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06/03/21

A cor do horizonte

Isabel Salema, numa notícia do Público, sobre a cor escolhida para a renovação da fachada do Teatro Nacional de São Carlos:

Não será o azul do complexo da Marinha na Ribeira das Naus, nem de outros edifícios vizinhos do Chiado que exibem um azul-bebé-desmaiado. Ainda estão a ser feitos os últimos testes cromáticos, mas o Teatro Nacional de São Carlos (TNSC), em Lisboa, que há décadas ostenta uma fachada amarelo-ocre, deverá passar a exibir uma nova cor quando os andaimes e a tela que cobrem a fachada desde Novembro forem retirados. Para já, chamemos-lhe a “cor do horizonte”.

É a primeira vez que encontro uma referência a esta cor, demasiado irresistível para não catalogar aqui.

28/02/21

Teoria das cores

Uma ameixeira-de-jardim em flor

Uma ameixeira-de-jardim em flor, aqui perto de casa, em meados de fevereiro.

As ameixeiras-de-jardim em flor sinalizam mais o clímax do inverno do que a chegada da primavera, e o timing não parece ser acidental. A minha teoria pessoal é de que o rosa das suas flores destaca-se mais com os céus cinzentos de fevereiro do que com os céus mais soalheiros de março. Uma vantagem competitiva em relação a outras espécies, porventura, ou uma árvore simplesmente que gosta de ter todas as atenções só para si.

25/02/21

A janela do envelope

Inspirados no twitter, fizemos uma ligeira alteração, esta semana, à forma como apresentamos, nas nossas listagens públicas (exemplo, a lista de posts com a tag viagens), os excertos dos posts publicados na plataforma. Trocámos a ordem do texto e da eventual fotografia (agora, o excerto começa pelo texto) e limitámos a altura da imagem, centrando-a no espaço que lhe está reservado. É uma alteração insignificante, em páginas relativamente pouco utilizadas, mas tenho dado por mim deslumbrado com a forma como algumas imagens encaixam na perfeição na "janela do envelope". É uma boa analogia, porque parte do meu dia consiste em navegar nestas páginas, e espreitar o que vai sendo publicado — no fundo, espiar correspondência alheia. Já agora, não deixem de ler o post da Ana. Se algum dia visitar Atenas, vou lembrar-me dele.

24/02/21

Auto-poesia

Inventei um sistema de fintar a preguiça de ler poesia: deixá-la no carro, para aquelas alturas em que não resta literalmente mais nada para fazer. Chamei-lhe auto-poesia e é uma das minhas mais imaginativas (e desesperadas) ideias de 2020. O primeiro livro de poemas que usei para testar este sistema, e o primeiro em anos que consigo terminar de ler, foi Jóquei, de Matilde Campilho, publicado em 2014.

Não consigo fazer-lhe um elogio mais completo do que aquele que Pedro Mexia lhe dedicou, mas achei que podia falar dele aqui, sobretudo na sequência do post anterior, sobre o processamento que a escrita faz da vida. O Jóquei é um exemplo muito claro disso, e do que a poesia pode ser. Passei o livro a pensar para os meus botões como gostaria de ter a habilidade para fixar em poemas algumas das coisas que só a mim podem ter acontecido (naquele minuto, naquela rua, com aquelas pessoas, com a minha atenção). Vou fixando algumas delas aqui no blog, pela escrita ou fotografia, porque acho que preciso dessas construções, mas também porque me parecem infinitamente mais fáceis de mexer nelas. Além do grande domínio da língua que exige, a poesia é biografia sem bilhete de identidade (ou, para usar uma expressão minha, é fotografia sem metadata). Implica prescindir de uma série de coisas que estamos formatados a pedir ao texto, a começar pela explicação. O poema é um texto que não sente necessidade de se explicar. E isso vai contra tudo o que fui habituado, no entretenimento e no jornalismo, a esperar do texto.

A analogia não deve ser nova, mas a poesia parece estar para a prosa, como o bonsai está para a jardinagem. No fundo, a poesia também é uma arte da miniaturização, feita de uma atenção extrema às unidades mínimas do sentido (as palavras?). A esse nível "microscópico", a escolha de uma palavra pode fazer toda a diferença. Fascina-me imaginar, por exemplo, que um poeta, desafiado a isso, consiga escrever um poema a partir de um hemograma (sim, acredito que já tenha sido feito).

