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14/01/22

Ainda não regressei a todos os meus sítios preferidos

Uma espécie de post-balanço de 2021

Foi um dos objetivos que coloquei na cabeça assim que começámos a falar em desconfinar, ali a partir do passado mês de maio: regressar a todos os meus sítios. Já estamos em 2022, a sair aos poucos de uma "semana de contenção" (mais uma para o glossário destes tempos estranhos que vivemos), e dei por mim a pensar se já teria revisitado todos esses sítios que frequentava ou dos quais tirava prazer em espreitar ocasionalmente.

Acrescentei sítios novos a essa lista em 2021, alguns dos quais passei a frequentar regularmente, mas os sítios do costume? Esses, continuam, à falta de melhor palavra, intermitentes. Visitá-los ainda depende da vontade explícita de regressar. Falta espontaneidade e serendipidade, por um conjunto de motivos.

Daqueles que atribuo à pandemia, consigo ilustrar um: a falta de vontade de ficar meia hora com um chá e um livro aberto numa das minhas pastelarias (o meu coração pasteleiro franchisa mais localizações do que a Padaria Portuguesa). Mesmo com todas as medidas de segurança, continuo a evitar passar muito tempo em espaços fechados que sejam frequentados por muitas pessoas.

Portanto, não, ainda não regressei a todos os sítios, todas as vezes que gostaria de ter regressado. E escrevo isto mais em jeito de constatação do que de lamento. O meu desejo para 2022 é que, estando o essencial assegurado, saibamos aproveitar cada aberta na meteorologia, cada hora livre e regressar aos nossos sítios favoritos.

30/12/21

Os tempos do Céu sobre Lisboa

E a oportunidade de reler um dos meus blogs preferidos

Em setembro, pude segurar um blog nas mãos — e um blog só pode ter o peso de um livro. Falo d'O Céu sobre Lisboa, o blog mantido pelo Pedro Ornelas entre 2003 e 2008, e que hoje só pode ser lido em livro.

Nunca cheguei a conhecer o Pedro, nem sequer a interagir consigo como leitor, mas lembro-me de ter descoberto o seu blog, logo em 2003, e de o ler de uma ponta à outra, entre o intrigado e o invejoso. Inveja, em primeiro lugar, com aquele título fabuloso, que já pinta uma aguarela na imaginação, antes do modem sequer ter tido tempo de descarregar o template. E depois, com aquele modo de escrever, direto e descontraído, de quem está dentro da cidade, mas a vê-la de fora, graças à lente da curiosidade.

O Pedro parecia sempre pronto para reparar em algo, fosse um detalhe ou cena inusitada, e em partilhar esse motivo de espanto. Os seus textos revelam alguém movido a curiosidade (divertia-se, a título de exemplo, a apanhar o primeiro comboio que estivesse a passar numa qualquer estação de comboios), com lata jornalística para espreitar tudo e travar conversa com todos. O Céu era o seu caderno de observações e curiosidades colhidas nas ruas de Lisboa, e não só. Como o Ivan Nunes explica no prefácio do livro, não se trata, todavia, do típico flâneur:

O narrador deste livro é um flâneur - mas sem inconsequência, sem diletantismo. (...) O que lhe interessa não é só a novidade, mas sobretudo a mudança, que tanto se pode encontrar em coisas novas como naquelas que guardam os traços de uma vida muito antiga.

Por tudo isto, o Céu foi um dos blogs que mais influenciou, no tom e conteúdo, a minha própria escrita nos blogs. Já em setembro de 2008, quando fiquei a saber da morte do Pedro, o admitia: o Céu era o blog que gostaria de ter feito. É por isso que senti o assalto da nostalgia (embrulhada na expetativa sobre o aspeto que um dos meus blogs preferidos teria como livro) quando soube que o blog do Pedro tinha sido resgatado do apagão eletrónico e editado como livro, por iniciativa e esforço de alguns dos seus amigos. Em setembro, pude finalmente adquirir um exemplar, diretamente das mãos da Helena Soares, a mentora do projeto e sua editora.

