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28/01/18

A ponte no horizonte

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 A ponte, vista a partir de Almada. Janeiro, 2018.

 

Terminei de ler há dias "A Ponte Inevitável", de Luís F. Rodrigues, sobre a história da ponte 25 de Abril. É uma leitura, lá está, inevitável para qualquer pessoa que ainda guarde um certo espanto com a escala deste gigante de aço sobre o Tejo.

O livro traça o início da história da ponte ao século XIX, à primeira proposta de uma travessia entre Lisboa e Margem Sul. Vale a pena ficar a conhecer as diferentes ideias que gerações de políticos, engenheiros e projetistas tiveram em relação à localização e configuração que essa travessia podia vir a ter. Estes estudos mostram como, apesar do seu carácter inevitável, esta também foi uma ponte sucessivamente adiada. A sua construção, na década de 60, juntou essa vontade antiga de unir as duas margens à moderna engenharia do século XX, a mais bem preparada até aí para ambicionar realizar mega-construções.

A história da ponte não acaba com a sua inauguração em 1966. O fim do Estado Novo, o crescimento urbano e a sua manutenção ao longo das décadas foram colocando novas necessidades à estrutura, que o autor aborda recorrendo a várias perspetivas, da história ao urbanismo. Não consigo resistir, todavia, a isolar aquela que mais me agradou encontrar neste livro e que mais impressiona no dia-a-dia da ponte: a estética. Um pequeno exemplo:

“Relativamente à luz, existem aspectos que passam mais despercebidos, nomeadamente, que a experiência estética da ponte é diferente conforme a localização do observador: em Lisboa, olha-se para uma estrutura a sul, ou seja, mais intensamente banhada pelo reflexo da luz do que em Almada. A sensação de desfrutar do pôr-do-sol através da ponte é uma experiência exclusiva de quem a vislumbra a partir do nascente.”

 

A partir do Cais das Colunas

A ponte, vista a partir do Cais das Colunas. Dezembro, 2017.

 

Falar sobre a ponte 25 de Abril sem mencionar o seu estatuto icónico no horizonte de Lisboa resultaria inevitavelmente numa abordagem incompleta à sua estrutura e importância. E uma maneira de tratar esse tema passa por abrir o Instagram. É citado um estudo académico que procurou identificar os monumentos e locais da cidade de Lisboa mais vezes referidos na plataforma:

“Se reduzirmos a lista das suas preferências a elementos monumentais singulares, a Ponte 25 de Abril está inevitavelmente incluída no Top 10 das referências mais importantes da área metropolitana de Lisboa (...). As características deste tipo de informação permitem ainda saber, com exactidão, quais os meses do ano e as horas do dia em que a Ponte 25 de Abril foi mais referenciada/fotografada. Assim, a visualização da infra-estrutura portuguesa atinge picos em Março e Agosto - meses típicos de presença turística em Portugal (...). Relativamente às horas do dia em que a travessia é mais escrutinada pelos turistas das redes sociais, o período da tarde destaca-se claramente dos demais. Dado que o pôr-do-sol em Agosto acontece entre as 20:00-20:30 horas, não será de surpreender que os turistas optem por captar imagens prévias a esse momento - pelo que o período das 19:00 é o mais concorrido a nível fotográfico.”

 

Terreiro do Paço

Terreiro do Paço. Janeiro, 2017.

 

Fascina-me esta ideia de poder tentar medir o número de vezes que um objeto, mesmo um tão grande quanto esta ponte, é visto e registado. Subjacente a isso está a premissa de que fotografamos o que valorizamos. E o que tanto nos impressiona na ponte 25 de Abril? É a sua escala? A harmonia estética da sua geometria? É a geografia em que se encontra? É a vigília sobre as águas do Tejo das duas torres gémeas? Ou é a tensão viva das suas linhas? E que formas ou figuras são convocadas pelo seu desenho? Há muitas maneiras de investigar a ponte e de coleccionar respostas a estas perguntas. O livro "A ponte inevitável" é uma delas (e muito boa na forma como o faz). A arte é outra (estou muito curioso para ir ver ouvir a Shadow Soundings, por exemplo). A minha maneira favorita, mesmo assim, e aquela que está ao alcance da maioria de nós, ainda é a fotografia.

