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13/09/22

Linhas da vida

Esta tarde, perdi a carteira na rua. A carteira ou o porta-cartões? A senhora da Carris, no outro lado da linha, tinha razão: nestas situações, é importante ser específico. Esta tarde, perdi o porta-cartões na rua. Só me apercebi quando cheguei a casa e, como é meu hábito, fui esvaziar os bolsos. Como é que definimos a sensação de perder algo tão essencial para o nosso quotidiano? Aqui em casa, falei em aflição, mas por escrito a palavra soa excessiva para a situação. Urgência? Um pouco melhor. É importante sermos específicos, já sabem. Tinha de voltar atrás, refazer os meus passos e esquadrinhar as pedras da calçada. Recuei até ao último ponto do meu trajeto desde o autocarro, mas sem sorte. Começava a fazer mentalmente as pazes com o azar ("são só cartões", "não levava sequer dinheiro", "aquela fotografia do passe nem me favorece"), quando o telefone toca. Era a minha irmã, sem preâmbulos, a indicar-me que a carteira seguia na viatura 2258 (algo assim) e que só tinha de aguardar a sua volta na paragem da direção contrária para a reaver. Por um instante demasiado fugaz, senti-me dentro de um daqueles filmes de Hollywood em que uma voz sabe-tudo irrompe do nada. O pior de vermos muitos filmes de Hollywood é que rapidamente ficamos versados em todos os enredos possíveis. Neste caso, percebi que devo ter tido, algures no tempo, a sensata precaução de deixar uma pequena folhinha com contactos de emergência (um pedaço de papel mais pequeno que um post-it, praticamente a desintegrar-se, esmagado centenas de vezes contra o forro) entre os meus cartões. Esperei pelo autocarro e, como um pequeno milagre da vida urbana, lá estava a minha carteira, avistada por alguém atento e entregue a um motorista zeloso (a folhinha não era mesmo nada fácil de encontrar). O alívio foi incrível (passo muitas vezes pela fila para a Loja do Cidadão), mas o que mais me fascinou foi mesmo a expressão que um amigo usou ao ouvir-me narrar a pequena sorte. Ali estava eu, meio perdido na rua, e subitamente alguém puxou uma das minhas linhas da vida para chegar a mim. Delicio-me sempre com histórias à volta de níveis de separação (de como estamos todos ligados uns aos outros, nem que seja por intermédio de uma média estatística de algumas pessoas) e hoje achei curioso dar por mim no centro de uma. A carteira perdida foi uma espécie de batota, mas vocês percebem. Aliás, porta-cartões.

14/05/22

Abril, em Lisboa

Uma mancha vermelha de flores de papoila no meio de uma colina verdejante, contra o céu azul de abril, em Lisboa.

Esta pequena colina enfeitada por papoilas foi o meu ponto alto de abril. Ia a passar não muito longe dali, quando reparei em algumas papoilas pelo canto do olho e decidi espreitar mais de perto. Seguindo um pequeno carreiro, que passa algumas das árvores que tapam o cenário a partir da rua, a vista abre-se para esta colina, um pedaço de natureza que resiste no meio da urbe. A cidade acabara de abrir mão de um dos seus segredos.

18/04/22

Onde é que este blog anda?

Resposta direta: pelo SAPO Viagens, onde estou a dar uma mãozinha e a minha experiência até agora pode ser resumida num texto, aqui.

Adorei a viagem, amei escrever o texto. O meu próprio interesse por comboios, o deslumbramento com as paisagens do Tejo (o rio da minha aldeia, para citar Pessoa) e a descontração da tarefa fizeram com que este praticamente se escrevesse a si próprio. Não tirei notas ao longo da viagem, por isso, na hora de escrever, limitei-me a "bater umas bolas" com a memória e as ideias lá retidas.

Já tinha qualquer coisa escrita, quando voltei a escutar, do nada, os comentários soltos dos restantes passageiros à minha volta nesse dia. A exclamação sobre o Intercidades, por exemplo, fez-me levar o texto numa direção nova até aí e serviu de base para a ideia central que tentei passar: a experiência de viajar neste comboio histórico é completamente diferente daquela que um comboio normal na mesma linha pode proporcionar.

