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28/03/20

Um poema acabado de fazer

Diário diferido de uma pandemia

Sábado, 21 de março

Não acredito que o risco seja elevado, nem vou abdicar por inteiro da corrida, mas não consegui convocar a vontade para ir correr esta manhã, como é hábito. Há uma semana, um dos meus receios era ver-me privado da liberdade para ir à rua descontrair ou correr. O que está a acontecer é mais gradual e insidioso: estou a perder a vontade e o gosto de sair à rua sem motivo.

O achado do dia, neste dia mundial da poesia, é um poema acabado de fazer: LISBOA AINDA (novamente, duas palavras em maiúsculas), de Manuel Alegre. Fez-me pensar como é raro e bonito, ler um poema com a data de ontem. Lisboa resiste, sem dúvida.

27/03/20

Primavera

Diário diferido de uma pandemia

Sexta-feira, 20 de março

Levantei-me da cama ao som da chuva. Quis olhar pela janela para acreditar e respirar de alívio. Sei que muita gente não irá sentir o mesmo, mas só posso falar por mim: não suportava mais um dia passado em casa com sol lá fora.

É o início da Primavera e, sinto cá dentro, do fim da angústia e incerteza que esta semana trouxe. Os primeiros sinais disso estavam no comércio local: não precisámos de fazer fila na frutaria e no talho ao fundo da rua. E já havia frango do campo.

Uma das maiores causas da minha ansiedade nos últimos dias era, precisamente, a situação das compras, e a difícil gestão da necessidade versus risco. Não quero mais passar por uma situação como a de terça-feira, no mercado da freguesia.

Na volta a casa das compras, deparo-me com uma mensagem inesperada de encorajamento a fazer a curva. No letreiro de um autocarro da TST, a alternar com o número da carreira, duas enormes palavras a laranja: FORÇA PORTUGAL. Detive-me, surpreendido pelo impacto de duas palavras em maiúsculas num letreiro eletrónico. Como alguém que acredita no poder dos pequenos gestos, e naqueles que encontram o seu destinatário numa hora e local incertos, era impossível ficar indiferente. A serendipidade é isto: duas palavras lançadas ao ar que aterram aos nossos pés.

Acabei por partilhar o relato do momento no twitter e, entre alguns retweets e favoritos (para a minha média, que costuma ser zero ou nenhuns, chegou a intimidar), alguém fez a piada inevitável: "O Euro foi adiado pá!". Ri-me, claro.

No final do dia, o balde de água fria: as atualizações dos números de infetados e mortos em Itália, Espanha e França. A sensação de otimismo de que a normalidade pode estar ao virar da esquina esvaiu-se ali mesmo. O receio pelos nossos volta a agitar-se e leva a questionar novamente a prudência de cada gesto e saída à rua.

26/03/20

O medo também arde sem se ver

Diário diferido de uma pandemia

Quinta-feira, 19 de março

Tenho prestado atenção às palavras e frases que têm surgido para descrever os tempos extraordinários que estamos a viver. Hoje, no Público, uma frase memorável sobre os últimos dias: "a semana em que a Terra parou". Ontem, outra expressão, que já não sei atribuir ao autor, emprestada da economia, para descrever as sequelas sociais e psicológicas que esta crise pode causar: "recessão social".

Ainda é difícil acreditar na rapidez com que vizinhos e gente que se conhece de vista há anos no mesmo bairro se passou subitamente a olhar com suspeita e distância. O medo também arde sem se ver, e este parece ter consumido, do dia para a noite, cidades inteiras.

Mesmo hoje, apenas dias depois de tudo isto começar, chego a duvidar que alguém consiga dizer como é que começámos todos, de um momento para o outro, a guardar 1-2 metros de distância uns dos outros na rua. De resto, a ideia de "distanciamento social" é impressionante para um anacoreta como eu. Não sou de grandes afetos físicos, e passo bem sem ter alguém "colado" a mim numa fila, mas acho esta nova distância inquietante. Foi preciso uma pandemia global para perceber como era, afinal de contas, um adepto da proximidade social.

