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horizonte artificial

ideias e achados.

O privilégio (novamente)

O motivo do silêncio por aqui, nos últimos meses, já é conhecimento público. Pensar na quantidade de pessoas que iam ser impactadas pelo encerramento da plataforma deixou-me um pouco ansioso e pareceu-me difícil continuar a blogar, como se nada fosse, enquanto o resto do mundo não soubesse deste desenvolvimento. Agora que é público, e que a maioria das pessoas está a reagir com compreensão e empatia, começo a sentir o peso a sair dos meus ombros.

Aquilo que eu mais quero destacar aqui é o privilégio que sinto por ter tido a oportunidade de trabalhar neste projeto. Foram 19 anos a seguir e a destacar diariamente a criatividade de milhares (!) de pessoas. A minha visão da vida e do mundo mudou muito (melhorou muito) devido a tudo o que li e aprendi aqui, com pessoas de quem nunca vi a cara e, em muitos casos, nem conheço o nome verdadeiro.

Quando me falavam do Blogs, as pessoas mencionavam quase sempre a surpresa de ver um dos seus posts ser destacado, algumas vezes poucos dias depois de terem criado o seu blog, e eu sentia sempre um orgulho imenso de ter presenteado alguém que não conhecia com esse pequeno reconhecimento por um texto bem escrito. Tentei sempre fazê-lo sem favoritismos nem preconceitos, isto é, sem deixar de fora qualquer perspetiva equilibrada simplesmente por não concordar com ela (ou por ter alguns erros de português..). Nesse trabalho, procurei sempre dar destaque à empatia, ao humor e à criatividade.

Trabalhar diariamente em algo que suscitava deleite a outros, na base da leitura e da empatia, foi realmente um privilégio. É uma palavra que já apliquei aqui antes, para descrever a oportunidade de trabalhar com a criatividade dos outros e ao lado de pessoas com as quais aprendi muito. É uma oportunidade que devo, antes de mais, à Jonas. Não só por me ter recrutado (de uma forma bem sui generis) para a sua equipa mas também por ter uma visão clara e ousada (que deve muito à sua personalidade, experiência e domínio desta área) sobre o que um serviço destes podia ser  mais do que um serviço de alojamento, uma comunidade virtual. Para citar a expressão mais feliz que li hoje em relação ao Blogs, o fruto do nosso trabalho proporcionou a muita gente "conforto digital".

Em 19 anos, passaram muitas pessoas pela nossa equipa. Aprendi e cresci sempre mais um pouco com todas elas, mas há uma pessoa a quem devo mesmo uma última palavra de reconhecimento, antes de desligarmos as luzes no Blogs. Refiro-me ao Sérgio Bernardino, que foi quem tomou as rédeas da gestão técnica do serviço à medida que a equipa foi diminuindo e o blindou contra a obsolescência. Foi ele quem me ajudou a concretizar algumas das minhas melhores ideias aqui (sobretudo após a grande remodelação da plataforma em 2014) e sem a sua dedicação e espírito lógico o Blogs não teria chegado tão longe. Fica aqui o meu agradecimento público.

Por fim, o que se segue para mim? O Blogs ainda vai continuar no ar algum tempo, por isso não vai desaparecer tão cedo da minha rotina, que já estava dividida por outras tarefas e áreas da empresa. Todavia, sei que não voltará a existir outro projeto na internet portuguesa como este, surgido no momento certo, com as pessoas e motivações certas. Pela minha parte, vou continuar sempre à procura de qualquer oportunidade para aplicar, no meu quotidiano e vida profissional, tudo aquilo que aprendi aqui.

O caminho salgado

Se gostam de caminhadas na Natureza, aceitem este conselho: vão ver "The Salt Path", realizado por Marianne Elliott, ainda em algumas salas de cinema. Bastava dizer que é um daqueles filmes que nos abrem o coração ao mundo, mas apetece dizer muito mais e isso já é um sinal do quão bom é, quando nos encoraja a recomendá-lo aos quatro ventos.

Interessei-me pelo filme por completo acaso, ao ler a sinopse e dar pela coincidência de contar a história de um casal que é empurrado pelas circunstâncias da vida a iniciar uma caminhada ao longo da costa sudoeste da Inglaterra  apenas semanas depois de eu próprio ter percorrido parte do Trilho dos Pescadores, na nossa costa vicentina. Perdi o hábito de espreitar a programação dos cinemas, daí o acaso ter-me parecido especialmente feliz.