O relato da viagem estava praticamente terminado, só faltando um título para fechar o artigo, quando me chegou, finalmente, o eco da palavra "descapotável", pronunciada ainda a bordo do comboio por alguém nas minhas imediações. Não trazia nenhum contexto, nem autoria (consigo recordar-me da voz de um homem, mas nada mais). Era apenas uma palavra a aterrar-me aos pés, com a imagem de que precisava para completar a ilustração da diferença que representa, poder abrir uma janela e espreitar para fora da carruagem, viajar de cabelo ao vento e sorriso na cara.

Não é um texto fabuloso nem nada parecido, mas sei que seria metade do texto que acabou publicado, se não me tivesse recordado, no momento certo, dessas palavras à minha volta. Que brisa as soprou na minha direção? Na dúvida, vou passar a fazer como no BeiraTejo (o nome que também prefiro), e deixar sempre uma janela aberta.

20/03/22

Um sinal de paz na pauta da cidade

Ontem, vi uma reportagem sobre o fluxo de refugiados ucranianos a chegar à estação de comboios de Badajoz, ponto a partir do qual algumas dezenas continuam a sua viagem até Portugal num comboio da Linha do Leste da CP. Estive ali em meados de fevereiro, quando Badajoz parecia ser o sítio no mundo mais afastado de uma guerra (bom, e de tudo o resto, dada a pacatez da região). Apesar de se tratar de uma estação moderna (e servida, no lado espanhol, por comboios modernos), pareceu-me mais pequena e menos movimentada que algumas das estações suburbanas de Lisboa. Hoje, a crise humanitária posta em marcha pela guerra (que já deslocou milhões de ucranianos), já está à vista ali, que é praticamente, dada a proximidade da fronteira portuguesa, um aqui.

Os sinais da guerra estão por todo o lado, portanto, mas os da paz também. O mais impressionante deles, até agora, surpreendeu-me o olhar há poucos dias, e também envolve a ferrovia. Na realidade, é muito difícil não dar por ele: trata-se de um enorme símbolo da paz, pintado em azul escuro a toda a largura do caminho-de-ferro da Linha de Sintra.

Desconheço quem pintou o símbolo clandestino, mas quem quer que tenha sido, conhece bem a zona onde o fez (escolheu pintá-lo onde é possível vê-lo de cima, a partir de uma ponte pedonal que atravessa as linhas ferroviárias) e não pensou pequeno. A dimensão do grafíti é tal que, muito provavelmente, vai ser possível avistá-lo do espaço (quando as imagens de satélite do Google Maps forem, eventualmente, atualizadas).

A ousadia e o sentido de oportunidade do símbolo (apareceu ali algures entre 6 e 8 de março), na sua localização e dimensão, impressionaram-me. Não sabíamos, mas precisávamos de um símbolo destes: anónimo, indelével, feito à escala da cidade. Universal no seu significado.

05/03/22

Ucrânia

É como se estivéssemos a assistir a uma agressão gratuita na rua, e nenhum de nós ousasse mexer um músculo em defesa da vítima, com medo de sermos agredidos a seguir. É a analogia mais próxima que  encontro para descrever o que está a acontecer no mundo, e o sentimento de impotência que surge perante a insanidade a desenrolar-se à nossa frente.

Não esperava voltar a sentir esta forma de angústia em relação ao estado do mundo tão cedo depois destes últimos dois anos. A diferença desta vez, claro, é que existe alguém que, com uma palavra, pode parar tudo o que está a acontecer. E isso muda a própria natureza de desesperança que sentimos. Tenho dado por mim repetidas vezes a abanar inconscientemente a cabeça ao escutar as notícias mais recentes sobre a devastação a ser infligida na Ucrânia. É difícil de acreditar que isto está a acontecer no nosso tempo, mas sobretudo que tudo isto é consequência de uma decisão: não se trata de um desastre natural, é uma catástrofe por ação humana.