A propósito de tudo isto, Roland Barthes tem um pensamento, no seu ensaio "O prazer da leitura", que me parece valer muito a pena trazer para aqui:

Valéry dizia: «Não pensamos palavras, só pensamos frases.» Dizia-o porque era escritor. Chama-se escritor, não àquele que exprime o seu pensamento, a sua paixão ou a sua imaginação por frases, mas sim àquele que pensa frases: um Pensa-Frase (isto é: aquele que não é nem um pensador nem um fraseador).

É isso que um escritor faz. Inventa, pensa frases, que são, no fundo, novas formas de ver o mundo. A escrita, seja poética ou não, é uma máquina de reinventar o mundo.

13/02/21

Como criar um blog de sucesso?

Este texto não é realmente sobre aquilo que o título sugere que é

Comecei a escrever este post há uns anos, só que fui-me esquecendo dele nos rascunhos, e quando dei por isso, deixaram de me fazer a pergunta no título. Não quis desperdiçar a chama-piloto, por isso decidi avançar mesmo assim com o post e alinhar alguns pensamentos algo dispersos sobre isto de ler e escrever blogs.

Quem chegou aos blogs nos primeiros anos atrás de uma certa ideia de sucesso, ligada ao lifestyle e à ostentação, descobriu entretanto o Instagram e não olhou duas vezes para trás. Vistos desse ângulo morto, é inegável que os blogs perderam mediatismo e apelo económico. Se é para mostrar, e comercializar aquilo que pode ser mostrado, haverá melhor meio para o fazer do que uma plataforma onde o tempo estimado de consumo e interação é medido em segundos? E atenção, isto não é uma crítica. Adoro a ideia na base do Instagram, e que o próprio nome evoca: a ideia de um telegrama visual. Sou utilizador diário há mais de dez anos e, apesar dos contras (aos quais precisaria de dedicar um post inteiro), continua a ser uma plataforma importante para a minha criatividade. Posto isto, o que resta aos blogs é aquilo que está na génese deste formato de publicação, e continua a motivar a maioria dos que por aqui andam: o desafio criativo e um sentido de realização pessoal pela palavra escrita.

A escrita é das poucas formas de criatividade que não dá para falsificar. Sim, podemos copiar, plagiar, até mesmo contratar um escritor-sombra, mas ninguém se safa com isso a médio e longo prazo, especialmente num blog, em que cada post funciona como certificado de autenticidade do próximo. O estilo da linguagem, a diversidade do vocabulário, até a forma como se separam os parágrafos (sem linhas vazias, por favor) servem como marcadores textuais da autoria. E depois há a autenticidade do que é exposto, que não é tão importante. Mesmo a esse nível, contudo, sei que há boas probabilidades de estar a ler uma experiência em primeira mão quando tropeço numa analogia inesperada, que ilumina um tema ou acontecimento e surpreende pela sua especificidade. Não tem de ser necessariamente um jogo de palavras bem conseguido, basta ser um cruzamento de referências que só podia ter ocorrido àquela pessoa, naquele momento, no encontro entre memória e situação, e que revela uma nova forma de ver algo.

Escrever, para mim, é a forma mais difícil de criar. Segue-se que escrever bem, com originalidade e verve, seja ainda mais árduo de alcançar. Não acredito no nasce-se com isso, mas pela minha experiência como leitor, também não é algo que vejo acontecer por acidente ou mera persistência. É por isso que é tão mais fácil mostrar o que aconteceu com uma fotografia do que contá-lo por escrito. A imagem digital é uma criação automática na qual a nossa intenção serve apenas de gatilho. Tudo o que acontece entre o disparo e o resultado final faz curto-circuito ao pensamento. Escrever é filtrar a existência pela linguagem, com todas as suas limitações e exigências (de tempo, cultura geral e literária, etc).

