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07/09/21

Um novo jardim a sul

Passei no domingo pelo jardim da Gulbenkian e lembrei-me que tinha um post esquecido nos Rascunhos do blog sobre o seu projeto de ampliação para sul, cujas obras, aliás, já estão em curso. Este é um dos meus locais favoritos da cidade e merece um post inteiro sobre as minhas razões para isso. Para já, achei que valia a pena colocar os toques finais num texto que está para ser publicado há mais de um ano.

Uns dias antes do país parar, em março de 2020, ainda fui a tempo de visitar, na Fundação Gulbenkian, uma pequena e curiosa exposição para quem se interessa pela forma como a cidade é transformada pela arquitetura e sente que o espaço ocupado pela Fundação faz parte da sua vivência de Lisboa.

A exposição intitulava-se “12 projetos de arquitetura” e colocava à apreciação do público os projetos que resultaram do concurso de ideias para a ampliação a sul do jardim Gulbenkian, aliada à remodelação do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (CAM). Sou utilizador assíduo deste jardim há muitos anos e nunca me tinha ocorrido pensar porque não ocupava toda a área disponível a sul do quarteirão (a Fundação chama-lhe o “vértice sul”), inclusive demarcada por um antigo muro, até à Rua Marquês de Fronteira. Segundo uma notícia do Expresso, só recentemente é que a Fundação obteve os direitos para esse espaço e assim poder criar uma nova entrada nessa rua, como acontecia com o antigo Parque de Santa Gertrudes. Em breve, quem se aproximar da Gulbenkian vindo de Sul, deixará de ter de contornar o tal muro até uma das entradas laterais para poder aceder ao jardim.

Visitei a exposição movido pela curiosidade de ver as respostas a esta oportunidade única de deixar uma marca num dos espaços verdes mais convidativos de Lisboa.

Imagem de satélite do complexo da Fundação Gulbenkian, com a vertente sul assinalada a laranja.

A área de intervenção, assinalada a laranja, das obras de ampliação para sul do jardim da Fundação Gulbenkian.

Até certo ponto, pode dizer-se que foi o jardim, concebido pelos arquitetos paisagistas António Viana Barreto e Gonçalo Ribeiro Telles, que colocou a Fundação no mapa. É difícil estimar qual seria o poder de atração das ofertas culturais da Gulbenkian sem esse pequeno oásis da natureza em seu redor, ao ponto de se tornar um ex-líbris da cidade e um cartão de visita da própria Fundação. Quem já assistiu a um espetáculo na sua sala de concertos dificilmente esquece a impressão inicial causada pela vista para o lago proporcionada pela fachada envidraçada. Por momentos, não parece mais que estamos em Lisboa, tão diferente e misteriosa (sobretudo à noite, quando está iluminada por alguns focos de luz) é a paisagem, sem sinal da cidade à volta. No fundo, a mesma sensação que qualquer visitante que já tenha passeado pelos caminhos serpenteantes e viçosos do jardim conhece. 

Quando a paisagem tem primazia sobre os edifícios, como parece ser o caso na Gulbenkian, como é que se desenvolve uma proposta de intervenção sobre esse espaço? Ver como o mundo da arquitetura respondeu a este desafio despertou a minha curiosidade e também um certo zelo da minha parte, como se, por ser utilizador daquele local, me pudesse considerar parte interessada no processo de seleção da melhor proposta — como se fosse um membro "à solta" do júri, a fazer uma revisão tardia das ideias a concurso, com a enorme vantagem de já conhecer a proposta vencedora e disso influenciar necessariamente as minhas impressões sobre os restantes projetos.

O antigo portão do Parque de Santa Gertrudes, que servirá de futura entrada sul no jardim da Gulbenkian a partir da rua Marquês de Fronteira. 

O antigo portão do Parque de Santa Gertrudes, que servirá de futura entrada no jardim da Gulbenkian a partir da rua Marquês de Fronteira. 