Não conseguimos, para já, impedir a insanidade em curso, mas parece haver uma quase total censura e rejeição desta guerra. As cores da bandeira ucraniana aparecem um pouco por todo o lado, transformadas em apelo à paz. Toda e qualquer expressão de solidariedade que o meu olhar surpreende (uma bandeira ucraniana à janela de uma casa isolada, um pin numa mochila a viajar ao meu lado, uma escola a formar a palavra PAZ com os seus alunos) comove-me e dá-me algum alento, como espetador passivo deste atroz e brutal espetáculo, numa altura em que nos preparam, com a mais sombria das expressões, para o que ainda está por vir.

Podemos ser impotentes para intervir, mas não somos indiferentes à desgraça que se abate sobre o povo ucraniano. A par da solidariedade material (feita dos donativos às ONGs no terreno e do acolhimento dos refugiados), a solidariedade simbólica, a ser transmitida em todas as frequências e idiomas do mundo, já é um movimento do espírito, uma aproximação ao que se passa e a quem vive na pele o medo e horror da guerra.

Por tudo isto, preciso de deixar, também aqui, esse apelo: Paz para o povo ucraniano!

03/03/22

Uma fotografia de 2021

Um medronho maduro pousado em cima de um poste de madeira

Só hoje me apercebi que falhei, pela segunda vez em dois anos, a pequena tradição anual de publicar aqui uma fotografia dos doze meses anteriores que não tenha partilhado em qualquer outro sítio. Não se trata de escolher a minha melhor fotografia do ano nem nada parecido. Apenas algo que fique de recordação desse ano. Bom, lá abri o Lightroom, e toca a puxar das fotografias feitas em 2021. Tenho por lá algumas fotografias visualmente marcantes, que dispensariam legenda ou explicação. A fotografia acima, não é uma delas. Podia passar por mais uma das muitas fotos que fiz ao longo dos anos no Parque Florestal de Monsanto. Um medronho maduro, colocado por mim em cima de um poste de madeira, para tentar um enquadramento fotográfico diferente, não tem, à primeira vista, nada de especial. A expressão-chave aqui é mesmo primeira vista. Alguns dias (sim, no plural) depois de ter feito a fotografia, voltei a passear pelo mesmo local com a minha mãe, completamente abstraído de já ter ali passado nessa semana. "Olha, alguém deixou um medronho em cima do poste", aponta divertida, enquanto eu seguia distraído uns metros à frente. Quando me virei para trás, mesmo antes de pousar os olhos no ponto vermelho, a minha cara já devia trair alguma da doce descrença que aquela frase acabara de fulminar no meu pensamento. Há momentos assim, em que o mundo parece repentinamente mágico e muito, mesmo muito, pequeno.

23/02/22

Um elogio ao Masterchef Portugal

A Fernanda, com 56 anos, é uma das concorrentes mais velhas no Masterchef Portugal e há algumas semanas foi escolhida por outro concorrente para enfrentar uma das provas de eliminação mais duras, até aí, no programa (não me recordo da mecânica, mas o desafio era quase maquiavélico no grau de dificuldade). Notou-se o espanto e o cansaço na sua reação, ao perceber que seria novamente posta à prova, mas o painel de apresentadores-jurados (os chefs Vítor Sobral, Marlene Vieira e Óscar Geadas) tinha mais uma surpresa na manga: deu-lhe a hipótese de escolher o concorrente com quem iria disputar a permanência no programa. E foi aqui, com a resposta da concorrente, que o programa conquistou-me.

Colocada perante a hipótese de escolher qualquer um dos concorrentes mais "fracos" ainda em jogo, a Fernanda optou por bater-se contra um dos concorrentes que já se tinham destacado pelas suas habilidades culinárias (o colombiano Alberto). E não há outra forma de dizê-lo: foi arrebatador vê-la emergir vitoriosa do desafio, contra todas as expetativas. Um triunfo pessoal ainda mais significativo por ocorrer face um competidor em pé de igualdade. Quantas vezes vemos alguém, na televisão ou na vida real, escolher participar num duelo de iguais?