Parece impossível que não deixemos uma atividade tão exigente do nosso raciocínio e imaginação a quem a tem de praticar profissionalmente numa base diária, como os escritores e os jornalistas. Sinto uma réstia de inveja por quem se propõe a trabalhar para uma agência noticiosa, qual linha de produção de textos, e tem de estar preparado, a todo o momento, a escrever sobre qualquer tema, seja um atentado terrorista de proporções e contornos inéditos ou um fenómeno meteorológico raramente visto. A prática e as convenções jornalísticas ajudam, claro, mas aspiro a essa capacidade para escrever sobre tudo.

A minha curta experiência no jornalismo, todavia, confrontou-me com as minhas limitações como autor. Qualquer que fosse o tipo de artigo (uma curta adaptada da Lusa ou um raro artigo de abertura da secção), gastava sempre largas horas a martelar o Back Space e a recauchutar o texto. Só já muito em cima da hora de fecho é que lá me via forçado a escolher um enquadramento e a correr com ele. Por vezes, ia contra a parede.

Mesmo hoje, depois de mais de mil posts publicados aqui, continuo a debater-me com as mesmas dificuldades. A grande diferença no blog, claro, é que não há hora de fecho (este post, por exemplo, esteve a maturar vários dias nos rascunhos) e, mesmo que escape algum erro flagrante, posso vir aqui editá-lo. O papel não confere esse beneplácito, como descobri no dia da publicação do meu primeiro artigo de abertura de secção no DN (uma oportunidade cara a qualquer estagiário). O orgulho desse dia deu rapidamente lugar ao desengano, quando abri um exemplar do jornal à procura do meu artigo e percebo que repeti a mesma palavra, não duas, mas três vezes (!) na introdução. Lembro-me de ter largado o jornal como se tivesse saído dele um aranhiço e de ter decidido fazer tábua rasa do assunto, esquecendo que o artigo existira — se não podia estar orgulhoso daquele texto, para mim só podia contar como dissabor.

A escrita é a pior das matemáticas, na medida em que recusa fórmulas e ilude qualquer explicação. Não é raro dar por mim a ler duas, três vezes um texto que me chamou a atenção, na ânsia de aceder aos segredos da sua lógica interna. Não é preciso sequer que o tema me interesse especialmente ou que o autor tenha procurado usar um registo diferente do habitual. Basta uma certa cadência, imediatamente reconhecível, para me cativar. Normalmente, são textos que só imagino como tendo sido escritos de rajada, com hesitações mínimas por parte do autor.

É por tudo isto que falar de sucesso num meio baseado na escrita parece-se um bocadinho a falar de sucesso no seio de um clube de xadrez. Existe alguém que se inscreva num campeonato de xadrez pela fama? O desafio do jogo, o estímulo mental do taticismo e a recompensa do xeque-mate valem por si. Da mesma forma, acredito que uma boa parte da motivação para manter um blog esteja ligada à satisfação íntima causada pela escrita ou, para ser mais rigoroso, à satisfação obtida pelo processamento que a escrita faz do pensamento (ou deslumbramento). Há casos em que uma fotografia pode valer por mil palavras, mas há coisas (sensações, memórias, pensamentos) que só a escrita é capaz de fixar e contar.

04/02/21

Desvios

Foi o último livro de biblioteca que trouxe para casa antes do confinamento ser decretado, e parece feito para os dias que correm. Chama-se Lisboa, inclinações, desvios e consiste essencialmente de fragmentos poéticos, escritos e fotografados, inspirados por Lisboa, da autoria de Henrique Dinis da Gama, arquiteto e auto-intitulado amante da cidade.

Dei pela sua capa em destaque há uns anos numa estante da Biblioteca de Belém, e bastou-me folhear algumas páginas para saber que me ia interessar. É uma experiência especial, que invejo a quem faz investigação académica e passa a vida em bibliotecas, esta de encontrar livros sobre os nossos temas preferidos. E ali estava um livro que reúne poesia e fotografia sobre essa musa volúvel e misteriosa que é Lisboa.