Esta noite, nas notícias, vi imagens das enormes filas de espera que se formaram à porta dos supermercados britânicos, agora que o Reino Unido também começou a fechar. O denominador comum que permite diferenciar as imagens desta crise de outras anteriores? Aquele espaço inesperadamente exato (como se tivesse sido marcado com fita métrica) entre cada pessoa na fila.

25/03/20

Estado de emergência

Diário diferido de uma pandemia

Quarta-feira, 18 de março

Foram a primeira coisa que vi esta manhã ao subir os estores da janela. As folhas A4 afixadas nas portas de todos os prédios da rua, a informarem os moradores de idade mais avançada para os serviços de assistência domiciliária da junta de freguesia. É bom ver que a junta está a mobilizar-se para ajudar os mais vulneráveis, mas é mais um sinal, a juntar-se a tantos outros, de que a normalidade foi suspensa. Todos os dias parece haver uma nova folha afixada ou um comunicado, a informar de mais uma alteração ao quotidiano. Numa sociedade tecnológica como a nossa, até isso - voltar a ter de prestar atenção a folhas ou cartazes, por vezes escritos à mão, afixados nas principais esquinas do bairro -, parece um chocante retrocesso.

Mais tarde no dia, o meu primeiro e maior erro desde que estou recolhido em casa. Assustado pelos prazos estimados de entregas das encomendas feitas pela internet, e frustrado por não me ter precavido melhor para uma situação de grande afluência aos supermercados, fui procurar, irracionalmente, conforto material a um grande hipermercado da cidade, onde centenas de pessoas já esperavam a sua vez para entrarem.

Apesar de estarmos há já várias semanas a aguardar a chegada da COVID-19 a Portugal, devido à evolução geográfica da pandemia, ninguém parece ter antecipado a forma como a crise se precipitou no final da semana passada. Numa questão de dias, o país parou e foi mandado para casa. Mesmo assim, se tivesse que destacar uma medida que nos parece ter apanhado a todos especialmente desprevenidos, teria de isolar o limite definido pelas autoridades à lotação dos espaços comerciais (cuja possibilidade nunca me tinha ocorrido antes). A sua adoção foi imediata, e o seu efeito também, com a formação, em alguns hipermercados, de grandes filas para entrar.

Foi isso que pude constatar hoje ao vivo. Uma hora depois de chegar, o alívio de estar prestes a começar as minhas compras dá imediatamente lugar àquela sensação que toda a gente que já foi vítima de um programa de apanhados deve conhecer: mal entro, e me preparo para descontrair, tropeço imediatamente na fila para pagamento, que já atravessava praticamente todo o espaço interior do hipermercado. Do alívio, passei ao choque divertido e nervoso de quem se vê numa alhada.

Passei vinte minutos às voltas pelos corredores num autêntico nevoeiro mental sobre o que devia levar, sempre a sentir a urgência de integrar a fila cada vez maior para pagamento. À hora que esperei para entrar, somei mais uma hora na fila para pagar. O que trouxe comigo? Nada que justificasse, nem de longe nem de perto, o risco inerente, no contexto da epidemia em curso, a partilhar um espaço fechado com centenas de pessoas.

Não deu, mesmo assim, para deixar de reparar nos funcionários que ali estavam, a  atenderem todos aqueles clientes, apesar da ameaça invisível que parece pairar sobre as nossas cabeças. Senti vergonha por ali estar, sem grande necessidade, e respeito por quem, pela natureza do seu trabalho, não teve essa escolha. À saída, o funcionário que me atendeu na caixa respondeu ao meu desejo de um bom resto de dia com um genuíno, e desconcertante, "bom resto de semana". A mesma semana que ainda não vai a meio e já nos parece ser a mais louca das nossas vidas.

No final do dia, a declaração do estado de emergência em Portugal pelo Presidente da República. A ideia não me agradava, por sentir que nos ia assustar ainda mais e dificultar o novo, e frágil, quotidiano. A garantia de que não irá, para já, implicar um recolher obrigatório, sem compreensão, por exemplo, pelas deslocações de apoio a familiares, chegou para me tranquilizar. Pareceu-me um discurso direto e claro, que pode ficar para a história deste Presidente, não tanto pela inédita declaração de emergência, mas pela gravidade que pretendeu transmitir. Marcelo Rebelo de Sousa nunca se mostrou ao país tão sério quanto esta noite. Pela primeira vez, não se tratou de consolar o país no seguimento de uma tragédia nacional, mas de nos preparar para a possibilidade de uma vir a ocorrer.