Seria possível descartar o programa como mais um produto de reality tv na cozinha, sem história, se não tivesse gerado vários destes momentos emocionantes, em que o público teve a oportunidade de ver os concorrentes superarem-se, não só nas suas capacidades culinárias, mas também na forma de competir entre si (embora, claro, nem todos os concorrentes tenham estado sempre à altura).

O concurso deve muito do apelo ao seu formato, centrado na criatividade gastronómica (tirando as provas exteriores, as câmaras nunca deixam a cozinha-estúdio), mas também aos padrões de exigência que os três apresentadores imprimem na competição. Cheguei a achar que ter três pessoas a apresentar seria, quase literalmente, demasiados chefs na cozinha, mas o casting foi mesmo feliz. Os três complementam-se bem e isso é digno de nota por se tratarem de pessoas que, apesar de já serem figuras destacadas na sua área, não estão habituadas a conduzir programas televisivos com quinze episódios, cada um com a duração de hora e meia (uma maratona televisiva, até para os espetadores). De resto, é difícil imaginar qualquer um deles aceitar emprestar o seu nome e prestígio a outro formato de competição culinária menos preocupado em cultivar e destacar a excelência.

Acho que é a primeira vez que dedico um post inteiro a um programa de televisão, mas senti que precisava de passar a escrito algumas ideias sobre o que tenho visto, e a satisfação que me tem dado acompanhar um concurso assim, baseado na criatividade, que se esforça por elevar os seus protagonistas. E acredito que seja um esforço tremendo. O grau de exigência da competição, a logística dos desafios (alguns deles realizados em diferentes pontos do país, envolvendo produtos, tradições e figuras locais), a atenção ao bem-estar psicológico dos concorrentes, entre outras dimensões, devem fazer do Masterchef uma das produções mais complexas a serem transmitidas na televisão portuguesa. Embora saiba que isso faz parte da "magia", gostava que houvesse algum modo de desvendar um pouco mais desse trabalho invisível que entra na produção de um programa destes.

A final do Masterchef Portugal é transmitida este sábado, na RTP1 (que disponibiliza todos os episódios na RTP Play), e estou (é preciso dizer?) muito empolgado para ver como vão colocar à prova, e fazer brilhar, os quatro finalistas (ainda que, cá no fundo, esteja a torcer pela Tânia, a concorrente que me parece ter tido o desempenho mais consistente ao longo do concurso).

21/02/22

Nunca vou deixar as luzes do carro ligadas

Este fim-de-semana, pela primeira vez, conduzi sozinho ao longo de algumas centenas de quilómetros de auto-estrada. Tenho lido muito sobre a sensação de liberdade de andar de bicicleta (precisamos de um verbo para aquilo que fazemos realmente em cima de uma bicicleta, ali entre o andar, o deslizar e o engrenar), mas confesso o deslumbramento com a velocidade e o progresso de um automóvel numa estrada vazia. O meu não é particularmente veloz nem confortável, mas ainda não me habituei totalmente à ideia de poder entrar e manobrar inteiramente sozinho uma máquina a grande velocidade (no meu caso, entenda-se "grande velocidade" por 110km/h, que raramente ultrapasso). Dou algumas vezes por mim a pensar nos milhões de horas de trabalho necessárias para desenvolver, fabricar e aperfeiçoar os sistemas que me rodeiam e reduzem a complexidade da operação da máquina a alguns gestos e procedimentos.

Sei que a história do automóvel está muito ligada ao desenvolvimento do capitalismo, do individualismo, do urbanismo, entre outros -ismos, e que muito pode, e deve, continuar a ser dito em relação à nossa dependência do automóvel. Posto isto, é igualmente inegável que conduzir um automóvel em direção ao horizonte está entre uma daquelas experiências que provavelmente surripiámos aos deuses. Tenho amigos que falam disso como fazer terapia. Muito embora eu não esteja nesse nível (para começar, a terapia sairia mais barata, dado o preço dos combustíveis), sou levado, muito a contra-gosto, a concordar.