Percorri com atenção todas as propostas e alguns critérios de exclusão saltaram-me à vista: referir, logo à cabeça, o termo "demolição" na descrição do projeto e a utilização de maquetas praticamente despidas de árvores e de outros elementos naturais. A provar, mais uma vez, que existe uma relação negativa entre qualidade e quantidade, as propostas mais maçudas eram também, geralmente, as mais vagas e menos estruturadas à volta de uma visão ou ideia central.

Mesmo assim, havia algumas ideias curiosas, entre as quais o "hangar" idealizado por Carla Juaçaba para o CAM, cujas enormes portas poderiam abrir, literalmente, o museu para o jardim, e servir, quando fechadas, de tela gigante para projetar cinema ao ar livre. A escala do projeto parecia um pouco desajustada para o local, mas não lhe faltava imaginação.

O vidro era outra possível solução arquitetónica para fazer a ponte entre a paisagem e o edifício do museu e foram várias as propostas que seguiram a via da transparência. A proposta de JunyaIshigami era uma das mais aventuradas, pela forma como rodeava praticamente todo o jardim em corredores envidraçados, numa espécie de abraço (e, porventura, cerco) à natureza.

No sentido oposto, houve quem optasse pelo betão como elemento decisivo. De certo modo, eram as propostas que defendiam uma maior continuidade com a configuração atual da Gulbenkian. Entre essas, as propostas da firma "Menos é mais" e de Pedro Domingos destacavam-se por serem também as mais imediatamente reconhecíveis como possíveis ampliações da Gulbenkian como a conhecemos hoje. A primeira chega mesmo a propor uma ponte pedonal sobre um lago na vertente sul — uma ideia arrojada, que também pode ter parecido excessiva para o espaço, com consequências ao nível da acessibilidade. A proposta de Pedro Domingos apresenta uma enorme janela quadrada na fachada sul do museu e simula alguns enquadramentos interessantes do jardim quando visto a partir do interior, mas a escolha do betão liga estas propostas a uma estética cubista que os espaços verdes da Gulbenkian se encarregaram de ir gradualmente suavizando e apagando.

kuma-1600-x-1000-2.jpeg

O projeto vencedor é da autoria do arquiteto japonês Kengo Kuma, e é marcante pela frase singular com que escolhe abrir o caderno da sua proposta: “We are living in the era of the garden, not of the architecture”. E assim, com apenas uma frase na primeira página, está definido o princípio que irá orientar as suas ideias. Depois de folhear cadernos com centenas de páginas (com direito a secções inteiras dedicadas à "metodologia"..), foi inevitável sentir um certo deleite com esta maneira tão sucinta de projetar uma visão.

A proposta de Kuma sobressaiu imediatamente das restantes pela sua claridade, é certo, mas o elemento decisivo é o conceito que encontra para desenvolver essa ideia de primazia do jardim, fixado pelo termo japonês engawa, que designa o espaço abrigado pelo telhado ao redor da habitação tradicional japonesa, no qual “nunca se está totalmente no interior, nem no exterior”. É essa a inspiração para o componente mais vistoso, e perspicaz, do projeto: uma enorme pala curvada instalada na fachada sul do CAM, que esbate a fronteira entre jardim e edifício, e debaixo da qual os visitantes poderão desfrutar ao mesmo tempo da natureza e arquitetura.

Kuma, citado no site da Gulbenkian (com ênfase minha):

"Não repensámos a Gulbenkian através de intervenções independentes na estrutura e no terreno, mas a partir de uma integração holística de todos os elementos da paisagem. Ao criarmos um novo diálogo entre o edifício e o jardim, somos atraídos para o espaço entre a parede traseira do CAM e [a] parede fronteira do Parque. A nossa missão é enaltecer sem destruir a beleza; como tal, vemos neste espaço inexplorado a melhor oportunidade para construir um novo rosto para a Gulbenkian. Concebemos uma nova cobertura, que se transforma num filtro entre o CAM e o jardim e num espaço de socialização para os visitantes."