Para começar, é um livro muito bonito. Nota-se o esmero na sua apresentação, da belíssima capa à paginação (o design é da Silvadesigners), com os posts do Pedro vertidos para o papel tal e qual como foram publicados, sem dispensar as fotografias. A fotografia servia muitas vezes de ponto de partida para os posts do Céu, ao ponto de me fazer questionar se o Pedro hoje seria mais blogger ou instagramer. A relação entre a palavra e a imagem no Céu era, na iminência dos smartphones (e da facilidade na recolha e partilha da fotografia), curiosa e, em retrospetiva, um bocadinho à frente do seu tempo.

Por falar em tempo, a Lisboa das crónicas do Pedro não dista assim tanto da nossa e, no entanto, as duas já não coincidem exatamente. Perceber isso, identificando as diferenças, também faz parte do gosto de ler este diário lisboeta dos anos zero. Como leitor (repetente, ainda por cima) do Céu, achei especialmente surpreendente a quantidade de vezes que me cruzei com o Pedro nos mesmos locais que visitei recentemente: o Castelo de Almada, as bilobas no Jardim das Amoreiras (estamos, precisamente, na sua "época de ouro", em finais de dezembro), a Tapada da Ajuda (que só explorei este ano), são só alguns exemplos. É o tipo de encontro-desencontro que só um livro, com a sua mobilidade, pode proporcionar entre duas pessoas que, apesar de tudo, partilham a mesma cidade-paixão.

Estas ideias à volta do tempo levam-me, inevitavelmente, a pensar em tudo aquilo que o Pedro teria para ver, investigar e comentar nos últimos anos em Lisboa. O que pensaria da cidade confinada? E da cidade esvaziada pelo Airbnb (fundada, precisamente, em 2008)? E do que mudou para melhor? A Ribeira das Naus, descrita no blog, em 2005, com a sua "estação fluvial fantasma", seria um bom exemplo de algo que o Pedro teria, certamente, gostado de conhecer. Não me recordo da existência da estação, mas lembro-me de passar várias vezes pelo estaleiro de obras que ali esteve durante anos, enquanto a zona aguardava definição. Em 2021, é um dos locais obrigatórios da cidade para recuperar horizonte e desfrutar do rio.

Como ideia, este livro também é o fruto tardio, e belo, da amizade. Em 2017, os escritos do Pedro estavam prestes a desaparecer da blogosfera. Hoje, já não é possível consultar o blog no seu endereço original (motivo pelo qual não faço link aqui). Os seus amigos juntaram-se e prestaram-lhe esta derradeira homenagem, a da memória. Ler o Pedro é poder voltar a seguir-lhe os passos e acompanhar o seu olhar por uma Lisboa que ora parece continuar igual, ora mostrar-se irremediavelmente mudada. Por tudo isto, foi uma das leituras que mais me cativaram este ano. É, seguramente, um dos melhores livros sobre Lisboa publicados nos últimos anos.

25/11/21

Um foguetão no jardim

De volta à Gulbenkian

Voltei há uns tempos ao jardim da Gulbenkian, desta vez para ver ao vivo um dos objetos mais curiosos que me lembro de aparecerem ali (e já vi alguns, graças ao espírito da arte contemporânea): um foguetão. Na realidade, uma réplica, nem sequer de um foguetão real: aquele que foi desenhado por Hergé para levar Tintim, o repórter mais famoso da banda desenhada, à Lua.

A estátua (escultura?) está ali no contexto de uma exposição dedicada ao artista belga e quando dei por ela, soube que tinha de passar por lá e registar a sua presença na paisagem. Não é todos os dias que vemos um ícone da nossa imaginação juvenil materializar-se assim na cidade — como se tivesse aterrado ali.

Já não sei dizer com que idade li pela primeira vez Rumo à Lua (a primeira parte da aventura espacial de Tintim, seguida de Explorando a Lua), mas, além de ser uma das maiores aventuras de Tintim, é a que tenho mais presente na memória, sobretudo pela espetacularidade dos grandes planos do foguetão axadrezado que o transporta, mais aos seus amigos, até ao nosso satélite natural, e das paisagens que lá encontram.

Quando pesquisava alguma informação sobre estas obras de Hergé encontrei a fascinante comunicação que João Mascarenhas preparou a propósito das fontes de inspiração, científicas e visuais, que Hergé incorporou na sua visão da Lua e da engenharia necessária para alcançá-la. Cito o João:

"fui-me apercebendo que na génese da aventura na Lua de Tintin, estavam conhecimentos científicos muito profundos, tendo-se feito Hergé rodear de bons conselheiros em áreas específicas do Conhecimento, de forma a tornar credível esta narrativa. Não se tratava de fazer ficção científica, mas sim uma narrativa científica plausível, à qual Hergé misturou o seu humor literário e visual."