Passaram alguns anos desde esse primeiro encontro, até que em dezembro lá o requisitei. Só o abri há uns dias, e ainda bem que o reservei para este tempo de confinamento, porque soube a passeio sem destino pelos telhados da Baixa, pelas escadinhas de Alfama e tantos outros desvios. Lembrou-me o luxo que é passar a perna à rotina e tomar um caminho diferente, na incerteza deliciosa de onde vai desembocar. Um desvio não é só fugir ao caminho mais direto entre A e B. Também pode ser uma forma de passar o tempo e de curto-circuitar o nosso mapa mental da cidade. Já disse que sinto falta de passear por Lisboa?

É uma falta não só dos lugares, mas dos meios. Já estive várias vezes na Baixa da cidade desde março de 2020, mas nunca mais de transportes públicos. O carro tem as suas vantagens, assim como ir à Lua num invólucro metálico com uma reserva de oxigénio para alguns dias. Já fomos à Lua, mas podemos dizer que já passeámos por lá? O carro é uma âncora, que obriga a voltar sempre ao ponto de partida. Todas as distâncias passam a ser medidas em relação ao estacionamento e ao esforço necessário até ao regresso, sem contar que está sempre , a aliciar-nos com a promessa de uma deslocação mais rápida e menos cansativa. Tenho saudades daquelas tardes de sábado sem nada para fazer em que saía de casa sem a mais pequena ideia de onde iria parar. Deixar ao acaso, e ao primeiro autocarro a surgir na paragem, a escolha de uma direção ou zona da cidade para passear sem rumo. O carro nunca me ofereceu essa serendipidade, essa entrega quase total aos caprichos do destino (mesmo que sob o disfarce da oferta de fim-de-semana da Carris).

Isto foi um desvio, certo? Voltando ao livro de Dinis da Gama. Gostei dos seus poemas e do surrealismo que lhes dá corpo. São poemas com geometria à mistura, que abrem vistas novas da cidade.

A segunda metade do livro é dedicada à fotografia e aos detalhes que tornam Lisboa única: os jogos de luz, figuras e texturas do empedrado; a sinuosidade das escadinhas; as ondulações da calçada (levantadas lascivamente pelas raízes das árvores como membros que se movem debaixo de lençóis); os adornos das fachadas e as molduras em pedra das janelas; a árvore, fotografada de cima, que contrasta a exuberância verde da sua folhagem com o quadriculado comprimido do passeio; a pose sedutora de uma árvore, a lembrar um corpo nu de braços no ar; os candeeiros afixados nas esquinas dos prédios que parecem meter a cabeça para fora (sim, precisamos de uma monografia dedicada aos candeeiros lisboetas); a idosa enquadrada pelo postigo da porta, com ar de quem aguarda expectante a passagem do carteiro. Quase todas as fotografias aqui podiam ser o ponto de partida para algo mais.

Ver Lisboa assim fixada nos seus contornos e idiossincrasias é especialmente cativante quando estamos recolhidos em casa na periferia esquecediça da cidade. Dinis da Gama reserva a Lisboa o mesmo olhar apaixonado de um amante pelas pequenas coisas da sua amada. Ela não está toda ali, nunca podia estar, mas os detalhes já são suficientes para descortinar a personalidade e medir o seu poder de sedução. O segredo de beleza de uma cidade só pode ser revelado assim, num poema ou numa fotografia.