Não é um filme fácil, aviso já, mas caminhar longas distâncias também não. A minha caminhada mais recente foi marcada por altos e baixos, de percurso e emocionais, e não deixou de ser uma das melhores experiências que tive a viajar sozinho nos últimos anos. Ora sentia-me o ser mais pequeno do mundo, perante a extensão da caminhada e da solidão que tomava conta de mim, ora o maior, perante o panorama diante dos meus olhos. Não é muito diferente do que a vida faz connosco, mas tudo concentrado em alguns dias e em contacto com a Natureza (e o desconforto da ocasional camarata).

A minha forma de voltar a recomendar, a quem quer que seja, que faça (ou repita) alguma caminhada semelhante passa por este filme, realizado e filmado por alguém que, claramente, já fez o mesmo. Bom filme, e bom caminho!

5 coisas que melhoraram recentemente a minha vida

Nunca desperdiço uma oportunidade para fazer uma lista, especialmente se se tratarem de coisas práticas que podem (muito eventualmente) ajudar outros. Aqui ficam cinco pequenas coisas que melhoraram recentemente o meu quotidiano:

Instalar (e mudar) uma película de vidro no telemóvel

Mudei de telemóvel há três anos e, na altura, instalei algo relutantemente uma película de proteção no ecrã (sim, era um cético das películas). Ao fim destes anos, o ecrã acumulou tantas rachas que já estava a pensar em mudar novamente de telemóvel, até que alguém à minha volta mencionou que podia bastar mudar a película. Acreditam que nunca me passou pela cabeça que o problema estivesse apenas ao nível da película? Pois é, estava prestes a deitar para o lixo um telemóvel em ótimas condições de funcionamento por causa de uma película que depois de substituída (em 30 segundos, numa loja de capas, por poucos euros) deixou o meu telemóvel como.. novo. Fiquei tão orgulhoso de mim mesmo (pelo dinheiro que poupei, pela pegada ecológica que não aumentei e pela frustração que evitei ao perceber que teria desperdiçado um equipamento ótimo) que andei a mostrar o telemóvel "novo" a toda a gente (pouco interessa que a película só tenha permanecido imaculada por um dia..). Agora que penso nisso, o título desta sugestão devia ser outro: prestar atenção às observações triviais dos amigos.

Comprar fones sem fios circum-aurais (isto é, cobrem as orelhas) com redução ativa de ruído

Vivo numa rua barulhenta, rodeado de vizinhos barulhentos. Ter estes auscultadores é um SOS precioso no momento de desfrutar de uma série ou livro. Vale a pena cada euro gasto.

Comprar tampões para dormir

Ainda no tema do barulho, se estiverem à procura de algo para vos ajudar a dormir à noite, tenho algo para vos recomendar. Para evitar referir a marca e qualquer suspeita de patrocínio, deixo o link para este post da Inês, onde recomenda o mesmo produto. Optei por comprar o modelo com o maior nível de atenuamento possível de ruído, para garantir que o sono não é perturbado, e fiquei convencido. Trata-se mesmo de atenuamento, pelo que não esperem cancelamento de ruído, mas ajuda bastante naquela fase inicial do sono, em que qualquer som de fundo nos mantém em estado de alerta. Além disso, tendem a ficar seguros nos ouvidos toda a noite, algo que raramente acontecia com os tampões descartáveis (e vale a pena enfatizar a diferença ambiental e económica que faz, poder reutilizar e limpá-los sem problemas). Fiquei tão convencido que encomendei um par extra para levar comigo em viagem. Mais uma vez, não vão anular o barulho do telemóvel da pessoa no banco da frente, mas abafar um bocadinho a palermice de terceiros já merecia consideração pelo comité do Nobel da Paz.

Ativar temporizadores de aplicações no telemóvel

Dei por mim a gastar cada vez mais tempo a consumir conteúdos nas redes sociais e decidi impor-me algumas regras no telemóvel. Nem sempre cumpro (o temporizador permite ir adicionando períodos de 10 minutos à medida que o limite de utilização se aproxima), mas tem ajudado a disciplinar o meu uso das redes e a direcionar o meu tempo livre para outras coisas (para começar, estou a dar mais vazão à minha lista de leituras desejadas).

Identificar árvores em Lisboa com a ajuda deste site

Já tenho algumas luzes sobre o arvoredo usado em Lisboa, mas é sempre difícil ter presente as características de dezenas de espécies. Descobrir que a autarquia tem uma base de dados em linha de consulta livre melhorou, inesperadamente, a minha vida. Quando tenho dúvidas, tiro algumas fotografias e, mais tarde, vou consultar o site. Não inclui todas as árvores da cidade, mas diria que a maioria está lá catalogada. Só podemos ter realmente árvores preferidas quando sabemos o que são.