É uma proposta notável a muitos títulos, a começar por esta economia de meios, sem referência a demolições ou intervenções supérfluas, que poderiam roubar espaço ao jardim ou resultar na desfiguração do CAM. Kuma revela uma compreensão clara dos objetivos essenciais da intervenção: abrir uma nova vertente no jardim Gulbenkian, fazendo-o da forma mais sustentável possível, sem deixar de chamar a atenção para a existência do CAM.

Maqueta da proposta de Kuma para a ala sul do jardim Gulbenkian

Maqueta da proposta de Kengo Kuma para a ala sul do jardim Gulbenkian.

Será que a visão de Kuma chega para que a ala sul pareça tão convidativa e arredada da cidade quanto o resto do jardim Gulbenkian? E ainda para sublinhar o estatuto do CAM como pólo cultural? Estou otimista que sim, mas não tarda muito para que todos possam formar o seu próprio juízo. A conclusão das obras está prevista para 2022. Contem comigo para lá passar com muita expetativa e curiosidade. Para já, fica o elogio a uma pequena exposição que mostrou as diferentes maneiras de reimaginar um dos locais mais acarinhados da cidade.

13/04/21

13 anos a olhar o horizonte

Andei a espreitar o arquivo há uns tempos e apercebi-me que o blog estava quase a fazer anos e casar números: 13 anos no dia 13 de abril. É o meu projeto em linha de maior longevidade, agora que penso nisso, e acho isso espantoso porque cheguei a ter vários blogs antes de criar o horizonte artificial em 2008, e sei como é fácil deixar de nos identificarmos com uma ideia, um nome ou um certo registo na escrita. O que me fez aguentar (até aqui) o horizonte artificial? Algumas ideias dispersas:

  • ter enquadrado o blog, no nome e nos temas, à volta do reconhecimento de que tudo isto de que falo aqui (das flores aos livros e tudo pelo meio), é uma projeção minha, que me guia e também me ilude (nas várias aceções); por outras palavras, é um projeto de identidade em relação ao qual estou muito consciente e essa intenção explícita obriga-me a repensar e questionar todas as minhas intenções: porque quero falar deste tema? deste livro? desta situação? Não fui reler o blog todo (1115 posts, dá para acreditar?), mas tenho quase a certeza de que não me arrependo de nenhum deles. De certeza que reformularia algumas frases, fotografias (da época em que ainda não tinha a minha câmara atual), mas estou muito seguro de que nunca fui injusto com alguém ou alguma situação, uma das maiores preocupações que tenho ao escrever em público.
  • nunca me ter obrigado a uma regularidade ou frequência: tenho alguns anos no arquivo em que escrevi menos de 12 posts (menos do que uma vez por mês), algo que nunca me preocupou excessivamente. Tenho a noção de que tenho poucos leitores regulares (obrigado a quem estiver desse lado) e como super-leitor de blogs sei também uma pequena verdade: o nosso lugar de escrita na vida nunca muda. Há pessoas cuja escrita ou criatividade eu seguiria quaisquer que fossem as vezes que mudassem de endereço. Um template, um endereço, toda a moldura do blog pode mudar, desde que seja possível reconhecer o ponto de vista único daquela pessoa. Munido desta noção, e tendo adotado aqui um certo minimalismo intencional (nos temas que abordo, nas coisas que conto sobre mim mesmo, no próprio template, etc), resta pouco para onde ir ou fugir. Isto é, pouco mudaria, se tivesse de escolher outro endereço, outra forma de falar das coisas que me interessam e estimulam.
  • e isso é algo que vou querer fazer sempre, onde quer que esteja, no que quer que trabalhe, falar das coisas que me estimulam e inspiram a tentar ser uma pessoa melhor todos os dias: é uma das poucas regras que tento não infringir neste diário; uma coisa, a meu ver, mal feita ou criada, não pode ser a faísca (um bocadinho pretensioso, eu sei) que dá origem a um texto neste blog; sim, claro, um reparo ou uma sugestão construtiva, vai passando aqui e ali, porque sou humano, e também acredito por vezes que sei melhor que os outros, mas se isto fosse apenas uma compilação das coisas que detesto, das opiniões precipitadas que formulo de vez em quando e das minhas pequenas invejas que tento não coçar, não seria algo no qual gostaria de me rever. A criatividade dos outros é a minha maior fonte de inspiração, pelo que este blog, como qualquer projeto meu, tem de refletir essa disponibilidade para ser impressionado (um dos traços da minha personalidade que mais treino com este blog), assim como a minha vontade de inspirar em outros novas ideias e formas de ver o mundo.
  • uso o blog como caderno, mas também como agenda, álbum de fotografia e arquivo. Ajuda a organizar ideias, interesses, viagens, etc.
  • escrever ao fim-de-semana ou em alturas em que estou afastado do trabalho: é cada vez mais raro escrever durante a semana, exceto em dias como este; custa-me muito olhar para blogs depois de passar um dia inteiro a olhar para blogs;
  • o nome do blog: continua a parecer-me novo e um bocadinho desajustado, como um sapato novo que ainda não se ajustou à forma do nosso pé e, por isso, ainda não parece exatamente nosso, para bem e para mal — e horizonte artificial ainda me parece ter muitos quilómetros para fazer até me soar esfarrapado;

