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07/10/19

O dia de um escrutinador

Mesa de voto

Lembro-me de ver, há uns anos, a notícia de que o antigo presidente Jorge Sampaio havia sido agente eleitoral numa mesa de voto em Lisboa e de ter ficado impressionado com o exemplo. Eis um homem que foi eleito diretamente pelos portugueses para o cargo mais alto da nação sentado a uma mesa a verificar bilhetes de identidade. Isso diz muito da humildade democrática de Jorge Sampaio, mas também do nosso sistema democrático, em que alguém pode ocupar duas posições tão diferentes e dependentes uma da outra. Não esqueci esse exemplo de cidadania, que foi o que me inspirou (isso e a leitura recente do livro de Italo Calvino cujo título tomei de empréstimo neste post) finalmente a fazer o mesmo, quando vi o anúncio no facebook da abertura das inscrições para agentes eleitorais na minha junta de freguesia.

Inscrevi-me em agosto, sem esperar ser chamado, e recebi uma carta algumas semanas depois a convocar-me no dia das eleições como membro de uma das mesas de voto da minha área de residência. Na carta, fui nomeado secretário, que tem algumas funções previstas, mas que, pela minha experiência, é considerado um membro suplente da mesa, que auxilia e substitui um dos outros quatro membros da mesa quando precisam de se ausentar (para almoço, descanso ou para irem votar). Há poucas regras e as mais específicas visam sobretudo os membros com mais responsabilidades (o presidente e o vice-presidente da mesa). Pelo que ouvi, é possível que alguém que esteja a participar pela primeira vez numa mesa de voto possa ser nomeado presidente de mesa, mas penso que essa pessoa recebe alguma orientação prévia por parte da junta de freguesia (e se não receber, os veteranos da mesa podem e devem ajudar).

O meu domingo começou às 7h da manhã, hora indicada na carta para comparecer no local de voto. Depois das apresentações recebemos uma pequena orientação por parte dos membros mais veteranos da mesa. Não existe nada de complicado nas operações da mesa e a papelada que temos de preencher delineia praticamente tudo o que é preciso fazer depois da votação terminar e do escrutínio dos votos estar feito.

Dos cinco membros da nossa mesa, só eu e uma das escrutinadoras (as pessoas que verificam o nome do eleitor no caderno eleitoral) estávamos ali pela primeira vez. Ter ali gente simpática que sabia o que era preciso fazer ajuda imenso, mas o principal ingrediente é mesmo a transparência e o necessário acordo de todos. Na nossa mesa não ocorreu nenhum protesto ou incidente, mas o meu conselho, para quem se meter no mesmo, é que encarem todo o processo com sentido de responsabilidade, claro, mas sem excessiva gravidade. Há cinco pessoas presentes, e as contas têm de bater certo em algum ponto, pelo que dificilmente alguém vai conseguir contrabandear votos. 

A parte mais exigente da minha experiência foram as duas ou três horas que fiquei a substituir uma das escrutinadoras e a consultar os nomes dos eleitores inscritos nos cadernos eleitorais. Os nomes estão ordenados alfabeticamente, pelo que inicialmente parece ser uma tarefa fácil - até que o ritmo dos votantes começa a aumentar e damos por nós a procurar nomes afastados por dezenas de páginas. Eram 50 páginas com centenas de Carlos e Catarinas. Quando finalmente pensamos que temos um sistema ótimo para descobrir mais rapidamente cada nome, surge uma Cíntia ou um César para nos despistar novamente.

Felizmente, a pressão está toda na nossa cabeça, e podemos levar o tempo que precisarmos para nos certificarmos que não assinalamos a pessoa errada (se os dois escrutinadores fizerem esse erro, isso pode depois, no pior cenário, impedir um eleitor com o mesmo nome de exercer o seu direito). É algo de que me vou lembrar, da próxima vez que for votar e estranhar a demora na fila.

E, sim, mesmo com toda a atenção do mundo, de duas pessoas com dois cadernos e tabelas numéricas idênticas (para ir riscando o número de eleitores que já votou), auxiliadas por uma terceira (o presidente da mesa, que lê o nome do eleitor e confere o número de identificação), vai haver discrepâncias, que depois é preciso sanar durante o processo de contagem e apuramento de votos. No nosso caso, entre os dois cadernos, surgiu a discrepância de um eleitor, que foi ultrapassada ao final do dia com a contagem dos votos na urna (que é o total que prevalece).