24/03/20

Realidades trocadas

Diário diferido de uma pandemia

Como muita gente, senti a necessidade de colocar por escrito as pequenas e grandes maneiras como o nosso quotidiano foi abalado na última semana pela pandemia da Covid-19. Optei por publicar estes posts em diferido, cada um com uma semana de atraso, para minimizar o risco da minha própria (e assumida) ansiedade poder contribuir para a de outrem.

Terça-feira, 17 de março

Depois de cinco dias a trabalhar a partir de casa, com saídas pontuais para apoiar as deslocações de outro membro da família, chega a hora de enfrentar a nova realidade.

Bem cedo de manhã, saímos de casa pela primeira vez para ir às compras no mercado da nossa freguesia. À entrada, sinais pintados na calçada indicam a distância de segurança a manter de quem espera à nossa frente na fila, à semelhança das marcas de segurança que vemos na auto-estrada. É uma boa ideia, só que a novidade da situação apanha as vinte ou trinta pessoas já presentes desprevenidas. Ninguém se tinha apercebido dos sinais antes da fila começar a serpentear aleatoriamente pelo passeio fora.

Minutos antes do mercado abrir, funcionários da junta chamam a atenção para a necessidade de seguir o percurso marcado na calçada e a fila deixa de existir, assim como a distância de segurança. Na confusão, perdemos o nosso lugar e somos assediados por um indivíduo, chegado depois de nós, que tenta furar alguns lugares na fila e sugere, em tom provocatório, que estamos a tentar fazer-lhe o mesmo. Tentamos ignorá-lo e deixamo-nos estar no nosso não-lugar, nem dentro nem fora da fila, à espera que todos voltem a encontrar o seu. Sinto a tensão do confronto e uma sensação nova, assustadora, de insegurança.

Minutos depois, chegados à entrada da praça, um funcionário de máscara, vestido num fato de proteção dos pés à cabeça, pede-nos para aguardar, enquanto outro esguicha um gel desinfetante nas nossas mãos. Nada preparava, à saída de casa, para uma tentativa de intimidação ou para o aparato sanitário à entrada do mercado, apenas dias depois desta crise se precipitar. A sensação, entre a descrença e o pavor, é a de estar perante um caso de realidades trocadas.

Lá dentro, tudo mais calmo, apenas uma linha desenhada no chão, a limitar a distância que se deve guardar das bancadas com alimentos expostos. Estamos na minoria, dos que não usa máscara (e não tem, em casa, stock suficiente para usar uma nova diariamente), o que parece reforçar a nossa vulnerabilidade.

Menos de 15 minutos depois, abandonamos o mercado com as compras mais essenciais feitas, entramos no carro (habitualmente desnecessário para um percurso tão pequeno) e, sem trocarmos um olhar ou palavra, permitimo-nos respirar fundo. Foi uma experiência que não queremos repetir tão cedo.

15/03/20

Dias extraordinários

Em novembro, a pedido da MJP, escrevia sobre a liberdade e como se conjuga na rua. Nunca pensei, ao escrever essas palavras, que podia dar por mim, e por nós todos, praticamente privados dessa liberdade essencial, apenas alguns meses depois, devido ao esforço coletivo de contenção de uma nova ameaça à saúde pública. Felizmente, é só temporário e a criatividade, aliada à tecnologia, permite-nos continuar ligados e ativos.

À cascata de cancelamentos e encerramentos, durante a semana, seguiu-se o apelo generalizado para ficar em casa, onde estou a trabalhar desde quinta-feira, com as saídas indispensáveis à rua. Os meus únicos contactos sociais passam pela troca de mensagens bem-humoradas com amigos e familiares por todo o país, também em isolamento.