A quem estiver desse lado, obrigado por lerem, comentarem e, mais importante, deslumbrarem-se juntamente comigo.

10/04/21

Uma ilha de Primavera

Vi há uns dias, por acaso, o filme "A colina das papoilas", de Goro Miyazaki, e fiquei rendido. É um filme de animação, onde a imaginação, claro, pode dar voos maiores, mas é uma obra-prima na forma como idealiza e pinta a presença da Primavera na história central. Apetece entrar em algumas das cenas, nem que seja para descer a abrir aquela colina de bicicleta. Ando com papoilas no pensamento desde então, apesar de continuar limitado ao meu bairro, que pouco ou nada tem em comum com o litoral japonês. O espanto pareceu mais sentido, portanto, quando regressava a casa, esta semana, por um caminho diferente, e dou de caras com o que me ocorre descrever como uma ilha de Primavera na cidade — uma pequena encosta recém-transformada em jardim, por iniciativa da junta de freguesia, cheio de papoilas (sobretudo encarnadas, mas também algumas nos tons rosa e laranja) e de uma espantosa diversidade de outras flores. É mesmo um pequeno festival de flores, tornado mais especial por surgir assim no meio urbano (fica adjacente à Segunda Circular), numa altura em que sair da cidade ainda não parece ser possível. Quem ali passa dificilmente fica indiferente à pequena mancha vermelha de papoilas e já há sinais de ser um espaço estimado por quem mora à volta. As abelhas e os shutterbugs da freguesia, pelo menos, têm ali um motivo novo para ficarem fora de si.

Uma abelha a sondar uma papoila encarnada num jardim de Lisboa

31/03/21

A dar à manivela do mundo

Desafiámos a comunidade a assinalar o dia mundial da Poesia (no passado dia 21), partilhando connosco um poema, e nunca li tanta poesia como nas últimas semanas. Parecia mal se ficasse de fora, por isso aqui fica um favorito meu, de Almada Negreiros, que uma amiga partilhou comigo há uns tempos, e que levanta à luz a ambivalência inerente à criatividade e ociosidade.

Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão atrasado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar pra diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que é fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar à manivela do mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.

22/03/21

Um ano depois

Uma das reações que tive ao último ano foi virar-me (ainda mais) para o meu blog. Sabia que tinha de registar de algum modo a estranheza e dimensão do que estava a acontecer e, confinado em casa, só sobrava a escrita. Um ano depois, sinto que tenho de voltar ao tema e fazer um balanço a partir da minha limitada perspetiva. Limitada, porque só posso realmente falar da forma como vivi este tempo.