Ao longo de todo o processo, ninguém deu ordens a ninguém, ninguém ralhou com ninguém (mesmo quando, a meio do dia, nos apercebemos, pelas tabelas numéricas, que já existia a tal discrepância de um eleitor entre os dois cadernos). Foi um dos trabalhos em equipa mais descontraídos e igualitários em que participei, marcados por uma grande maturidade cívica e descontração, que me parecem ser ainda mais essenciais ali.

A contagem dos votos começou às 19h e levou uma hora e picos a fazer. Novamente, muita descontração, com cada membro a contar uma pilha de boletins de voto e a distribuí-los por lista, com validação e recontagem pelos restantes membros. A distribuição dos votos por um pequeno número de listas, e a ausência de discrepâncias, facilitou muito essa parte do nosso trabalho.

Para memória futura, aqui fica uma pequena amostra dos resultados da nossa mesa: dos 965 votantes inscritos, votaram 659 (68%). As listas mais votadas, da mais à menos votada: PS, PSD, PCP, BE, PAN, CDS e IL (as restantes listas receberam, cada uma, menos de 10 votos). Houve 14 votos em branco e 8 votos nulos, com destaque caricato para o voto dedicado ao Presidente do SLB…

Por fim, o momento mediático do dia, a minha breve troca de palavras com António Costa, na fila para votar. Já o tinha encontrado nas eleições europeias, pelo que sabia que votava ali, mas só ao chegar à mesa de voto é que descobri que ele seria um dos eleitores inscritos na nossa mesa. Estudei jornalismo, estagiei num jornal, já assisti a algumas conferências de imprensa e, mesmo assim, não me senti preparado para aquela quantidade de câmaras (ligeiramente) apontadas na minha direção - e olhem que eu pensei que ia escapar, por estar naquele momento a orientar as pessoas à entrada da sala, e não sentado à mesa.

O aspeto mais engraçado de tudo aquilo foi ver as reações durante a manhã dos outros eleitores ao aparato mediático instalado em volta da nossa mesa. Houve quem fizesse cara feia, claro, mas também quem estacasse de surpresa a meio da sala, sem saber imediatamente o que pensar daquilo. Os repórteres de imagem começaram a aparecer logo pelas 8h da manhã para marcar o lugar. Ainda deu para trocar impressões e sentir alguma camera envy (o fotojornalista da Getty Images, por exemplo, levava ao pescoço nada mais nada menos do que três enormes câmaras, só para registar o voto de alguém a menos de 2 metros de distância). Foi o momento mais animado do dia e valeu pelas mensagens dos amigos que me reconheceram na televisão e em alguns memes tótós que circularam (pouco, espero) nas redes. A fotografia no topo deste post foi feita à minha frente, já depois de António Costa ter votado. Não consegui encontrar a referência ao fotojornalista que a tirou, mas mostra bem a descontração que marcou o nosso dia ali.

De resto, houve muitos momentos bonitos entre pais e filhos. O mais bonito foi ver um senhor de 99 anos a entrar na sala de aula, acompanhado da filha (ela própria já na terceira idade), para votar. Caminhava com o auxílio de muletas, e com o ar de quem está um bocado longe dali, mas votou. “É teimoso”, dizia-nos a filha, enquanto esperávamos que o senhor votasse na cabine. E não pelo motivo óbvio: ele tinha preferido deixar os óculos em casa.

Vale a pena ainda assinalar que aquelas 14 horas (das 7h da manhã até ao fim da contagem dos votos da nossa mesa) como agente eleitoral foram remuneradas e que hoje tenho o direito a gozar um dia de folga do trabalho.

Não fiz nada de especial para ali estar e a minha experiência diz-me que a nossa democracia continua em boas mãos, precisamente porque também pode estar, por necessidade e/ou mero capricho da curiosidade, nas nossas.

01/10/19

Outubro

Habituei-me a ler, no primeiro dia do mês, os planos da Rita para o mês que se segue, e acho que é daí que veio a inspiração para esta vontade súbita de partilhar aqui os meus planos para outubro. É mais apto, porventura, falar em motivos de entusiasmo, porque não são bem planos fechados, mas se inspirar mais alguém, já fico feliz.