O João inclui algumas ilustrações que mostram claramente os materiais nos quais Hergé se inspirou para compor alguns dos visuais mais marcantes da odisseia lunar, incluindo a do próprio foguetão, infelizmente bem sombria (foi baseado num míssil balístico nazi com o nome de código V2). Mais adiante, o João detém-se num detalhe curioso da obra de Hergé que reforça a ideia de como a ficção foi capaz de antecipar e projetar a realidade:

Segue-se uma sequência de vinhetas espectaculares, onde podemos ver os elementos da tripulação a flutuar pelo habitáculo do foguetão. Estas cenas são tanto mais incríveis se nos lembrarmos que na altura ainda não tinha havido nenhum voo espacial tripulado que permitisse testemunhar este efeito. Inclusivamente os primeiros voos espaciais (cerca de dez anos depois) dispunham de espaço tão exíguo no interior das naves que era quase impossível ver os astronautas em tais situações.

Depois de ler este artigo, a primeira pesquisa que fiz na internet foi "Hergé em entrevista sobre a verdadeira chegada à Lua". Afinal, Hergé chegou a testemunhar a chegada dos primeiros homens à Lua em 1969. Pergunto-me sobre o que terá pensado do feito desse dia (dessa década!) e nos pontos de contacto com a sua arte em que terá reparado (o Google, infelizmente, não devolveu nenhuma pista sobre o tema).

Seja como for, este pezinho na ciência, aliado à dimensão extraterrestre da odisseia, ajudam a explicar por que razão as aventuras de Tintim na Lua se destacam tanto das restantes. Apesar das óbvias liberdades da ficção com a astronáutica, estes dois livros podiam ser um manual ilustrado simplificado de como viajar até à Lua. Marcaram a minha imaginação e, estou certo, a de muitos mais.

2021 foi o ano em que se tornou possível, aos ultra-milionários, apanhar um foguetão até ao espaço e, dez minutos depois, voltar à Terra. Pela combinação da imaginação e da nostalgia, o foguetão de Tintim estacionado na Gulbenkian é, ainda assim, capaz de nos levar mais longe.

A exposição "Hergé" pode ser visitada na Gulbenkian até dia 10 de janeiro.

07/09/21

Um novo jardim a sul

Passei no domingo pelo jardim da Gulbenkian e lembrei-me que tinha um post esquecido nos Rascunhos do blog sobre o seu projeto de ampliação para sul, cujas obras, aliás, já estão em curso. Este é um dos meus locais favoritos da cidade e merece um post inteiro sobre as minhas razões para isso. Para já, achei que valia a pena colocar os toques finais num texto que está para ser publicado há mais de um ano.

Uns dias antes do país parar, em março de 2020, ainda fui a tempo de visitar, na Fundação Gulbenkian, uma pequena e curiosa exposição para quem se interessa pela forma como a cidade é transformada pela arquitetura e sente que o espaço ocupado pela Fundação faz parte da sua vivência de Lisboa.

A exposição intitulava-se “12 projetos de arquitetura” e colocava à apreciação do público os projetos que resultaram do concurso de ideias para a ampliação a sul do jardim Gulbenkian, aliada à remodelação do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (CAM). Sou utilizador assíduo deste jardim há muitos anos e nunca me tinha ocorrido pensar porque não ocupava toda a área disponível a sul do quarteirão (a Fundação chama-lhe o “vértice sul”), inclusive demarcada por um antigo muro, até à Rua Marquês de Fronteira. Segundo uma notícia do Expresso, só recentemente é que a Fundação obteve os direitos para esse espaço e assim poder criar uma nova entrada nessa rua, como acontecia com o antigo Parque de Santa Gertrudes. Em breve, quem se aproximar da Gulbenkian vindo de Sul, deixará de ter de contornar o tal muro até uma das entradas laterais para poder aceder ao jardim.

Visitei a exposição movido pela curiosidade de ver as respostas a esta oportunidade única de deixar uma marca num dos espaços verdes mais convidativos de Lisboa.

Imagem de satélite do complexo da Fundação Gulbenkian, com a vertente sul assinalada a laranja.