Este sábado, as esplanadas aqui do bairro ainda tinham clientes, a aproveitarem a tarde de sol, mas encontrei um restaurante encerrado, ao qual fiz nota mental de voltar quando tudo isto passar. A sentida justificação que se lê afixada à porta resume bem a responsabilidade que o momento exige: "Lamentamos a decisão mas é para bem de todos". O sublinhado não é meu.

A chuva de aplausos que se fez ouvir na minha rua às dez da noite, marcada pela internet em sinal coletivo de apreço pelo trabalho dos profissionais de saúde, foi a única coisa a arrepiar o sossego deste sábado estranho, com ar de feriado em véspera de temporal.

Perguntei à minha mãe, do alto dos seus 76 anos, se tem memória de alguma situação parecida, e a resposta foi perentória: "nada assim". Da minha parte, só consigo encontrar pequenos episódios com vagos ecos emocionais: a breve experiência coletiva do apagão de 2000 em todo o país, o choque generalizado com o 11 de setembro, a tímida apreensão com o esvaziamento do espaço aéreo durante a crise vulcânica na Islândia, etc. De resto, é um momento coletivo sem termo óbvio de comparação. É paz com guerra à doença.

Nas notícias, há relatos de enfermeiros e médicos a voluntariarem-se nos hospitais para assegurar turnos. Nas redes, correm fotografias das notas afixadas nas portas de alguns prédios com os contactos dos vizinhos que se disponibilizam para fazer as compras essenciais por quem pode estar mais vulnerável ao novo coronavírus. Nos blogs, andamos a destacar receitas, livros e todo o tipo de estratégias para afastar o tédio e exercitar a mente. Escrever este post já é uma forma de escape. Estamos isolados, mas parece que nunca estivemos tão unidos e empenhados no bem comum.

A mobilização para ficar em casa e este empenhamento comunitário sem precedentes, aliados ao trabalho dos profissionais de saúde, vai certamente evitar sofrimento e permitir-nos regressar à normalidade mais cedo do que tarde, porventura mais fortes do que antes. Quando isso finalmente acontecer, contem comigo para repetirmos julho de 2016, e corrermos novamente para a rua.

01/03/20

Março

Um motivo de entusiasmo

Uma palavra: Primavera.

Um livro

Terminei o livro do Nuno e a sua viagem a pé pelos Açores despertou a minha curiosidade pelas nove ilhas do arquipélago e a vontade de regressar às caminhadas. Este mês, vou tentar terminar o Viver com alma de José Ricardo Vidal.

Teatro

Fiquei intrigado com este "espetáculo-percurso" no Dona Maria II, intitulado Terra Nullius, que cruza "duas ações simples: caminhar e escrever".

Um post na gaveta

Sinto que estou a perder rapidamente toda a credibilidade com esta rubrica, a prometer posts que depois nunca acabam escritos, mas era bom reunir por escrito alguns pensamentos sobre os meus 13 anos no SAPO Blogs.

Um filme

Tenho este Força Maior para ver.

Um sítio

A sugestão surgiu nos comentários ao post sobre o EVOA, de visitar as Salinas do Samouco, um local de passagem e refúgio, em Alcochete, para uma grande diversidade e quantidade de aves.

29/02/20

Os primeiros sinais da Primavera

Por Monsanto

Uma borboleta branca da couve

Estão por todo o lado, a começar pelas asas da borboleta branca da couve (Pieris brassicae), brancas à exceção de uma pinta escura. É uma espécie que começa a ser vista por esta altura do ano.

Uma amendoeira em flor, em Monsanto

Nas amendoeiras, os sinais são botões.

Uma acácia a florir, em Monsanto

O amarelo vivo, mas indesejável (por ser considerada, nesta zona, uma espécie infestante), de uma acácia.

Alguém a tocar uma flauta transmontana, em Monsanto

Além de sinais, também há notas musicais no ar. O senhor na fotografia aproveitou os últimos dias de sol para ensaiar, longe da cidade (e dos vizinhos), a sua flauta transmontana.