  • Uma experiência nova: vou ser agente eleitoral nas eleições legislativas do próximo domingo e não sei o que esperar. Depois tenciono contar tudo aqui, claro;
  • ViagemFestival de Cinema Francês, 3 a 13 de outubro: o cinema conta como viagem, certo?
  • Aprender: comecei em setembro e este mês vou continuar a frequentar algumas aulas de desenho numa associação cultural perto de casa. Está a ser um desafio mais difícil do que esperava, mas é um desafio bem-vindo à criatividade e à minha capacidade para me afastar de um ecrã por mais de uma hora acordada. Não sei bem onde é que isto vai dar, mas já fico satisfeito se for o começo de algo (um hobby, um caderno de desenho, etc);
  • Teatro: gostava muito de conseguir assistir a este Crime, disse ela, e de fazer uma visita a esta Ibsen House.
  • Livros: este mês ando a passear pelos Jardins de Lisboa, de Ivo Meco.

Se tiverem sugestões ou ideias, venham elas.

29/09/19

A minha cor favorita

hortela.jpg

Está nos links deste blog, nas minúsculas pétalas desta hortelã-de-água (encontrada no Borboletário da Quinta de Rana, cuja visita recomendo) e vai aparecendo, aqui e ali, nas pequenas coisas que faço. Quando a vejo produzida pela natureza, parece-me artificial ou irreal, tal é a forma como vibra ao olhar e parece dizer "hey, sou diferente". Dizem na Wikipédia inglesa que, sim, é uma cor normalmente associada ao artificial, assim como ao individualismo e ao inconvencional. Gostava de devolver o individualismo, mas esta é uma daquelas compras dois em um. Uma segue a outra, por vezes.

21/09/19

Mudar os sítios

Acho que foi num blog, mas não posso jurar, que li esta semana algo sobre como é bom encontrar um lugar no mundo para tornar melhor. Quando o li, passei à frente, abri outro separador e foi só mais tarde que a ideia começou a verrumar (sim, descobri este verbo esta semana) cá dentro. O que me impressionou, acho eu, foi a inversão de ideias. Estamos habituados a pensar na mudança de casa, na grande viagem de férias, na estadia no campo como oportunidades para sermos influenciados e mudados (pela nova vizinhança sossegada, pela cultura, pelo bom ar, etc). Raramente pensamos no inverso da medalha, em como é que nós, com a nossa presença, mudamos os sítios.

Trabalho há 12 anos com uma comunidade virtual de pessoas. E se é verdade que os blogs não salvam ninguém, também é verdade que aprendi imenso com eles durante este tempo. Saí da faculdade a aceitar e a respeitar a diferença de opinião, por exemplo, mas foi só aqui que aprendi a valorizá-la, e a reconhecer que a diversidade de perspetivas pode ser esclarecedora e estimulante. Se querem criar e manter um espaço onde pessoas com personalidades e pontos de vista diferentes se possam encontrar, sem lhes dar visibilidade, esqueçam.

Foi aqui que eu aprendi que devemos, e podemos, tentar fazer, sempre, a diferença na qualidade do discurso público e da convivência virtual, mesmo quando deparamos com a indiferença (de quem já desistiu ou não percebe que estamos sempre em posição de mudar os sítios por onde passamos). Dar visibilidade à diferença, à argumentação ou a essa coisa tão simples quanto poderosa como o elogio são alguns dos antídotos para o preconceito, desinformação e cinismo.

Estar exposto à escrita dos outros, feita de vivências e tentativas de dar sentido ao que nos acontece neste pedaço de rocha redondo, ajuda-me, por sua vez, a procurar (ênfase no procurar e não encontrar) o lado positivo de tudo o que me acontece.

A magnitude do privilégio de trabalhar com as confissões, desabafos, ideias desta malta toda só tem comparação com o tamanho da responsabilidade que existe em manter, como parte de uma equipa, um espaço seguro e aberto a quem quer criar, exprimir-se, debater e desabafar (e vão sempre existir blogs enquanto houver internet e humanos a precisarem de desabafar, vão por mim).

E, sim, isto pode só ser grandiloquência, ou uma tentativa de fazer sentido de um trabalho que consiste, essencialmente, de estar sentado a um computador 8 horas por dia. Seja isso ou não, a ideia com que abri este texto fez-me perceber como esta comunidade é um dos sítios que eu espero estar a tornar melhor por cá estar. Porque este sítio, feito de três palavrinhas separadas por dois pontos (que podia teclar de olhos fechados), já me mudou para sempre.

18/09/19

Insanidade

Este é um post diferente do habitual, que eu não queria escrever nem publicar.

Desde o dia em que dou o nome e a cara no apoio que presto e nos conteúdos que publico no SAPO Blogs que sei que havia uma hipótese de alguém se aproveitar disso.

E aconteceu, finalmente.