A área de intervenção, assinalada a laranja, das obras de ampliação para sul do jardim da Fundação Gulbenkian.

Até certo ponto, pode dizer-se que foi o jardim, concebido pelos arquitetos paisagistas António Viana Barreto e Gonçalo Ribeiro Telles, que colocou a Fundação no mapa. É difícil estimar qual seria o poder de atração das ofertas culturais da Gulbenkian sem esse pequeno oásis da natureza em seu redor, ao ponto de se tornar um ex-líbris da cidade e um cartão de visita da própria Fundação. Quem já assistiu a um espetáculo na sua sala de concertos dificilmente esquece a impressão inicial causada pela vista para o lago proporcionada pela fachada envidraçada. Por momentos, não parece mais que estamos em Lisboa, tão diferente e misteriosa (sobretudo à noite, quando está iluminada por alguns focos de luz) é a paisagem, sem sinal da cidade à volta. No fundo, a mesma sensação que qualquer visitante que já tenha passeado pelos caminhos serpenteantes e viçosos do jardim conhece. 

Quando a paisagem tem primazia sobre os edifícios, como parece ser o caso na Gulbenkian, como é que se desenvolve uma proposta de intervenção sobre esse espaço? Ver como o mundo da arquitetura respondeu a este desafio despertou a minha curiosidade e também um certo zelo da minha parte, como se, por ser utilizador daquele local, me pudesse considerar parte interessada no processo de seleção da melhor proposta — como se fosse um membro "à solta" do júri, a fazer uma revisão tardia das ideias a concurso, com a enorme vantagem de já conhecer a proposta vencedora e disso influenciar necessariamente as minhas impressões sobre os restantes projetos.

O antigo portão do Parque de Santa Gertrudes, que servirá de futura entrada sul no jardim da Gulbenkian a partir da rua Marquês de Fronteira. 

O antigo portão do Parque de Santa Gertrudes, que servirá de futura entrada no jardim da Gulbenkian a partir da rua Marquês de Fronteira. 

Percorri com atenção todas as propostas e alguns critérios de exclusão saltaram-me à vista: referir, logo à cabeça, o termo "demolição" na descrição do projeto e a utilização de maquetas praticamente despidas de árvores e de outros elementos naturais. A provar, mais uma vez, que existe uma relação negativa entre qualidade e quantidade, as propostas mais maçudas eram também, geralmente, as mais vagas e menos estruturadas à volta de uma visão ou ideia central.

Mesmo assim, havia algumas ideias curiosas, entre as quais o "hangar" idealizado por Carla Juaçaba para o CAM, cujas enormes portas poderiam abrir, literalmente, o museu para o jardim, e servir, quando fechadas, de tela gigante para projetar cinema ao ar livre. A escala do projeto parecia um pouco desajustada para o local, mas não lhe faltava imaginação.

O vidro era outra possível solução arquitetónica para fazer a ponte entre a paisagem e o edifício do museu e foram várias as propostas que seguiram a via da transparência. A proposta de JunyaIshigami era uma das mais aventuradas, pela forma como rodeava praticamente todo o jardim em corredores envidraçados, numa espécie de abraço (e, porventura, cerco) à natureza.

No sentido oposto, houve quem optasse pelo betão como elemento decisivo. De certo modo, eram as propostas que defendiam uma maior continuidade com a configuração atual da Gulbenkian. Entre essas, as propostas da firma "Menos é mais" e de Pedro Domingos destacavam-se por serem também as mais imediatamente reconhecíveis como possíveis ampliações da Gulbenkian como a conhecemos hoje. A primeira chega mesmo a propor uma ponte pedonal sobre um lago na vertente sul — uma ideia arrojada, que também pode ter parecido excessiva para o espaço, com consequências ao nível da acessibilidade. A proposta de Pedro Domingos apresenta uma enorme janela quadrada na fachada sul do museu e simula alguns enquadramentos interessantes do jardim quando visto a partir do interior, mas a escolha do betão liga estas propostas a uma estética cubista que os espaços verdes da Gulbenkian se encarregaram de ir gradualmente suavizando e apagando.

kuma-1600-x-1000-2.jpeg

O projeto vencedor é da autoria do arquiteto japonês Kengo Kuma, e é marcante pela frase singular com que escolhe abrir o caderno da sua proposta: “We are living in the era of the garden, not of the architecture”. E assim, com apenas uma frase na primeira página, está definido o princípio que irá orientar as suas ideias. Depois de folhear cadernos com centenas de páginas (com direito a secções inteiras dedicadas à "metodologia"..), foi inevitável sentir um certo deleite com esta maneira tão sucinta de projetar uma visão.