27/01/21

Um dia de janeiro em confinamento

Acordar às 04h30 da manhã, apesar do despertador estar definido para as 06h45. Sair de casa pouco tempo depois, para uma saída essencial que não dura mais de 15 minutos. Os primeiros blogs da manhã, seguidos do pequeno-almoço, um dos bons momentos da manhã. Às 8h, nova saída à rua, para uma caminhada rápida pelo bairro. Ruas quase vazias, que o tempo cinzento deixa ainda mais desoladas. O frio das primeiras semanas de janeiro foi embora, mas o sol ainda não voltou. Sugiro darmos a volta por um percurso diferente. Ao longe, numa praceta pouco movimentada a esta hora (a este ano?), já se vêem alguns reflexos das luzes azuis das viaturas de emergência. À medida que nos aproximamos, começamos a descortinar a ambulância, o carro dos bombeiros e a polícia. Estão todos tão imóveis e alinhados de tal modo, de frente para nós, que dão a impressão de estarem no cenário de uma filmagem qualquer. Mas não há câmara. Conseguimos apenas ver um carro particular parado a meio da passadeira e alguém a ser imobilizado pelos paramédicos no passeio defronte. Conseguimos perceber que se tratou de um atropelamento, especialmente azarado por ocorrer nesta fase tão crítica da pandemia, mas tudo o resto é uma cena muda. Retomamos o nosso passeio. Ao virar da esquina, reparo na marquise de uma das poucas pastelarias do bairro ainda abertas, transformada em montra para os tabuleiros cheios de bolos. Há qualquer coisa no encerramento das pastelarias que me faz vacilar cá dentro. De todos os espaços do nosso quotidiano que foram encerrados (escolas, bibliotecas, restaurantes, cinemas, etc), que contribuem para a nossa perceção da normalidade, não esperava que fosse esta a peça ausente que me fizesse perceber o quanto o puzzle do nosso dia-a-dia está incompleto. Menos de um quarto de hora depois, regressamos ao local do atropelamento, já sem qualquer vestígio do que se desenrolara ali apenas minutos antes. Voltou a ser uma curva na estrada e uma passadeira sem história. Estes passeios higiénicos fazem-me sentir ainda mais como espetador da vida na cidade, mesmo sem a máquina fotográfica. Já a chegar a casa, a passagem de dois batedores da PSP chamam a nossa atenção. Escoltam uma carrinha branca, identificada com o logótipo do SNS e seguida por um carro-patrulha da GNR. Presumimos que se tratava de um carregamento de vacinas. Passados dez meses de pandemia, é uma realização espantosa, perceber que o caminho das vacinas, o início do fim deste pesadelo, também passa pela nossa rua. É o tipo de coisa que me faz sempre recordar aquele lema da TSF, sobre como vai dar ao mesmo, para um orgão de informação, ir ao fim da rua ou ao fim do mundo. Por instantes, pareceu realmente que estávamos em ambos os sítios ao mesmo tempo. Depois do almoço, um phase out no trabalho (eufemismo profissional para despedida, menos tingido de tristeza) e depois, a última saída essencial de casa, com a peça que faltava ao relato destes dias anormais: a fila de ambulâncias em espera à entrada das urgências COVID do hospital mais próximo. Só dei pela fila nas últimas semanas, e não a vejo todos os dias, mas hoje lá estava, assim como as equipas de reportagem televisivas. É curioso o poder de uma câmara de televisão, até mesmo ao vivo, para dirigir a vista. Toda a gente, incluindo eu, parecia estar a olhar na mesma direção, como se a câmara fosse um dedo apontadosim, isto está mesmo a acontecer, isto é a pandemia. E está a acontecer um pouco por todo o lado. Já tenho amigos em isolamento na sequência de testes positivos e, por aqui, nos blogs, tenho-me cruzado, dia sim, dia não, com relatos de quem está por casa a passar pela mesma situação, sem sintomas graves. Os números dos últimos dias da evolução da pandemia, todavia, são tão impensáveis que evito repeti-los aqui. Onde é que errámos para chegar a este ponto? Quando é que isto começa a melhorar novamente? E o que mais podemos fazer para ficar seguros? São as dúvidas que me inquietam de momento.

24/01/21

Rio de pensamentos

Uma mulher jovem deitada junto ao Tejo a escrever num caderno

Maio de 2018, junto ao rio Tejo. Comecei por reparar nela devido à pose descontraída, num local frequentado por tanta gente. Assim de esguelha, podia passar por alguém deitado na praia. Só depois é que percebi o que estava a fazer e me decidi a tirar-lhe uma fotografia. Escrever em público. Quem é que ainda faz isso? Tenho dezenas de fotografias no meu arquivo de desconhecidos em diferentes poses a contemplarem o Tejo, mas há algo de diferente nesta: é o rio que parece ser o elemento em repouso. Como se estivesse a espreitar-lhe pelo ombro, curioso com os pensamentos que fluem da caneta para o papel.