Desde há uns meses que ando a ser assediado repetidamente por um utilizador do serviço no qual eu trabalho.

Como qualquer pessoa que já trabalhou em apoio ao cliente sabe, as linhas de apoio ao cliente tornam-se muitas vezes redes de apoio àquelas pessoas que, por qualquer motivo, estão mais carentes de atenção e contacto humano.

Há 12 anos que faço apoio ao cliente por escrito e já consigo identificar rapidamente situações deste género. O primeiro sinal de problemas surge normalmente logo após o contacto inicial, quando a uma dúvida muito simples se seguem dúvidas cada vez mais específicas e complexas, feitas por meio de longas deambulações, semeadas de referências a situações fora do âmbito do nosso trabalho. Quando o nosso trabalho envolve mais do que prestar apoio e queremos sinceramente ajudar quem nos contacta, este tipo de contacto, feito de forma repetida, acaba por nos desgastar, porque percebemos rapidamente que aquilo de que aquela pessoa precisa é de um amigo. E quem está deste lado pode tentar ser simpático, prestável e acessível, mas não isso.

As pessoas que trabalham em apoio ao cliente estão especialmente expostas a situações desse género e à tensão inevitável que surge entre as obrigações colocadas pelo trabalho e a necessidade de se preservarem. Infelizmente, há pessoas que parecem ter-se especializado em tirar partido dessa exposição. É o caso do indivíduo que se identifica no SAPO Blogs como "P.P.", "Insensato", “[In]sensato”, “Insensato.pt”, "Paulo Pinto", onde diz ser professor ou auxiliar de educação em Santa Comba Dão. Também tenho razões para crer que este é o mesmo indivíduo que me contactou, via Twitter, como “homeminsensato” e “Pedro Gonçalo”.

Não conheço nem nunca interagi com esta pessoa fora do meu local de trabalho, pelo que não tenho como saber se algum destes nomes é real, mas são aqueles que já usou, dezenas de vezes, para me contactar no trabalho e fora dele. Também não tenho como confirmar que tem realmente a ocupação que diz ter, mas não é preciso explicar por que razão é um dos aspetos que mais me perturbam nesta situação.

No trabalho, quando chegou ao ponto em que os contactos de apoio começaram a conter considerações pessoais sobre mim, informei a equipa e deixei de responder. O resultado, nos últimos meses, é uma campanha de assédio por e-mail, através dos comentários do nosso blog de equipa, de reclamações escritas a visarem-me por nome e de comentários insultuosos em blogs de terceiros.

Um comentário maldoso, um insulto “anónimo”, um e-mail a “exigir” a minha atenção pessoal são coisas que, ainda que perturbadoras, conseguimos isolar e ignorar. Quando se repetem meses a fio e extravasam o nosso local de trabalho, a nossa firmeza começa a vacilar. Pensamos no que fizemos para justificar isto, se devemos responder e, inevitavelmente, dar a atenção que é “exigida”. É esse o efeito pernicioso deste tipo de assédio continuado. Faz-nos duvidar da nossa própria sanidade.

Chega de insanidade, portanto. Quero deixar isto muito claro: assédio é crime. Ninguém tem o direito de incomodar outra pessoa, no seu trabalho ou fora, seja qual for a justificação - a solidão, até mesmo a doença, não são desculpas. E eu sei que um post num blog pessoal, não chega para parar e punir isto.

Esta denúncia pública é só o primeiro passo.

Se tiverem mais dados sobre a identidade deste individuo, contactem-me, por favor, por e-mail. Se participam na blogosfera do SAPO, e sentem que podem confiar na minha palavra, e na descrição que faço acima de tudo o que se passou, peço-vos que me ajudem a espalhar a palavra sobre o seu comportamento.

Obrigado,

Pedro Neves

Atualização 20/09/19: Dois dias depois ainda me sinto incomodado por ter escrito e publicado este post. O meu blog pessoal é a minha caixa das bad things. Não serve para falar de situações que não escolhi, não provoquei e das quais não quero fazer parte. Posto isto, serviu para chegar, presumivelmente, ao nome completo deste indivíduo e para me convencer, finalmente, de que esta situação precisa de acabar.

O blog em causa foi suspenso ontem e não terá mais lugar no SAPO Blogs para importunar seja quem for. Espero nunca mais ser visado ou contactado por este indivíduo, dentro ou fora do meu trabalho, mas sei que há uma possibilidade de isto não acabar aqui. Se isso acontecer, qualquer desenvolvimento não passará mais por este blog.

