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17/07/18

Há tanto por fazer

Terminei ontem de ler "Não respire", o livro que Pedro Rolo Duarte escreveu durante e sobre o seu último ano de vida. Como alguém disse na apresentação, é um livro que não queremos que acabe. Quando acaba, fica a tristeza de perder alguém que trabalhava tão bem as palavras e que ajudava a fazer sentido do nosso tempo. Para lá disso, todavia, dei por mim, ontem ao final do dia, a sentir a vontade, algo adormecida nos últimos tempos, de voltar a escrever sobre as minhas coisas, os livros que vou lendo, as pessoas que vou conhecendo e a cidade que vou observando. É por isso que agora aqui estou, a falar do livro do Pedro. Ler as suas memórias e aceder, até certo ponto, à esfera privada da sua vida, onde se cruzam preferências e convivências, despertou-me para essa necessidade de escrever. É isso que o Pedro sempre soube fazer e é também essa a maior impressão que fica deste livro, de uma vida realizada e preenchida por afetos, palavras e paisagens.

Outra coisa que fica clara nestas páginas é o amor e orgulho que o Pedro sente pelo filho. Se não tivesse ido à apresentação do livro, no Museu da Eletricidade, não teria uma ideia da pessoa a quem associar esse deslumbramento paternal. Mas fui e fiquei assombrado pela graça e naturalidade com que o António Maria, com vinte e poucos anos, colocou a plateia ora a rir ora em absoluto silêncio ao falar do pai. Um silêncio feito de admiração pela prova de maturidade à nossa frente, sem dúvida, mas também de algo que só a palavra carisma explica. O posfácio, da sua autoria, é um texto comovente, que reconforta qualquer leitor ali chegado.

O tema da paternidade é aquele que inspira algumas das passagens do livro que mais fiz questão de guardar para mim. Deixo uma delas, extraída de uma das crónicas do Pedro para a Lux Woman, na qual fala da carta que escreveu ao filho, quando este atingiu a maioridade:

"O que lhe disse? Bom, que aos 18 anos o mundo é maior do que sabemos, mas mais pequeno do que desejamos. Felizmente, ele já conseguiu perceber quão grande ele é, e como somos pequenos e insignificantes neste espaço imenso. Como tudo indica que só vivemos uma vez, sugeri-lhe que aproveitasse o melhor do mundo e saboreasse cada dia como se fosse o último. Não é, mas muitas vezes parece. (...) Para ele, a vida começa realmente agora. Escrevi-lhe: «Se olhares com atenção, há tanto por fazer que parece faltar-nos o ar e vida para tudo. Sugere o teu pai: faz pouco, mas faz bem. Um passo de cada vez."

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