depois (feitos este mês!), ainda me surpreendo com um momento destes e com o efeito que podemos ter nos outros quando, de forma desinteressada, mostramos curiosidade pelos seus pensamentos e ambições.
Tiro centenas de fotografias com o telemóvel durante a semana e, chegado a domingo, lá apago outras tantas centenas para arranjar espaço para as próximas. Já tenho uma rotina bem estabelecida para arquivar e sincronizar tantas fotografias, mas há uns anos acabei por me render às limitações de espaço (no telemóvel, nas clouds, nos discos externos e por aí em diante) e tempo (para editar, arquivar e, mais tarde, consultá-las). Ou seja, desisti da ideia de guardar e publicar tudo.
Um dos meus passatempos preferidos passou a consistir em apagar. Apagar até encontrar o número mínimo de fotografias que me permite ainda recordar um momento ou experiência. Regresso a casa com 300 fotografias tiradas no fim-de-semana? O meu desafio passa a ser comprimir essas 48 horas no mínimo possível de instantâneos. Tenho a certeza que já deve existir um termo científico, ou pelo menos uma expressão japonesa, para isto, pela forma como mistura minimalismo, um pózinho de masoquismo e frugalidade.
Tudo isto para explicar que uma das formas que encontrei de dar vazão a tanta fotografia passa por publicar e não ficar agarrado à esperança preguiçosa de que algum dia vou conseguir dar uso a tudo o que vou guardando. Esta fotografia, feita na semana passada, da vista do meu posto de trabalho, é uma das fotografias que salvei do caixote do lixo. Já não me lembro do que estava a fazer, para ainda estar sentado ao computador a olhar pela janela àquela hora, mas o espetáculo lá fora soube a recompensa.
Há umas semanas fui ao Porto, à rua do Universo (se isso não é sinal de que se está prestes a assistir a algo de especial, podem desligar os radiotelescópios espalhados pelo mundo), para ser encantado pelo "Moving with Pina", que a própria autora, Cristiana Morganti, descreve como uma "conferência dançada". É uma forma intrigante de descrever um espetáculo, mas também muito precisa. É uma conferência, em que a Cristiana reconta, sozinha em palco, a sua experiência de trabalhar com a coreógrafa Pina Bausch, e é dançada porque está semeada de pequenos momentos de dança, protagonizados pela própria Cristiana, que servem para ilustrar algumas das deliciosas histórias que a bailarina tem para partilhar. O espetáculo é encantador, sobretudo para quem está familiarizado com a obra de Pina Bausch, mas também para quem, como eu, teve um contacto tardio com o seu universo a partir do filme "Pina", de Wim Wenders (já absolutamente recomendado aqui).
Feita a recomendação, passo ao recorte que eu queria realmente deixar aqui. A Cristiana contava, a dado ponto, como a Pina tinha uma atenção quase "sobrenatural" aos mais ínfimos gestos e movimentos dos bailarinos. E serviu-se de um exemplo curioso para mostrar isso. Uma das coreografias da Cristiana obrigavam-na a usar um vestido de época, em forma de balão, que lhe escondia totalmente as pernas e os pés. Foi para seu total espanto, portanto, que se viu na mira de uma observação da coreógrafa, durante um dos ensaios, sobre a forma como estava a manter as pernas abertas debaixo da enorme saia. A bailarina defendeu-se com o argumento que precisava de manter assim as pernas para conservar o equilíbrio, dado o peso do vestido. A resposta da Pina, que não cito exatamente igual, saiu incisiva e pronta-a-publicar em qualquer manual de life coaching: "Junta as pernas. A parte interessante do teu papel é esse, ver-te a lutar com uma dificuldade."