 

Cais das Colunas

Setembro, 2017.

06/01/18

Uma fotografia de 2017

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Ia dar o título "A minha fotografia preferida de 2017" a este post, mas reconsiderei, porque há duas ou três fotografias que competem na minha cabeça por essa distinção. Prefiro destacar uma delas e deixar o tempo desempatar a questão. A fotografia acima foi tirada na tarde de 25 de abril, junto ao Cais das Colunas, e é uma das minhas preferidas porque é uma das fotografias mais "intencionais" que tirei este ano. Estava de passagem pela zona e tive apenas segundos, ao espreitar por cima do ombro, para ver e reconhecer algures no fundo da minha memória fotográfica esta cena. Ou seja, soube imediatamente que estava a fazer uma cópia de outra fotografia tirada algures no tempo, e que tropeçara, por assim dizer, num clichê fotográfico — um postal lisboeta de Cartier-Bresson. É esse pensamento rápido, que permitiu passar do reconhecimento ao disparo em poucos segundos, que me faz gostar tanto desta fotografia, mesmo não sendo a mais original que fiz ou aquela com mais ressonância pessoal. Estou mais habituado a escolher uma cena qualquer, fazer uma série de disparos e a confiar na sorte. Um disparo assim tão intencional, no meu caso, é extremamente raro e, por isso, um dos que mais guardo na memória de 2017. Que 2018 seja, para todos, um ano propício a encontros certeiros destes, entre a nossa capacidade e vontade.

21/12/17

1 ano

Custa a acreditar que já passaram doze meses, cinquenta e tal semanas e 365 dias. Hoje, ao olhar para trás, parece-me só terem passado duas ou três semanas. O planeta realmente continuou a girar e a completar a sua volta ao sol, mas, em alguns aspectos, ainda me sinto parado no exato ponto em que me encontrava há um ano.

Aquilo de que guardo dos primeiros dias deste ano é a onda de amor que nos envolveu a todos. Foi esse calor humano que me sustentou e que me esforcei por retribuir nestes últimos doze meses, no meu dia-a-dia, nos meus projetos e vida pessoal. Até na rua, naqueles momentos em que sentia impaciência com algo ou alguém. Não estive sempre à altura, e às vezes bem abaixo do que era esperado de mim, mas resta continuar a tentar.

O blog acabou por ser o elo mais fraco este ano, com um mínimo "histórico" de 13 posts. Levou algum tempo a voltar a sentir aquela vontade de atualizar esta página, e é uma pena, porque houve muitas coisas boas de 2017 que ficaram por contar e destacar aqui. Fica a minha gratidão a quem comentou, subscreveu e continua desse lado a ler e seguir o meu olhar. Espero que estejam todos bem e que nos voltemos a cruzar em 2018.

16/12/17

Dez livros de 2017

Escrever sobre os livros que leio é um exercício que não devia fazer apenas uma vez por ano. Seja como for, aqui ficam alguns dos livros que me fizeram boa companhia (no metro, na pastelaria e junto ao rio) em 2017.

