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21/04/19

Uma bomba na cozinha

IMG_5073.JPG

Hesitei em partilhar esta fotografia, mas é uma das imagens mais impressionantes das últimas semanas na memória do meu telemóvel. Não fazia sentido passar à frente, como se nada fosse. Bom, e o que mostra? A devastação causada pelo primeiro dia de obras na cozinha lá de casa. É uma obra que se tornou inadiável desde há dois anos para cá e que passámos o último ano a tentar iniciar. Foi com um misto de alívio e estupefação, portanto, que nos deparámos com a cena acima. Alívio por termos sido capazes de chegar até este ponto e estupefação pela rapidez com que se destrói uma cozinha.

Surpreende-me pensar que passámos um ano a contactar empreiteiros, a hesitar sobre dilemas existenciais (mudar ou não de posição o lava-loiças, com a consequente alteração na canalização) e a debater detalhes que agora parecem insignificantes, para depois um martelo do tamanho de um pequeno armário clarificar tudo.

A última semana foi passada a acordar com vista para o frigorífico e a Zomatar como louco, mas já começámos a ver a luz ao final do túnel (serão as luzes da secção de acessórios e plantas decorativas do Ikea?) e a sentir aquele frémito de entusiasmo com a ideia de termos uma cozinha que nos permite receber pessoas cá em casa sem vergonha.

Se estiverem a olhar para um item na vossa lista de coisas a fazer, seja ele do tamanho de uma cozinha ou mais pequeno, e a sentirem-se condicionados por todas as coisas em que têm de pensar, esclarecer e tratar, vão por mim: não hesitem mais.

17/04/19

No Palácio de Belém

FullSizeRender.jpgJá estou um bocadinho atrasado, para "salvar" uma fotografia, tirada na semana passada, da memória do meu telemóvel, mas aqui fica. Foi feita no gabinete oficial do Presidente da República, no Palácio de Belém, e mostra a mesa e as cadeiras onde o Presidente e o primeiro-ministro (já disse que é meu vizinho agora?) se sentam, todas as quintas-feiras, para discutirem o estado do país. Tirei a fotografia no decorrer de uma visita guiada ao Palácio, que me permitiu riscar um item da minha lista de coisas que há muito queria fazer com a minha mãe.

Voltando à imagem, o que me chamou a atenção no gabinete, que só é usado de forma protocolar (o gabinete de trabalho "a sério" do Presidente não pode ser visitado), foi mesmo esta zona para receber o primeiro-ministro (e outros convidados, claro). O contexto é palaciano, é certo, mas a marca do imobiliário é decididamente democrática, quando pessoas que representam diferentes poderes conseguem sentar-se à mesma mesa e, simplesmente, conversar.

A visita-guiada, que pode ser marcada por e-mail, ainda inclui a passagem pelos jardins do Palácio e o bilhete normal custa 5€. É uma hora e meia bem passada, vão por mim. Se só quiserem espreitar, fica o recado: aproveitem que no dia 25 de abril o Palácio vai estar aberto, de forma gratuita, a todos.

12/04/19

A pergunta

Uma das formas que encontrei de alimentar este blog passa por colocar a mim próprio esta pergunta simples: qual foi a coisa mais assinalável que me aconteceu ou encontrei durante a semana? Pois bem, na semana passada, foi mesmo uma pergunta que me fez abrir os olhos de espanto:

"O que farias na tua vida se o dinheiro não fosse um problema?"

É uma pergunta que já vi feita antes a outros, claro, mas que nunca me foi colocada assim, num contexto inesperado e por alguém que não tem qualquer motivo, além da mera (mas potente) curiosidade, para se mostrar interessada na minha vida. O que realmente me surpreendeu, todavia, foi a minha reação interior - o espanto e aquela secreta satisfação que se misturaram cá dentro por ter alguém a expressar curiosidade por algo meu, neste caso, os meus potenciais projetos pessoais.