20/01/21

Sono pesado

Esta madrugada, por volta das 3h, acordámos cá em casa com o som tímido, mas percetível, de um "acudam" vindo da casa colada à nossa no mesmo piso do prédio ao lado. Nunca tínhamos visto a vizinha em causa, apesar de já aqui viver há mais tempo do que nós, mas sabíamos tratar-se de uma senhora idosa, já na casa dos 90 anos, a viver sozinha. Não eram gritos de socorro, pelo menos como imaginamos que soam. Era preciso encostar praticamente a cabeça à parede para ouvi-la. O tom era lamuriento, sem sinal de pânico ou aflição na  voz. Podia passar por uma conversa mais triste ao telefone, se não fosse o tardar da hora e o ocasional "ajudem", que a parede pelo meio podia ou não estar a distorcer. Na dúvida, ligámos para a esquadra local e explicámos a situação. O carro-patrulha apareceu quase imediatamente. Depois de tentarem a casa da vizinha, os agentes tocaram em todas as campainhas do prédio. Eventualmente, alguém lá despertou e abriu a porta da rua, mas deu tempo para os agentes pedirem para entrar em nossa casa, de modo a tentarem ouvir a senhora e avaliar o que se passava. Foi preciso quase uma hora, e um escadote dos bombeiros, para conseguirem entrar na casa e encontrarem a senhora caída da cama, apenas com sinais de alguma desorientação. Não havia perigo iminente, nem foram precisos cuidados médicos, felizmente, mas era mesmo um pedido de auxílio.

Se tivesse que nomear a maior dificuldade que a pandemia agravou no meu quotidiano, não hesitaria em responder: vizinhos. Já perdi a conta ao número de noites que passei em claro depois de ser arrancado do sono ao som de música, jantares tardios, portas a explodirem, conversas animadas até altas horas, entre outras causas. E, para tornar tudo ainda mais frustrante, com origem quase sempre diferente. Alguns problemas resolveram-se sozinhos, com outros foi precisa uma cordial chamada de atenção. Na maioria das vezes, não consegui mais voltar a adormecer. É difícil saber exatamente em que medida é que a pandemia veio piorar a situação (a minha vizinhança nunca foi especialmente cuidadosa ou respeitosa das horas de sossego), mas a ansiedade e o acréscimo de tempo passado em casa vieram agravar tudo. Nunca estive tão atento aos ruídos que me rodeiam (e são muitos) como agora e tão precisado de uma boa noite de sono.

Posto isto, o que me desconcertou em toda a situação desta madrugada foi mesmo a dificuldade que a polícia teve a despertar os nossos vizinhos do prédio ao lado, na maioria gente jovem, para lhes abrirem a porta da rua. É um dos prédios mais barulhentos da nossa vizinhança, e foi preciso um quarto de hora, possivelmente, até que o dedo insistente na campainha surtisse efeito. Foi estranho presenciar aquele avesso: estar acordado quando todos estão a dormir, querer acordá-los e, mesmo assim, não conseguir.

16/01/21

Gabinete de curiosidades

Um post em jeito de balanço de 14 anos (quase feitos) de horizonte artificial

Alguém no SAPO destacou gentilmente aqui o blog na semana passada. Não sei quem foi, mas foi um destaque especialmente simpático porque quem o fez não percebeu que este era o meu blog (e, portanto, excluído dos destaques, como deve ser). Só me apercebi disso pelo pico no número de visitas recebidas. O blog recebe muito poucas visitas por dia, mas nem por isso deixo de espreitar as Estatísticas. Sinto um certo fascínio, aparentemente inesgotável, pela ideia de saber que há outros a lerem o que aparece aqui escrito, mesmo sabendo que a maioria dos visitantes chega à procura de outra coisa qualquer e que não repete a visita. Escrever em público é escrever para um potencial leitor, e isso foi sempre indissociável da minha motivação para escrever, aqui ou em qualquer outro lado. Dito isso, não me faz qualquer diferença que este post seja lido amanhã por 2 pessoas ou 200.