 

Escrever: memórias de um ofício, Stephen King

King é o escritor que mais li até hoje. O homem tem uma imaginação fértil para criar situações únicas de impasse que depois resolve com uma mistura muito própria de talento, inteligência e humor. Este ano voltei a ler mais dois ou três livros dele, incluindo este “Memórias de um Ofício”, onde conta o seu percurso como escritor e partilha alguns conselhos para escrever bem. Como o próprio admite, nada do que ele revela irá surpreender quem já lê por hábito, mas o importante é a maneira como o faz, com carisma e sem falsas promessas ou réstia de presunção (para quem já vendeu milhões de livros). Uma analogia particularmente bonita que encontra para descrever a magia da escrita é a telepatia, como forma de transmitir pensamentos no tempo e no espaço a outra pessoa. Quando pensava que já não podia ficar mais interessado nesta obra, cheguei ao último capítulo, onde King relata o célebre atropelamento de que foi vítima em 1999, precisamente na época em que escrevia este livro. A escrita, e a vontade de terminar estas páginas, ajudaram-no a enfrentar a longa e dolorosa recuperação que se seguiu.

 

O Casamento, Nelson Rodrigues

Comecei por ler as suas crónicas e fiquei impressionado com o afiado sentido de ironia deste escritor brasileiro. Foi por isso que decidi dar-lhe mais uma oportunidade e procurar um dos seus romances. Bastou ler algumas páginas deste Casamento para ser novamente apanhado desprevenido pelo seu estilo mordaz. Um dos poucos livros deste ano que me fizeram, aqui e ali, rir em voz alta.

 

Uma história da leitura, Alberto Manguel

Um apanhado geral da história da leitura, bem escrito e organizado. É aquele tipo de livro que elogia secretamente qualquer leitor obsessivo, por confirmar a vantagem do seu ponto de vista do mundo.

 

O Capitalismo Estético na Era da Globalização, Gilles Lipovetsky e Jean Serroy

Confesso: escolhi este livro pela capa, que me intrigou pela sobreposição do título com a fotografia de dois requintados bolos que podiam ter saído da vitrina de qualquer pâtisserie. O que é que a pastelaria francesa pode ter a dizer sobre o capitalismo e a globalização? Lipovetsky e Serroy procuram mostrar como a estética, ao serviço do capitalismo, impregnou todas as esferas da atividade humana, com todo o tipo de consequências e possibilidades associadas. Sinto que é uma leitura útil para decifrar e questionar o tempo em que vivemos.

 

O declínio da mentira, Oscar Wilde

Um manifesto artístico que exalta o direito e o dever do artista a inventar, a sair de si e a não ficar preso ao que a sua época valoriza e legitima. É um texto magnífico, muito fácil e rápido de ler, que autoriza a pensar e a criar mais alto.

 

A Flor Amarela, Anabela Mota Ribeiro

A Anabela teve a oportunidade, no âmbito da sua tese de mestrado, de reler e trabalhar um dos seus livros preferidos, o romance “Memórias póstumas de Brás Cubas”. O resultado é um pequeno livro igualmente fascinante, que bebe de várias fontes para pensar e abrir a obra de Machado de Assis a mais leituras. Um trabalho intelectual marcado pela distinta sensibilidade e inteligência da Anabela. É um livro sobre outro livro, o que significa que é uma recomendação que vale por duas.

 

Lolita, Vladimir Nabokov

A grande revelação do ano para mim. Sempre ouvi falar da “Lolita” de Nabokov, mas nada me preparou para a surpresa que tive com este livro. Entrar na mente de um pedófilo e manter o leitor interessado naquele limiar entre a lucidez e a patologia é um feito considerável. Nunca li nada assim e desconfio que não voltarei a ler.

 

Street Photography Now, Sophie Howarth e Stephen Mclaren

O melhor livro que consultei este ano sobre fotografia, com excelentes conselhos, depoimentos e reflexões de fotógrafos de todo o mundo sobre essa vontade de ir para a rua com uma máquina e tirar fotografias a estranhos nos seus afazeres diários. O principal mérito do livro é expandir a nossa ideia do que pode ser street photography, num mundo que apesar de estar cada vez mais ligado e parecido, continua a oferecer vislumbres inesperados de descoberta, beleza e tensão a quem está disposto a observá-lo.