A proposta de Kuma sobressaiu imediatamente das restantes pela sua claridade, é certo, mas o elemento decisivo é o conceito que encontra para desenvolver essa ideia de primazia do jardim, fixado pelo termo japonês engawa, que designa o espaço abrigado pelo telhado ao redor da habitação tradicional japonesa, no qual “nunca se está totalmente no interior, nem no exterior”. É essa a inspiração para o componente mais vistoso, e perspicaz, do projeto: uma enorme pala curvada instalada na fachada sul do CAM, que esbate a fronteira entre jardim e edifício, e debaixo da qual os visitantes poderão desfrutar ao mesmo tempo da natureza e arquitetura.

Kuma, citado no site da Gulbenkian (com ênfase minha):

"Não repensámos a Gulbenkian através de intervenções independentes na estrutura e no terreno, mas a partir de uma integração holística de todos os elementos da paisagem. Ao criarmos um novo diálogo entre o edifício e o jardim, somos atraídos para o espaço entre a parede traseira do CAM e [a] parede fronteira do Parque. A nossa missão é enaltecer sem destruir a beleza; como tal, vemos neste espaço inexplorado a melhor oportunidade para construir um novo rosto para a Gulbenkian. Concebemos uma nova cobertura, que se transforma num filtro entre o CAM e o jardim e num espaço de socialização para os visitantes."

É uma proposta notável a muitos títulos, a começar por esta economia de meios, sem referência a demolições ou intervenções supérfluas, que poderiam roubar espaço ao jardim ou resultar na desfiguração do CAM. Kuma revela uma compreensão clara dos objetivos essenciais da intervenção: abrir uma nova vertente no jardim Gulbenkian, fazendo-o da forma mais sustentável possível, sem deixar de chamar a atenção para a existência do CAM.

Maqueta da proposta de Kuma para a ala sul do jardim Gulbenkian

Maqueta da proposta de Kengo Kuma para a ala sul do jardim Gulbenkian.

Será que a visão de Kuma chega para que a ala sul pareça tão convidativa e arredada da cidade quanto o resto do jardim Gulbenkian? E ainda para sublinhar o estatuto do CAM como pólo cultural? Estou otimista que sim, mas não tarda muito para que todos possam formar o seu próprio juízo. A conclusão das obras está prevista para 2022. Contem comigo para lá passar com muita expetativa e curiosidade. Para já, fica o elogio a uma pequena exposição que mostrou as diferentes maneiras de reimaginar um dos locais mais acarinhados da cidade.

13/04/21

13 anos a olhar o horizonte

Andei a espreitar o arquivo há uns tempos e apercebi-me que o blog estava quase a fazer anos e casar números: 13 anos no dia 13 de abril. É o meu projeto em linha de maior longevidade, agora que penso nisso, e acho isso espantoso porque cheguei a ter vários blogs antes de criar o horizonte artificial em 2008, e sei como é fácil deixar de nos identificarmos com uma ideia, um nome ou um certo registo na escrita. O que me fez aguentar (até aqui) o horizonte artificial? Algumas ideias dispersas:

