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horizonte artificial

ideias e achados.

Errata

Tive um dia tão mau que não resisto a assinalar a ironia que existe em ter chegado a publicar um post intitulado "Dias perfeitos". O dia acabou por se revelar tudo menos isso. Não foi simples, não foi bom e, o pior de tudo, é que só me tenho a mim para culpar. Tento não alimentar o meu ego, mas hoje dei-lhe uma migalha e o resultado foi um tropeção de todo o tamanho. Fica aqui registado para a posteridade.

Dias perfeitos

Notas soltas do filme mais recente de Wim Wenders

A calma e o sentido de segurança que as ruas de Tóquio emanam. A título de exemplo, Hirayama, o protagonista, nunca tranca a bicicleta nas suas deslocações. É cinema, eu sei, mas não me importava de viver numa cidade assim. 
O conceito de "árvore amiga", que interpreto como sendo a árvore preferida do quotidiano de cada um (também tenho uma).
A artificialidade de Tóquio e as suas ilhas de natureza, com os apontamentos de cor (e humor tecnológico) dos seus WCs.
É um filme que dá a sensação de uma hora passada na vida (quotidiana) de um amigo. Dá conforto acompanhar alguém nas suas rotinas diárias. O mundo fica um sítio um bocadinho mais previsível assim. Aliás, a sobrinha do protagonista faz aquilo que, no fundo, nós estamos a fazer através do ponto de vista da câmara.
A "hora" mágica do almoço. Fez-me lembrar as minhas próprias horas de almoço passadas nos jardins da Gulbenkian durante o verão.
O silêncio, o elemento que permite ouvir, todos os dias à mesma hora da madrugada, a varredura das folhas nas ruas, e o que mais invejo nesta cidade-filme revelada por Wenders.

PS: Se isto não chegar para aguçar a curiosidade, leiam este post no Burro Velho sobre o filme.

Um breve rio

"Hades não há. Somos um breve rio que vem do fundo e desliza entre falésias, entre países obscuros onde a febre da noite principia."

— Casimiro de Brito, em "A arte da respiração"

Telmo

Na semana passada, perdi um amigo. Falamos tanto em perder amigos, para as conveniências, para as redes sociais, para as obrigações da vida, e de repente, a Morte devolve-nos o verdadeiro significado da palavra perder. Não o via há mais de um ano e a nossa última troca de mensagens remonta a maio passado, mas nem isso suavizou o golpe de saber que se perdeu um dos "bons" deste mundo, alguém cheio de projetos (a título de exemplo, fundou, e ajudava a dinamizar, o Meusjogos.pt, um blog que cresceu para se tornar uma referência no meio nacional dos videojogos) e universalmente acarinhado por quem travava conhecimento consigo.

Passada uma semana, ainda me parece impossível. A sua conta no Instagram, onde trocávamos mensagens, continua intacta e um reflexo dos interesses que o realizavam e moviam, incluindo a sua paixão pelos The Gift (um daqueles entusiasmos que nos surpreendem e inspiram a procurar outro que possamos chamar de nosso). Passei por lá várias vezes nos últimos dias, para tentar conciliar estas duas ideias aparentemente irreconciliáveis na minha mente: a ideia de que alguém assim existiu e, agora, não existe mais, senão num servidor algures e nas recordações de quem teve a sorte de o conhecer.

Este texto nasce de uma obrigação ingénua, pungente, de lhe "devolver" alguma (ínfima) existência e  de fixar esta sensação de perda irreversível. Não me considero, de todo, um amigo negligente ou ausente, mas sinto que até eu vou ter de mudar um pouco — e perder o medo do "primeiro passo". A vida é mesmo, mesmo, demasiado curta para guardarmos as nossas simpatias na gaveta.

Um bom conselho de 2023

Há uns tempos um amigo publicou uma story no instagram a oferecer um bom conselho em troca de outro e achei a ideia engraçada ao ponto de pensar na "pérola de sabedoria" que teria para dar. Não é especialmente original, mas o que me ocorreu, com base no meu ano, surpreendeu-me pela sua claridade: é melhor explicar do que reagir a um problema.

Passei o último ano com dificuldades acrescidas de sono e concentração devido aos hábitos dos meus novos vizinhos, e nos últimos meses dediquei-me a explicar-lhes (e a quem quisesse ouvir) os inconvenientes que causam a terceiros quando perturbam as horas de sossego daqueles à sua volta.