Orquídea silvestre

Por fim, o sinal mais inesperado. Li, há poucas semanas, na página de facebook do Parque Florestal de Monsanto, que já podiam ser vistas algumas orquídeas por lá. Não sabia da ocorrência de orquídeas silvestres nesta zona, mas a ideia de ter mais um desafio fotográfico à espreita foi irresistível. Não foi preciso procurar muito, pois lá estavam elas, muito pequenas e pouco vistosas, à beira de um dos trilhos que costumo percorrer. A espécie que encontrei, a Orphys Lutea, usa uma estratégia carnavalesca para assegurar a sua reprodução: as suas flores parecem-se com abelhas fêmeas para atrair polinizadores.

19/02/20

10 livros para 2020

Uma lista para guiar as minhas leituras este ano

Açores a pé, Nuno Ferreira

Comecei a lê-lo há umas semanas e estou a gostar deste diário de uma travessia a pé de todas as ilhas do arquipélago açoriano. O registo é jornalístico, de passo rápido (é o ritmo que imagino que o Nuno tenha a caminhar) e poupado no deslumbramento. Há tempo para reparar na paisagem, mas é óbvio que são as pessoas que mais interessam ao Nuno, que entram nas suas páginas quase sempre em discurso direto. Agricultores, cantadores, barbeiros, entre outros, vão completando o retrato humano e cultural das localidades pelas quais o Nuno vai passando. Sei por experiência, a percorrer o Trilho dos Pescadores, como caminhar o dia todo, ao longo de caminhos desertos, nos pode deixar sedentos de contacto humano. É um "efeito secundário" curioso para quem se propõe encetar uma viagem destas sozinho (ainda por cima sem GPS). Preciso de chegar ao fim da viagem do Nuno para ter a certeza, mas sim, já comecei a pensar em repetir a sua façanha. 

Viver com alma, José Ricardo Vidal

Outro livro que já me tinha comprometido por aqui a ler. Estou surpreendido com a velocidade com que estou a lê-lo. Imaginei que seria uma leitura difícil, mas o José encontrou as palavras certas, no ritmo certo, para descrever o trauma inicial da sua experiência.

The Institute, Stephen King

Estou a levar o meu tempo, até porque, ler King, para mim, é uma oportunidade para escapar da rotina e dos temas mais sérios.

Jóquei, Matilde Campilho

Quero ler mais poesia, e este livro está na minha estante há anos à espera da sua vez. Será desta?

L'Associé, Joseph Conrad

Ando há anos a tentar aprender francês sozinho, e uma das coisas que me obrigo a fazer para ganhar vocabulário é ler um pequeno livro escrito ou traduzido para o francês por ano. Ler em francês é uma pequena tortura para mim, dada a frequência com que preciso de recorrer a um dicionário ou de traduzir frases inteiras para captar o seu sentido, pelo que esta é a única leitura do ano que, sem culpa do livro, não me entusiasma particularmente.

Fim, Fernanda Torres

Procurei recomendações de escritores brasileiros atuais e Fernanda Torres aparece quase sempre mencionada. Não sei o que esperar, mas estou otimista.

Histórias, Susan Sontag

Quase todos os livros de Sontag estão entre os meus preferidos e quero continuar a ler a sua obra.

Goodbye, Things: The New Japanese Minimalism, Fumio Sasaki

Considero que já levo um estilo de vida minimalista, mas folheei-o algures e fiquei curioso.

Corpo Triplicado, de Maria Brandão

Mais um livro que encontrei ao acaso numa livraria e que me deixou intrigado.

On Reading, Writing and Living with Books, Virginia Woolf, Wilkie Collins, George Eliot, Leigh Hunt, E.M. Forster

Um livro sobre ler, escrever e viver com livros tem tudo para, potencialmente, dar uma boa leitura.

02/02/20

EVOA

Uma visita ao maior observatório de aves no país

Um abrigo para observação de aves na margem de um dos lagos do EVOA

É quando pensamos que chegámos que a verdadeira viagem começa. Depois de passarmos Vila Franca de Xira e de sairmos da estrada alcatroada, aguarda-nos um caminho espantoso de 12 quilómetros em terra batida (e boas condições) até ao coração da Reserva Natural do Estuário do Tejo (RNET). O impulso irreprimível, para quem sai do confinamento da cidade, é parar e apreciar o espelho de água da lezíria e a vista desimpedida do horizonte em todas as direções.