Trabalho a dar atenção aos outros (espremido muito bem, é nisso que consiste trabalhar com uma comunidade de pessoas) e, mesmo assim, doze anos depois (feitos este mês!), ainda me surpreendo com um momento destes e com o efeito que podemos ter nos outros quando, de forma desinteressada, mostramos curiosidade pelos seus pensamentos e ambições.

E, sim, continuo a pensar na resposta à pergunta.

07/04/19

Nuvens de fotografias

image1.JPG

Tiro centenas de fotografias com o telemóvel durante a semana e, chegado a domingo, lá apago outras tantas centenas para arranjar espaço para as próximas. Já tenho uma rotina bem estabelecida para arquivar e sincronizar tantas fotografias, mas há uns anos acabei por me render às limitações de espaço (no telemóvel, nas clouds, nos discos externos e por aí em diante) e tempo (para editar, arquivar e, mais tarde, consultá-las). Ou seja, desisti da ideia de guardar e publicar tudo.

Um dos meus passatempos preferidos passou a consistir em apagar. Apagar até encontrar o número mínimo de fotografias que me permite ainda recordar um momento ou experiência. Regresso a casa com 300 fotografias tiradas no fim-de-semana? O meu desafio passa a ser comprimir essas 48 horas no mínimo possível de instantâneos. Tenho a certeza que já deve existir um termo científico, ou pelo menos uma expressão japonesa, para isto, pela forma como mistura minimalismo, um pózinho de masoquismo e frugalidade.

Tudo isto para explicar que uma das formas que encontrei de dar vazão a tanta fotografia passa por publicar e não ficar agarrado à esperança preguiçosa de que algum dia vou conseguir dar uso a tudo o que vou guardando. Esta fotografia, feita na semana passada, da vista do meu posto de trabalho, é uma das fotografias que salvei do caixote do lixo. Já não me lembro do que estava a fazer, para ainda estar sentado ao computador a olhar pela janela àquela hora, mas o espetáculo lá fora soube a recompensa.

05/04/19

Um sinal na rua do Universo

Há umas semanas fui ao Porto, à rua do Universo (se isso não é sinal de que se está prestes a assistir a algo de especial, podem desligar os radiotelescópios espalhados pelo mundo), para ser encantado pelo "Moving with Pina", que a própria autora, Cristiana Morganti, descreve como uma "conferência dançada". É uma forma intrigante de descrever um espetáculo, mas também muito precisa. É uma conferência, em que a Cristiana reconta, sozinha em palco, a sua experiência de trabalhar com a coreógrafa Pina Bausch, e é dançada porque está semeada de pequenos momentos de dança, protagonizados pela própria Cristiana, que servem para ilustrar algumas das deliciosas histórias que a bailarina tem para partilhar. O espetáculo é encantador, sobretudo para quem está familiarizado com a obra de Pina Bausch, mas também para quem, como eu, teve um contacto tardio com o seu universo a partir do filme "Pina", de Wim Wenders (já absolutamente recomendado aqui).

Feita a recomendação, passo ao recorte que eu queria realmente deixar aqui. A Cristiana contava, a dado ponto, como a Pina tinha uma atenção quase "sobrenatural" aos mais ínfimos gestos e movimentos dos bailarinos. E serviu-se de um exemplo curioso para mostrar isso. Uma das coreografias da Cristiana obrigavam-na a usar um vestido de época, em forma de balão, que lhe escondia totalmente as pernas e os pés. Foi para seu total espanto, portanto, que se viu na mira de uma observação da coreógrafa, durante um dos ensaios, sobre a forma como estava a manter as pernas abertas debaixo da enorme saia. A bailarina defendeu-se com o argumento que precisava de manter assim as pernas para conservar o equilíbrio, dado o peso do vestido. A resposta da Pina, que não cito exatamente igual, saiu incisiva e pronta-a-publicar em qualquer manual de life coaching: "Junta as pernas. A parte interessante do teu papel é esse, ver-te a lutar com uma dificuldade." 

Obrigado, rua do Universo.

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