  • ter enquadrado o blog, no nome e nos temas, à volta do reconhecimento de que tudo isto de que falo aqui (das flores aos livros e tudo pelo meio), é uma projeção minha, que me guia e também me ilude (nas várias aceções); por outras palavras, é um projeto de identidade em relação ao qual estou muito consciente e essa intenção explícita obriga-me a repensar e questionar todas as minhas intenções: porque quero falar deste tema? deste livro? desta situação? Não fui reler o blog todo (1115 posts, dá para acreditar?), mas tenho quase a certeza de que não me arrependo de nenhum deles. De certeza que reformularia algumas frases, fotografias (da época em que ainda não tinha a minha câmara atual), mas estou muito seguro de que nunca fui injusto com alguém ou alguma situação, uma das maiores preocupações que tenho ao escrever em público.
  • nunca me ter obrigado a uma regularidade ou frequência: tenho alguns anos no arquivo em que escrevi menos de 12 posts (menos do que uma vez por mês), algo que nunca me preocupou excessivamente. Tenho a noção de que tenho poucos leitores regulares (obrigado a quem estiver desse lado) e como super-leitor de blogs sei também uma pequena verdade: o nosso lugar de escrita na vida nunca muda. Há pessoas cuja escrita ou criatividade eu seguiria quaisquer que fossem as vezes que mudassem de endereço. Um template, um endereço, toda a moldura do blog pode mudar, desde que seja possível reconhecer o ponto de vista único daquela pessoa. Munido desta noção, e tendo adotado aqui um certo minimalismo intencional (nos temas que abordo, nas coisas que conto sobre mim mesmo, no próprio template, etc), resta pouco para onde ir ou fugir. Isto é, pouco mudaria, se tivesse de escolher outro endereço, outra forma de falar das coisas que me interessam e estimulam.
  • e isso é algo que vou querer fazer sempre, onde quer que esteja, no que quer que trabalhe, falar das coisas que me estimulam e inspiram a tentar ser uma pessoa melhor todos os dias: é uma das poucas regras que tento não infringir neste diário; uma coisa, a meu ver, mal feita ou criada, não pode ser a faísca (um bocadinho pretensioso, eu sei) que dá origem a um texto neste blog; sim, claro, um reparo ou uma sugestão construtiva, vai passando aqui e ali, porque sou humano, e também acredito por vezes que sei melhor que os outros, mas se isto fosse apenas uma compilação das coisas que detesto, das opiniões precipitadas que formulo de vez em quando e das minhas pequenas invejas que tento não coçar, não seria algo no qual gostaria de me rever. A criatividade dos outros é a minha maior fonte de inspiração, pelo que este blog, como qualquer projeto meu, tem de refletir essa disponibilidade para ser impressionado (um dos traços da minha personalidade que mais treino com este blog), assim como a minha vontade de inspirar em outros novas ideias e formas de ver o mundo.
  • uso o blog como caderno, mas também como agenda, álbum de fotografia e arquivo. Ajuda a organizar ideias, interesses, viagens, etc.
  • escrever ao fim-de-semana ou em alturas em que estou afastado do trabalho: é cada vez mais raro escrever durante a semana, exceto em dias como este; custa-me muito olhar para blogs depois de passar um dia inteiro a olhar para blogs;
  • o nome do blog: continua a parecer-me novo e um bocadinho desajustado, como um sapato novo que ainda não se ajustou à forma do nosso pé e, por isso, ainda não parece exatamente nosso, para bem e para mal — e horizonte artificial ainda me parece ter muitos quilómetros para fazer até me soar esfarrapado;

A quem estiver desse lado, obrigado por lerem, comentarem e, mais importante, deslumbrarem-se juntamente comigo.

10/04/21

Uma ilha de Primavera

Vi há uns dias, por acaso, o filme "A colina das papoilas", de Goro Miyazaki, e fiquei rendido. É um filme de animação, onde a imaginação, claro, pode dar voos maiores, mas é uma obra-prima na forma como idealiza e pinta a presença da Primavera na história central. Apetece entrar em algumas das cenas, nem que seja para descer a abrir aquela colina de bicicleta. Ando com papoilas no pensamento desde então, apesar de continuar limitado ao meu bairro, que pouco ou nada tem em comum com o litoral japonês. O espanto pareceu mais sentido, portanto, quando regressava a casa, esta semana, por um caminho diferente, e dou de caras com o que me ocorre descrever como uma ilha de Primavera na cidade — uma pequena encosta recém-transformada em jardim, por iniciativa da junta de freguesia, cheio de papoilas (sobretudo encarnadas, mas também algumas nos tons rosa e laranja) e de uma espantosa diversidade de outras flores. É mesmo um pequeno festival de flores, tornado mais especial por surgir assim no meio urbano (fica adjacente à Segunda Circular), numa altura em que sair da cidade ainda não parece ser possível. Quem ali passa dificilmente fica indiferente à pequena mancha vermelha de papoilas e já há sinais de ser um espaço estimado por quem mora à volta. As abelhas e os shutterbugs da freguesia, pelo menos, têm ali um motivo novo para ficarem fora de si.

Uma abelha a sondar uma papoila encarnada num jardim de Lisboa

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