O objetivo desta incursão pela campina é a visita ao maior observatório de aves do país, o EVOA (sigla para Espaço de Visitação e Observação de Aves), inaugurado em 2012, cujo centro de interpretação, isolado no horizonte, tanto pode parecer um chalé de grandes dimensões como uma nave espacial aterrada no meio da lezíria.

O edifício principal do EVOA visto à distância

A sua localização bem no interior da reserva faz do EVOA uma espécie de posto avançado da civilização. Além de apoiar as atividades relacionadas com o estudo e a conservação da RNET, o EVOA foi concebido para acolher e incentivar, de forma controlada, a curiosidade em relação à abundância e diversidade da avifauna existente na zona.

Uma visita ao EVOA inclui uma pequena exposição sobre a RNET e o acesso aos caminhos que conduzem aos três pequenos lagos artificiais ali perto. A visita guiada leva duas horas e consiste essencialmente de uma sessão de observação de aves com binóculos (emprestados pelo EVOA) a partir dos pequenos abrigos situados nas margens dos lagos.

Um papa-ratos, observado num dos lagos do EVOA

De acordo com o site do EVOA, o Estuário do Tejo é considerado uma das 10 zonas húmidas mais importantes da Europa devido às grandes quantidades de aves aquáticas migradoras que recebe. No dia da nossa visita, conseguimos observar pelo menos uma dezena de espécies de aves diferentes, sozinhas ou em bando: águias, gansos-bravos, pernilongos, abibes, piscos-de-peito-azul, entre outras, que um folheto fornecido no início da visita ajuda a identificar e registar.

Vale a pena destacar o papa-ratos (na fotografia acima), cujo avistamento entusiasmou visivelmente o nosso guia. Segundo ele, trata-se de um exemplar relativamente infrequente por aqueles lados.

Um bando de aves descansa nas águas de um dos lagos situados no EVOA

O site do EVOA permite consultar uma listagem com as 100 espécies mais avistadas naquela área. Um número surpreendente de aves, mais de 120 mil, podem passar por ali à procura de repouso e alimentação durante as épocas de migração.

A oportunidade para observar de perto tantas espécies diferentes, em tal abundância, é algo que não devem deixar escapar. Além do contacto proporcionado com a natureza, no seio de uma reserva natural, a visita revela um lado completamente diferente, relativamente intocado, do estuário do Tejo. Ao fim-de-semana, existem duas visitas guiadas, uma de manhã e outra à tarde, mas só há capacidade para um número reduzido de participantes, pelo que é aconselhável reservar com alguma antecedência.

Um abibe, um pernilongo e um bando de gansos-bravos em voo

Ao nível da fotografia, a minha maior lente (com a distância focal máxima de 200mm) não chegou para superar a distância entre nós e as aves. Mesmo dentro dos abrigos, é preciso guardar silêncio e uma certa distância dos vidros espelhados. O que pode ser visto como um obstáculo, todavia, é precisamente aquilo que permitiu que certas aves, como o papa-ratos mais acima, passassem tão perto dos abrigos, completamente alheias ao grupo de pessoas que as observavam no interior.

É no caminho até ao EVOA que se vai avistando outra espécie de fotógrafos, melhor equipados e mais determinados. Algumas das lentes que usam podem ser descritas como mini-canhões, tal é a sua distância focal (600mm ou mais). Só lentes tão grandes, e muita persistência, conseguem produzir fotografias tão detalhadas e espantosas como aquelas que o Daniel Raposo, aqui mesmo no SAPO Blogs, ou o Rui Pereira, no flickr, vão partilhando com o mundo.

O céu acima de um dos caminhos do EVOA

Uma das últimas fotografias da tarde, dos únicos aviões que se viam, naquele dia, no céu. Mais a sul, no Montijo, está prestes a receber luz verde a construção de um novo aeroporto, cujo impacto também pode vir a ser sentido na RNET.

Duas horas no EVOA foram suficientes para constatar a abundância e diversidade de aves que se sentem atraídas pela beleza e sossego daquela área. É importante apoiar a missão de quem, no EVOA, e não só, tenta manter o frágil equilíbrio de forças entre a cidade a crescer no horizonte e a natureza que procura ali refúgio.

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