Escrever sobre a pandemia

Se havia um ano para escrever ou manter um diário, foi este. Não faltou tema, tempo ou vontade. Falando por mim, a escrita foi distração e escape. Os noticiários não falaram de outra coisa, as redes também não, mas a ansiedade, a estranheza, o isolamento, são coisas de que ninguém pode falar por nós. Além disso, não foram poucas as vezes ao longo deste ano que senti que tinha de calar desabafos ou impressões sobre o rumo da crise, umas vezes feitos de esperanças, outras de pessimismos, para preservar outros à volta. A escrita, sobretudo esta feita em público, longe das redes sociais (não é curioso como na era dos feeds e murais algorítmicos, dois cliques na internet podem parecer léguas de distância?), abre esse espaço ao desabafo e à reflexão em voz alta, sem obrigações com terceiros. Aqui, só lê quem consulta, quem procura, e quem se sente preparado para o fazer, sem precisar de fazer vistoria (pondo um like). Uma certa limitação dos blogs foi, neste caso, um descanso para quem, como eu, precisava de desabafar sem pensar num possível destinatário.

O impacto mental e físico

É difícil separar as águas, entre o que foi causado pela pandemia e os achaques normais que a vida nos reserva, mas a minha saúde mental, pelo menos, não está no ponto em que estava há um ano. O isolamento é um grande fator, claro, mas atribuo a maior quota-parte do desgaste à fricção social introduzida no meu dia-a-dia (quando alguém não respeita a "distância de segurança" na fila do supermercado, por exemplo). Aquilo de que me sinto mais roubado é, precisamente, da paz de espírito de não conhecer a "distância de segurança". Fui sempre alguém muito consciente da proximidade dos outros, seja numa fila ou sala de espera, e toda esta situação tornou-me ainda mais defensivo do meu espaço pessoal.

Lembro-me de escrever aqui sobre a estranheza que senti das primeiras vezes em que saí à rua, em março do ano passado, e me deparei com aqueles dois metros de distância nas filas da padaria ou do supermercado. Trata-se de uma cautela básica, claro, mas a maneira como começou a ser praticada na rua, sem aparente aviso e praticamente da noite para o dia, foi uma das coisas que mais me marcaram dos primeiros tempos da vida em pandemia.

Hoje, sou uma daquelas pessoas que olha constantemente por cima do ombro e, a ser preciso, se vira para trás para pedir, com uma gentileza ártica, para que outros mantenham a distância. Esta vigilância permanente, e a acrimónia que gera, acarreta inevitavelmente um custo psicológico.

Ao nível do isolamento, já antes deste segundo confinamento sentia muita falta de ver caras amigas, ao ponto de notar uma diferença imediata no meu estado de espírito sempre que me cruzo acidentalmente com alguém conhecido na rua. Os confinamentos desregularam de tal forma o convívio (mesmo na rua e em segurança) que o encontro parece ser mais feliz precisamente quando é acidental, como se o acaso nada ficasse a dever à lei. Nunca fui grande fã de encontrar pessoas conhecidas na rua, muito por conta daquela incerteza sobre quem está a reter quem. Agora, já não tenho tanto medo disso: faço questão de parar e mostrar que estou disponível para tentar uma troca mais significativa de palavras.

Fisicamente, as coisas também não estão muito famosas. O impacto mais direto e prolongado foi na duração e qualidade do sono. Há outras causas indiretas (a maior das quais é a vizinhança..), mas nunca mais tive uma daquelas noites completas de sono que nos deixam renovados e recarregados para um dia cheio de atividades fora de casa (até porque esses dias também ficaram para trás). Um problema físico mais recente, ainda sem contornos bem definidos, veio frustrar os meus planos mais urgentes para o desconfinamento (mais e maiores caminhadas na natureza), mas estou a investigar o que se passa e a torcer para que passe rapidamente. 