Follow friday #5: Ler por aí

Uma das coisas mais estranhas-bonitas disto de trabalhar com blogs é que dou por mim a ler pessoas há anos sobre as quais nada sei, que não seria capaz de reconhecer na rua e que, mesmo assim, estou grato por existirem e me darem uma leitura do mundo no qual me posso reconhecer. Leitura, neste caso, é a palavra-chave, porque o blog que recomendo hoje é o Ler por aí, que caiu no meu "radar" de leituras em 2015. Ou seja, trata-se de um blog que sigo há uma década (!) e desconheço quase tudo sobre a sua autora.

Sei que a Patrícia vive (ou passa tempo) numa aldeia (por causa da mini-biblioteca de rua que lá abriu), que gosta de grandes sagas literárias e que, como eu, não se permite desistir de um livro (mesmo aqueles que, à terceira página, já está visto que não prometem muito). O "Ler por aí" é um blog de leituras, claro está, mas o que mais aprecio nele é que a Patrícia também vê a leitura como ato de cidadania e empatia. Essa visão da leitura abre o blog a muitos mais temas e histórias do que apenas o último livro lido. Dei-me ao trabalho de ir pesquisar alguns dos seus posts nos quais me revi e lembro de ter destacado: Ler é liberdade, Compaixão, O Pedro gosta do Afonso, Da abstenção, Um grão de areia de poder.

Em maio do ano passado, a Patrícia dedicou um post ao tema do anonimato nos blogs e escreveu isto:

Não gosto de falar sobre mim enquanto pessoa para além dos livros e tento não escrever sobre o que não sei, e eu não sei imensa coisa logo escrevo sobre pouco.

Menos é mais, e o blog da Patrícia é um ótimo exemplo disso. Se ainda não conhecem, não deixem de espreitar.

As minhas leituras preferidas de 2024

Se fazer balanços anuais em julho não for ilegal, pelo menos parece ser, mas aqui ficam algumas das leituras que mais me marcaram em 2024.

A Montanha Viva, Nan Shepherd (Edições 70, 2022)

Imaginem gostar tanto de um sítio que conseguiam escrever um livro apenas feito das vossas impressões e memórias desse lugar. Foi isto que Nan Shepherd fez com a cordilheira montanhosa das Cairngorms, situada no norte da Escócia e que forma o maior parque natural do Reino Unido. Shepherd escreve com base naquilo que foi aprendendo e descobrindo ao fim de muitos anos de caminhadas por aquela paisagem já familiar. Não é um livro "espontâneo", daqueles que nos pode ocorrer fazer de um momento para o outro. Teve que ser "caminhado" muitas vezes até chegar ao papel. O que fez eco em mim foi essa repetição e esse regresso contínuo a um lugar.

A Prática da Natureza Selvagem, de Gary Snyder (Antígona, 2018)

Quando pensamos que todos os caminhos já foram percorridos e que já foi tudo dito sobre o tema da Natureza e a forma como a Humanidade pode encontrar o seu lugar nela, descobrimos mais um livro que nos abre novas perspetivas. Nesse sentido, é um livro revelador, que cabe na bibliografia de qualquer amante da Natureza.

A Livraria na Colina, Alba Donati

Já aqui falei deste diário de Alba Donati. Quem alguma vez sonhou ter uma livraria e/ou viver numa montanha italiana vai gostar de ler este livro. Destaca-se ainda por ser um daqueles livros que se desdobram em outras leituras: alguns dos livros que tenciono ler este ano aparecem recomendados por Donati no seu diário.

House of Cards, Michael Dobbs

Tinha visto as duas adaptações para televisão (a britânica, pela BBC, e a norte-americana, pela Netflix), por isso pensava que já sabia ao que ia, mas acabou por ser uma das leituras mais rápidas e absorventes do meu ano. A razão para as séries televisivas resultarem tão bem assenta, claramente, no livro e na mestria de Dobbs para descrever os jogos de poder da política. 

Ama o precipício, Viagem à Mata Nacional do Buçaco, Susana Neves

Um ensaio histórico sobre as origens e evolução da Mata Nacional do Buçaco que se revelou uma surpresa cativante. O pequeno livro veio-me parar às mãos por acaso no trabalho e decidi lê-lo durante uma curta viagem (a trabalho) à Terceira (um lugar que não esperava ficar a conhecer em 2024 e ao qual gostaria de voltar um dia). Tendo em conta que partilham o mesmo leitor num curto espaço de tempo, é inevitável fazer um paralelo entre o livro de Susana Neves e aquele acima de Nan Shepherd. O registo das duas obras é muito diferente, mas reduzidos ao seu essencial, tratam da mesma coisa: da forma como os lugares nos podem fascinar.

Alves & C.ª, Eça de Queirós

Gostei muito desta pequena história de Eça, sobretudo pelos vislumbres de Lisboa que vão aparecendo nas entrelinhas. O sentido de humor retorcido é outro ponto a favor.