O meu elogio do automóvel é, acima de tudo, o elogio da distância que este permite atravessar sem grande envolvimento físico. Mas também é um elogio do refinamento da máquina, seja na redução da sua perigosidade, seja no aumento do seu conforto. Um exemplo disso é um dos meus detalhes preferidos do automóvel que conduzo: o alerta sonoro que dispara quando abro a porta ainda com os faróis acessos. Vê-se cada vez menos  nas nossas ruas (até porque a tecnologia mais recente já desliga as luzes automaticamente), mas sempre que avisto uma viatura estacionada com os faróis ainda acessos, comprazo-me pela atenção que alguém teve na introdução desta (aparentemente) simples funcionalidade no modelo do meu carro. Gosto dessa sensação, quase luxuosa, cada vez mais rara, de ter menos uma preocupação na vida.

15/02/22

Como tento ser um bocadinho mais feliz

Não resisti a ler há uns dias este artigo (que é realmente uma lista) do Guardian sobre 100 ways to slightly improve your life without really trying. Tirando o óbvio apelo a qualquer representante da espécie humana (quem não gostaria de melhorar a sua vida com pouco esforço?), parece-me ser o tipo de artigo que pisca o olho a quem, como eu, já tenta colocar em prática muitas das dicas lá reunidas. Por outras palavras, mais do que uma lista, desconfio tratar-se de uma checklist, cujo maior aliciante reside na satisfação que a identificação ou confirmação podem produzir junto daqueles que a consultem (sob a forma de "sou uma destas pessoas" ou do "já faço isto"). No meu caso, gostei tanto da sensação, que comecei a pensar nas pequenas e peculiares estratégias que adotei no meu dia-a-dia para melhorar a minha vida. Dentro do mesmo espírito do artigo, partilho aqui algumas das que me ocorreram até à "hora de fecho" do post:

1. Imprimo fotografias
Digitalizei grande parte das fotografias da nossa família, selecionei algumas que tirei entretanto com a minha própria câmara e tratei de as imprimir para emoldurar e pendurar lá por casa. No início de cada mês, mudo as fotografias nas paredes. Faz-me sentir um galerista em potência e convidar as recordações boas já é uma pequena maneira de melhorar a vida.

2. Reparo nos nomes das árvores
Esta é ligeiramente inspirada noutra da lista do Guardian. Diverte-me ter temas de conversa na manga que escapem ao óbvio. Falar de árvores parece-me ser um tema simultaneamente situacional (podemos comentar o que temos à nossa volta) e aspiracional (reconhecer e identificar os elementos de uma paisagem já é uma forma de conservação, de valorização e de auto-conhecimento). Em Lisboa, ainda por cima, basta prestar atenção, pois algumas árvores já têm nome (pequenas placas deixadas pelo município à volta dos troncos das árvores com a identificação da sua espécie).

3. Vejo um programa televisivo em família (no nosso horário)
A convivência diária, ampliada pela pandemia, também pode redundar na falta de temas para conversa. Lá em casa, descobrimos que ver todos os dias ao pequeno-almoço um bocadinho de um programa como o MasterChef  (cada episódio pode durar hora e meia, o que torna difícil de acompanhar pela noite de sábado adentro) pode ser empolgante e útil para aprender algumas receitas novas. É a primeira vez que estou a acompanhar a edição portuguesa do MasterChef e está a surpreender-me pela positiva. O grau crescente de exigência dos desafios do programa é mais intimidante, por exemplo, que qualquer prova de fogo no Hell's Kitchen (que, no interesse da transparência, admito que também estamos a acompanhar). O foco na culinária e na competição pela excelência eleva todos: concorrentes, jurados e espetadores. (E os meus favoritos para ganhar? A Tânia, o David e a Fernanda.)

4. Nunca deixo de experimentar uma pastelaria nova
A pastelaria portuguesa, enquanto arte e cultura, faz-me uma pessoa mais feliz. Se abriu uma pastelaria nova, contem comigo para ir lá experimentar alguma coisa. É mais uma forma de explorar diferentes zonas da cidade e de sair da rotina.