Janeiro

Receámos o verão, o apelo das praias e do convívio ao ar livre, mas era o inverno que nos reservava o maior pesadelo. Por um lado, o cansaço com as cautelas impostas pela pandemia, aparentemente sob controlo, por outro, a noção de que seria quase impossível, por mais restrições que fossem decretadas, cancelar o convívio da época natalícia. Chegou ao ponto em que parecia que toda a gente conhecia alguém com a suspeita de estar infetado ou, pior, que perdeu alguém para a doença.

Sobre o período que se seguiu ao Natal, tenho a sensação de que esgotámos as formas tradicionais de falar da morte em grande escala. Um forte temporal ou grande incêndio são fenómenos extremos em que a tragédia parece pontuar o nosso quotidiano. A pandemia, porém, está a revelar ser uma suspensão prolongada da normalidade. As convenções (mediáticas, conversacionais, sociais) a que nos habituámos para enquadrar a dor e a morte parecem ser insuficientes, senão mesmo desajustadas, num tempo em que nem um abraço sai espontâneo. Nessa dimensão muito específica, de sentir a necessidade de calar o espanto e a novidade, imagino que viver em pandemia não é muito diferente de viver em guerra.

Um mapa de não-ditos

Podia fazer um mapa das coisas que ficaram por dizer ou desabafar nestes doze meses. As mais desconfortáveis, claro, estão mais próximas de mim. A forma como alguns silêncios se instalaram, com pessoas que admiro e que me fazem falta, continua a ser, para mim, um dos aspetos mais inesperados deste último ano — e um dos mais difíceis de abordar pela escrita.

Quando toda a gente passa, ao mesmo tempo, por uma interrupção tão profunda e prolongada das suas rotinas, consigo perceber como algumas pessoas podem sentir que não é preciso ou desejável aprofundar mais o tema. Ninguém quer ficar preso num elevador com alguém que sofre de claustrofobia, certo? Acontece que a perspetiva oposta também não é muito melhor: não quereria ficar preso num elevador com alguém completamente desligado da situação (seja pelo humor, por exemplo, ou pela negação, mais perigosa). Existe um meio termo entre o pânico e a apatia, claro. A dificuldade está em encontrá-lo e mantê-lo, de dia para dia, com pessoas diferentes. Essa adaptação constante perante os outros, na forma como me mostrava ora indiferente, ora preocupado em relação à pandemia, foi outra das coisas que mexeu muito comigo neste último ano.

Os próximos tempos

A maioria dos problemas que tenho em mãos não foram causados ou agravados pela pandemia. O meu quotidiano deu uma cambalhota, mas o grande impacto humano e económico foi sentido por outros. É nesse limiar da minha experiência que me sinto obrigado a ler ou escutar o que se passa no país e a confiar na ciência, na medicina e, mais do que nunca, na democracia.

06/03/21

A cor do horizonte

Isabel Salema, numa notícia do Público, sobre a cor escolhida para a renovação da fachada do Teatro Nacional de São Carlos:

Não será o azul do complexo da Marinha na Ribeira das Naus, nem de outros edifícios vizinhos do Chiado que exibem um azul-bebé-desmaiado. Ainda estão a ser feitos os últimos testes cromáticos, mas o Teatro Nacional de São Carlos (TNSC), em Lisboa, que há décadas ostenta uma fachada amarelo-ocre, deverá passar a exibir uma nova cor quando os andaimes e a tela que cobrem a fachada desde Novembro forem retirados. Para já, chamemos-lhe a “cor do horizonte”.

É a primeira vez que encontro uma referência a esta cor, demasiado irresistível para não catalogar aqui.

28/02/21

Teoria das cores

Uma ameixeira-de-jardim em flor

Uma ameixeira-de-jardim em flor, aqui perto de casa, em meados de fevereiro.

As ameixeiras-de-jardim em flor sinalizam mais o clímax do inverno do que a chegada da primavera, e o timing não parece ser acidental. A minha teoria pessoal é de que o rosa das suas flores destaca-se mais com os céus cinzentos de fevereiro do que com os céus mais soalheiros de março. Uma vantagem competitiva em relação a outras espécies, porventura, ou uma árvore simplesmente que gosta de ter todas as atenções só para si.

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