O post do blog que continua a receber mais visitas, ano após ano, data de 2009 e é um pequeno elogio fotográfico à renovada estação de metro no Saldanha. O que leva tanta gente a chegar ali através de uma pesquisa no Google? Serão os ecos de Almada Negreiros nas paredes da estação a espicaçarem a curiosidade sobre o seu autor? Ou será por se tratar, presumivelmente, de uma das estações mais movimentadas da rede de metro e isso suscitar muitas dúvidas sobre deslocações à cidade? Já senti a tentação de atualizar o post e deixar a pergunta diretamente aos visitantes perdidos.

O segundo post mais visitado de sempre no blog é, não sem algum embaraço, outro post (fraquinho) meu sobre o metro de Lisboa. É do tempo em que ainda não usava o Twitter como filtro ao serviço do blog, evitando deixar aqui tudo o que fosse comentário avulso, desabafo despropositado ou motivo de irritação. Já não sei bem quando é que isso aconteceu, mas essa separação de águas foi muito intencional. Quis que o blog fosse realmente o meu caderno de escrita e que refletisse apenas aquilo que move a minha atenção — e que pode merecer a valiosa atenção de outros. O Twitter tornou-se uma espécie de linklog pessoal, onde arquivo leituras interessantes e impressões menos filtradas do meu dia-a-dia. E mesmo essa utilização do Twitter foi-se alterando (e continua a alterar-se) com o tempo, para evitar as consequências do excesso de informação e do tempo passado frente a um ecrã. Seja qual for o meio ou canal de comunicação, precisa de servir o meu tempo e objetivo. No twitter, antes de publicar o que quer que seja, habituei-me a perguntar: porque estou a tweetar isto? Que diferença é que isto vai fazer a quem se cruze com isto? Vai contribuir para o azedume generalizado? Penso isto ou quero ser visto a pensá-lo?

Ao nível do blog, já não preciso de fazer esse exercício. Sei que parece um bocadinho estranho, mas já sei instintivamente quando uma obra, um passeio ou uma experiência justificam a partilha por aqui. O blog tornou-se, aos poucos, o meu gabinete de curiosidades, onde coleciono tudo o que me espanta e comove. Das poucas vezes que abri uma exceção para falar do que não me agradou, senti-me sempre incomodado, como se estivesse a perder o meu tempo com isso uma segunda vez, e o de quem me lê. Adoro ler e preparar mentalmente uma boa crítica construtiva, só não é algo em que faça sentido gastar os escassos recursos da minha escrita.

E quem é que me lê, já agora? O blog passou largos anos sem comentários, até que, após tanto tempo a ler e destacar os outros, percebi que um blog sem comentários é uma espécie de carta enviada sem remetente. Comento pouco os blogs dos outros (o destaque já é uma forma de comentário, parece-me), mas valorizo a possibilidade de deixar um sinal qualquer de reconhecimento. De acusar a receção, para esticar a analogia. Quando abri os comentários há uns anos, gostei de descobrir neles alguns colegas de trabalho e vizinhos da saposfera. Cansei-me de partilhar links para os meus posts nas redes sociais, e sinto-me muito desconfortável com a ideia de angariar (direta ou indiretamente) leitores para um espaço de escrita pessoal como este, pelo que tento passar despercebido na comunidade. Mesmo assim, a maioria dos leitores regulares (e os mais simpáticos, claro) são quase todos provenientes do SAPO (de resto, tenho 3 anónimos leitores subscritos por e-mail). Além disso, só sei que, segundo as estatísticas, a maioria dos visitantes nacionais é de Lisboa e do Porto (seguidas, mais de longe, por Amadora, Almada e Coimbra) e os internacionais (mais esporádicos) são do Brasil, EUA, e (espanto) Coreia do Sul.

Acho fantástico que seja possível aceder a uma parte da minha consciência (à melhor parte, sem dúvida) digitando apenas alguns carateres num computador, a partir de qualquer parte do mundo. Ou que seja possível chegar ao conhecimento de outra pessoa através de uma pesquisa aparentemente tão inconsequente como "frases metro saldanha" (é verídico, diz-me o Google, que hoje em dia já não revela aos publicadores, por motivos de privacidade, quase nada sobre os termos de busca usados pelos seus utilizadores). Ao fim de quase 14 anos (a completar em abril, um belo mês para começar um blog, se me permitem a imodéstia), ainda não me cansei dessa serendipidade.

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