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horizonte artificial

ideias e achados.

Levantar voo

Ando a ler "Escrever: memórias de um ofício", um livro de Stephen King com reflexões e conselhos sobre a arte da escrita. Estou a gostar da forma como organizou as suas experiências e ideias à volta do tema, e não resisto a partilhar este trecho do livro, no qual King usa um episódio da sua vida familiar para explicar a diferença entre prática e talento:

"Quando o meu filho Owen tinha sete anos, mais coisa menos coisa, apaixonou-se pela E Street Band de Bruce Springsteen, sobretudo por Clarence Clemons, o robusto saxofonista da banda. Owen decidiu que queria aprender a tocar como Clarence. A minha mulher e eu ficámos divertidos e encantados com a sua ambição. (...) Oferecemos-lhe um saxofone pelo Natal e aulas com um dos músicos locais, Gordon Bowie. Depois cruzámos os dedos e fizemos votos que tudo corresse pelo melhor.

Sete meses mais tarde sugeri à minha mulher que era tempo de acabar com as lições de saxofone se Owen estivesse de acordo. Owen esteve e o seu alívio foi palpável - não tinha querido ser ele a dizê-lo, sobretudo depois de ter pedido o saxofone. (...)

Eu sabia, não porque Owen tivesse deixado de praticar, mas porque o estava a fazer apenas nos períodos estabelecidos por Bowie: meia hora depois da escola quatro dias por semana, mais uma hora aos fins-de-semana. Owen dominava as escalas e as notas (...) mas nunca o ouvíamos levantar voos, surpreender-se a si próprio com qualquer coisa nova, estar no sétimo céu. (...) O talento esvazia de sentido a ideia de ensaio; quando encontramos algo para o qual temos talento, fazemo-lo (seja o que for) até os dedos sangrarem ou os olhos estarem prestar a saltar das órbitas."

Fez-me pensar nas coisas em que estou a "levantar voos" e naquelas em que não estou.

Um pôr-do-sol pode ser viral?

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Foi a palavra que me veio à cabeça há uns tempos, ao pensar no espetáculo de luz e cor que é montado ocasionalmente no céu sobre Lisboa. Nos dias de espetáculo, as condições atmosféricas conjugam-se com a paleta de cores do sol, e a ubiquidade das redes móveis, para produzirem um ocaso viral. Não acontece todos os dias, e é difícil dizer o que o torna mais especial que os outros ao ponto de escapar ao rótulo de "clichê fotográfico", mas não há sítio onde alastre mais rapidamente do que no Instagram, com a hashtag Lisboa, onde o momento aparece registado a partir de dezenas de pontos de vista diferentes espalhados pela cidade.

Nos dias em que acontece, e estou dentro de portas, penso inevitavelmente "Caramba, falhei este". Quando faço parte da audiência, e estou na rua com a máquina, dou-me por sortudo. O pôr-do-sol acima foi um desses pôres-do-sol virais que apanhei este ano, no dia 8 de janeiro, às 17h37. Hoje fica um pouco mais viral com este post.

Pedro Rolo Duarte

Ontem acabei de ler uma pequena história de Julio Cortázar, chamada "Aí mas onde, como". É uma expressão incerta mas perfeita para descrever aquela zona onde "os nossos mortos" vivem. E eles vivem, porque nós os lembramos e continuamos a pensar neles e na forma como se cruzaram connosco. E, em alguns casos, a lê-los.

Hoje recebemos a surpreendente e triste notícia da morte de Pedro Rolo Duarte, que fiquei a conhecer em 2007 por intermédio da Jonas, e a quem ajudei a montar o seu excelente blog no SAPO. A partir daí, nunca trocámos mais de dois ou três curtos e-mails por ano, sempre em resposta a alguma dúvida ou pedido de ajuda relativa ao blog, mas foi sempre impecável comigo, sem qualquer tipo de afetação ou arrogância. Em agosto de 2016, propus-lhe, assim do nada, renovar o design do seu blog, e aceitou, sem condições nem entraves. Receber "carta branca" de um senhor como o Pedro Rolo Duarte foi, para mim, um motivo de orgulho.

E fiquei muito orgulhoso do resultado final, sobretudo por achar que o novo layout, aquele que hoje continua visível e que o próprio descreveu como mais "depurado", fazia justiça à sua sobriedade e ao seu apurado sentido para encontrar o interessante no detalhe e no quotidiano. E porque, aqui entre nós, sempre o achei uma versão mais crescida de mim próprio (jornalista, Pedro no nome, Duarte também, Diário de Notícias e, claro, o interesse pelo mundo dos blogs, que é, lá no fundo, o interesse pela observação e leitura dos outros).

Vou sentir a falta dessa identificação com alguém que sabia expressar-se tão bem (ao ponto de o ter citado neste blog várias vezes) e de quem me tornei leitor regular. Os meus sentimentos aos amigos e à família.

 

"Sei que estás vivo aí onde estás, numa terra que é esta terra e não uma esfera astral ou um limbo abominável". - Julio Cortázar