5. Ouço o Spotify à segunda-feira
O algoritmo do Spotify prepara todas as semanas uma lista gratuita de músicas recomendadas com base no histórico de cada utilizador. Entre as vinte e tais músicas, é raro favoritar mais do que uma ou duas, mas é quanto basta para ter ali um motivo para esperar por segunda-feira. Curiosidade parva: será que o algoritmo também descansa ao fim-de-semana?

29/01/22

Algumas das minhas leituras de 2021

Dom Casmurro, Machado de Assis

É engraçado ler as críticas no GoodReads a este livro depois de o ler. A maioria dos seus leitores parece apreciar o narrador e o estilo da escrita, marcado pelo humor e por uma franqueza que nem por isso deixa de diminuir a ambiguidade em volta do possível tema do livro. Li-o duas vezes em 2021 (primeiro, sozinho e, mais tarde, no âmbito de uma leitura coletiva), e mesmo assim é possível que tenha de o ler mais algumas vezes para chegar a uma leitura mais firme. Isso já torna claro que não se trata de um livro que pode ser visto apenas a uma luz. Tendo que justificar esta recomendação, todavia, faço-o, acima de tudo, pelas imagens que Machado de Assis é capaz de gerar de uma só penada. Alguns exemplos (a existirem erros, podem ser da minha transcrição):

  • "Não tinha janela; se tivesse, é possível que fosse pedir uma ideia à noite."
  • "E quem sabe se os vaga-lumes, luzindo cá em baixo, não seriam para mim como rimas das estrelas, e esta viva metáfora não me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e sentidos próprios?"
  • "Os olhos pareciam ter outra reflexão, e a boca outro império."
  • "Mas o que pudesse dissimular ao mundo, não podia fazê-lo a mim, que vivia mais perto de mim que ninguém."
  • "Certa ideia, que negrejava em mim, abriu as asas e entrou a batê-las de um lado para o outro, como fazem as ideias que querem sair."

Húmus, de Raul Brandão

Escutei alguém há uns anos nomear este livro como uma das maiores obras da literatura portuguesa, e essa é uma distinção que não se esquece. Eu diria que é um dos mais bem escritos e completos tratados literários sobre a Morte que eu já li.

Londoners, de Craig Taylor

Um retrato de Londres a partir de pequenos depoimentos de quem lá vive e ama ou odeia a cidade. A chave do interesse do livro está na grande diversidade de gente ouvida, quase toda ela anónima, de pilotos de avião a paramédicos. É um livro enorme, ideal para ser lido aos poucos. Está cheio de pequenas histórias que ilustram bem a variedade de experiências de vida que uma cidade do tamanho de Londres pode comportar. Adorava fazer algo dentro do género aplicado a Lisboa, que tem, com certeza, muitas mais histórias do que aquelas que o jornalismo tradicional consegue captar.

O céu sobre Lisboa, de Pedro Ornelas

Por falar em histórias de Lisboa, o blog do Pedro contou algumas. A história do seu blog, transformado em livro, é ela própria uma história desta cidade. Uma das minhas leituras de 2021 a que dediquei um texto aqui no blog.

Groundhog Day, de Ryan Gilbey

Um ensaio sobre um dos filmes mais adorados dos anos 90, que a passagem do tempo não parece envelhecer nem as inúmeras repetições na televisão tornar previsível. Quem, como eu, não se cansa de o rever, vai apreciar conhecer a história por trás da sua produção e ler a análise de Gilbey sobre o que o torna, para um filme de Hollywood, tão especial e um favorito de tanta gente.

Ética a Nicómaco, de Aristóteles

Pus-me a lê-lo um pouco por capricho, sem saber o que esperar, e fiquei maravilhado com a clareza do pensamento de Aristóteles. Neste tratado sobre a ética, o filósofo grego debruça-se sobre o que diferencia a Humanidade de outros seres vivos e a forma como a capacidade para pensar racionalmente deve orientar a conduta de cada um em relação a si próprio e aos outros. Nunca deixa de impressionar como alguém de um tempo tão diferente do nosso consegue soar tão pertinente.

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