Por fim, um conselho a quem, eventualmente, chegar aqui um dia e estiver ou conhecer alguém que esteja a passar por algo parecido: o bullying, o assédio, qualquer interação indesejada, não é um problema vosso. É um problema que devem e precisam de partilhar, desde o início, com quem está à vossa volta, sejam eles familiares, amigos, colegas ou chefias.

14/09/19

A palavra mais bonita

Estive quase para não ir e sinto que essa frase é uma espécie de bifurcação que separa dois universos paralelos. Num deles passei a noite da passada quinta-feira no sofá e não fui ver o espetáculo "A palavra mais bonita" da Maria Giulia Pinheiro. Neste universo, venci o cansaço e a preguiça e fui recompensado com um dos espetáculos de teatro mais especiais a que assisti nos últimos anos.

O caroço do espetáculo é a história do último ano de vida do pai da artista e de como a doença o privou da fala, dos movimentos e, no fim, de uma despedida. As palavras nunca ditas são substituídas pelas palavras que a criadora vai pedindo ao público: "Qual é a palavra mais bonita que você usou para pedir perdão?" ou "Qual é a palavra mais bonita que associas a democracia?" são alguns exemplos das perguntas que vai colocando.

Num momento, estamos a tentar fazer sentido da tragédia pessoal da artista, no outro somos precipitados numa enxurrada de pensamentos e recordações. Não cheguei a contribuir com uma palavra, mas acredito que todos nós, na plateia, estivéssemos a pensar furiosamente numa resposta a cada pergunta. O resultado eram listas de 4 ou 5 palavras por pergunta, anotadas num acetato projetado contra a parede. Como peixes fechados num pequeno aquário, as palavras pareciam todas querer seguir em direções diferentes, com o tema da pergunta a servir de vidro e a impedi-las de escaparem.

Esta vertente interativa é só uma das facetas do espetáculo, mas é também uma das mais bonitas. Foi fascinante assistir ao vivo a esse exercício de criação coletiva.

No final, a Maria Giulia sentou-se à mesa do projetor e fez aquilo que ela descreveu como costura, mas que também pode ser descrito como magia. Pegou em algumas das palavras oferecidas ao longo da noite pelo público e, projetada na parede, escreveu poemas.

O amor é a palavra mais bonita e a maior força criadora.

Obrigado, Maria Giulia.

07/09/19

Postais das minhas férias


  • O momento em que um primo, com apenas 7 anos, me pediu para ir com ele brincar ao fundo da rua, e vejo, quando lá chegamos, que o "fundo da rua" não tem nada daquilo a que nós, que vivemos numa cidade, associamos à expressão. No caso dele, o fundo da rua é uma estrada que se perde de vista entre montes, árvores, moinhos e uma tabuleta a indicar a direção da "BARRAGEM". É assim que o fundo da rua devia parecer-se todos os dias.

  • Estradas vazias, nas quais o rádio do carro parece sair do alcance das emissões e gente idosa nos acena à passagem (talvez por ser tão raro alguém enveredar por ali).

  • Um cenário que uma fotografia não conseguia captar (mas que talvez um GIF conseguisse): ao espreitar pela janela de um dos alojamentos pelos quais passei, ver a lua em quarto crescente contra um céu estrelado e, no horizonte, o rasto cadenciado e silencioso de um farol escondido abaixo da linha de visão. Ninguém me convence que os faróis, hoje em dia, servem sobretudo quem está em terra firme.

  • Porque nem tudo pode ser bom, o mau acolhimento (porque é disso que se trata, e não tanto de atendimento) que senti nas várias pastelarias em que entrei ao longo da viagem. Agosto traz sempre mais clientela para estes sítios, e percebo o trabalho acrescido que isso implica, mas não há desculpa para a forma como fui atendido algumas vezes.

  • Padarias onde o pão se diferencia pelo nome da terra onde foi feito.

  • Não foi o suficiente para desligar, e questiono-me do que precisava (mais duas semanas? uma zona sem rede e eletricidade?) para conseguir isso.

  • Saldo das leituras: consegui ler 2 dos 4 livros levados.

  • Observar os ocasionais mochileiros solitários, a descerem das camionetas da Rede Expresso com um ar de ligeira apreensão, mas também de discreto orgulho por estarem tão longe de casa. Fico sempre um bocadinho invejoso, porque já estive no lugar deles e sei que, apesar da apreensão inicial, vai correr tudo bem e vão achar tudo maravilhosamente diferente.

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