 

O Tumulto das Ondas, Yukio Mishima

Se pudesse colava aqui as primeiras 5 páginas deste romance. Foi uma das minhas primeiras leituras do ano e continuo com a imagem (e é mesmo imagem) bem presente da ilha onde a história acontece. Nitidez é a melhor palavra que me ocorre para descrever o estilo de Mishima.

 

Tudo é fatal, Stephen King

Depois da desilusão da trilogia "Bill Hodges" não contava voltar tão cedo aos contos de Stephen King, mas cruzei-me por acaso com este "Tudo é fatal" e não resisti à citação na contracapa do conto "Sala de autópsias número quatro". Como é que o autor ia resolver uma situação destas, em que o protagonista acorda paralisado e dá por si prestes a ser autopsiado vivo? A premissa é brilhante e o seu desenvolvimento é de deixar qualquer leitor preso à página. O encontro com "O homem do fato preto" é assombroso e astucioso na forma como explora o medo da solidão na natureza. "Tudo o que amamos nos será tirado" é um título brilhante e o mote a uma das histórias mais caricatas do livro. "Tudo é fatal" dá o nome ao livro e fornece o enredo perfeito para uma mini-série televisiva. Por fim, "1408" é fantástico, sobretudo pelo jogo de antecipação do que o protagonista dessa história irá encontrar ao abrir a porta do quarto de hotel com o número 1408.

04/12/17

O palco mais impressionante de Lisboa

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A fotografia é de janeiro, da tarde em que encontrei o Acácio e o Warren a levantarem voos com as suas guitarras no Miradouro da Nossa Senhora do Monte. Os dois formam os Port du Soul e descrevem a sua música como "uma fusão de Fado e Folk nascida nas ruas de Lisboa". O resultado é mesmo muito bom e pode ser escutado aqui sem compromisso. O meu tema preferido é o terceiro ("Lap Lighter vs Braveheart"), o único que ouvi ao vivo naquela tarde e no qual as duas guitarras se lançam numa perseguição desenfreada uma da outra. Eles têm pelo menos um concerto marcado este mês, mas continuam a tocar na rua e a dar música à cidade.

29/11/17

Levantar voo

Ando a ler "Escrever: memórias de um ofício", um livro de Stephen King com reflexões e conselhos sobre a arte da escrita. Estou a gostar da forma como organizou as suas experiências e ideias à volta do tema, e não resisto a partilhar este trecho do livro, no qual King usa um episódio da sua vida familiar para explicar a diferença entre prática e talento:

"Quando o meu filho Owen tinha sete anos, mais coisa menos coisa, apaixonou-se pela E Street Band de Bruce Springsteen, sobretudo por Clarence Clemons, o robusto saxofonista da banda. Owen decidiu que queria aprender a tocar como Clarence. A minha mulher e eu ficámos divertidos e encantados com a sua ambição. (...) Oferecemos-lhe um saxofone pelo Natal e aulas com um dos músicos locais, Gordon Bowie. Depois cruzámos os dedos e fizemos votos que tudo corresse pelo melhor.

Sete meses mais tarde sugeri à minha mulher que era tempo de acabar com as lições de saxofone se Owen estivesse de acordo. Owen esteve e o seu alívio foi palpável - não tinha querido ser ele a dizê-lo, sobretudo depois de ter pedido o saxofone. (...)

Eu sabia, não porque Owen tivesse deixado de praticar, mas porque o estava a fazer apenas nos períodos estabelecidos por Bowie: meia hora depois da escola quatro dias por semana, mais uma hora aos fins-de-semana. Owen dominava as escalas e as notas (...) mas nunca o ouvíamos levantar voos, surpreender-se a si próprio com qualquer coisa nova, estar no sétimo céu. (...) O talento esvazia de sentido a ideia de ensaio; quando encontramos algo para o qual temos talento, fazemo-lo (seja o que for) até os dedos sangrarem ou os olhos estarem prestar a saltar das órbitas."

Fez-me pensar nas coisas em que estou a "levantar voos" e naquelas em que não estou.

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