Não tenho qualquer interesse em hostilizar outros, sobretudo alguém com quem sou obrigado a cruzar-me numa base diária, por isso optei pela via do diálogo. Já bati à porta deles umas quatro ou cinco vezes para reclamar, educadamente, sobre as várias, e repetidas, situações em causa. Ao fim de algum tempo, com muito tato e objetividade, meti ainda o senhorio deles ao barulho. Se funcionou, ainda é uma questão em aberto, mas sei que teria sido um ano bem pior se tivesse optado pela tradicional reação a quente (do chamar a polícia ao fazer-lhes o "mesmo").

Por um lado, faz-me confusão chamar desconhecidos para resolver assuntos menores que dizem respeito à convivência diária entre pessoas (minimamente civilizadas) e que não precisam de ocupar o tempo e recursos da polícia. Por outro, vamos continuar a conviver e a cruzar-nos quase todos os dias, sabe-se lá por quanto tempo, pelo que se impõe cultivar um mínimo de cordialidade. É por tudo isto que me recuso a ser o vizinho azedo e vingativo, mesmo que os meus vizinhos, pelas suas atitudes, me queiram ver nesse papel.

Não sei até que ponto o meu próprio conselho é eficaz, e pode ajudar alguém numa situação parecida, mas se tivesse de fazer um balanço do meu ano, teria de mencionar as horas que passei acordado durante a madrugada a pensar numa saída para a frustração causada pela falta de urbanidade de terceiros. Se é verdade que ainda não tenho a certeza de a ter encontrado, pelo menos sinto que estou no bom caminho.

Se o "meu" conselho funcionar com alguém desse lado, não deixem de avisar.

Vila Nova da Barquinha no outono

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Não gosto de fazer posts com muitas fotografias corridas aqui no blog, porque me parece que não encaixa bem no formato de "postal" a que me fui habituando, mas vou abrir uma exceção para vos mostrar pela minha lente um dos meus sítios favoritos. Vila Nova da Barquinha fica a 1h30 de comboio de Lisboa e já lá tinha estado antes, só que este ano dei por mim a voltar algumas vezes e acabei por me apaixonar por esta pacata vila à beira do Tejo (com a curiosidade histórica do rio ali passar por teimoso e laborioso engenho humano). Deixo algumas fotografias da minha mais recente visita, com direito às cores outonais e, claro, bancos. Apetecia-me viver ali e poder experimentar horas de leituras em cada um deles, nas quatro estações do ano. Que sorte, poder viver num sítio assim.

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As fotografias têm o contraste um bocadinho carregado, mas prometo que é apenas para fazer justiça ao verdadeiro cenário. Se puderem, façam uma escapadinha por lá, e não deixem de experimentar (e reservar) o Loreto, um dos restaurantes a que mais gostei de voltar este ano (a luz junto ao rio, a simpatia no atendimento e o esmero dos pratos, com um toque médio-oriental) e de visitar o Borboletário Tropical de Constância (a 15 minutos de carro e, dependendo dos horários, também acessível de comboio).

PS: Já depois de publicar o post, descobri que foi destacado na homepage do SAPO. Agradeço a simpatia da equipa SAPO (da qual faço parte e a quem não pedi ou sugeri o destaque) e aproveito para recomendar um alojamento na Barquinha: os Sonetos do Tejo. Fica situado em frente ao parque (nas fotografias acima) e é de uma hospitalidade irreprensível. Se forem na altura certa, até se arriscam a levar para casa algumas tangerinas crescidas na propriedade.

Follow friday #4: Arca de Darwin

É um dos poucos blogs de fotografia e natureza que ainda resistem na blogosfera portuguesa e dá-me muito orgulho que esteja no nosso bairro. Falo da Arca de Darwin, que já coleciona maravilhas e curiosidades da natureza desde 2012 e podia (devia) ter dado uma crónica num jornal. Para nossa sorte, deu um blog, que podemos seguir facil e gratuitamente aqui ao lado. Não é raro pesquisar informação sobre uma espécie qualquer de flor ou árvore e o blog do Miguel ser o primeiro (e mais esclarecedor) resultado no Google. A esse conhecimento, o Miguel junta ainda um grande talento para a fotografia que invejo e me inspira continuamente. Não é preciso melhor recomendação do que essa.

Sobre manter um diário

"É superficial encarar um diário apenas como um recetáculo dos pensamentos privados e secretos de cada um — como um confidente surdo, mudo e analfabeto. No diário não só me exprimo de uma forma mais aberta do que faria com qualquer pessoa, mas crio-me a mim própria. O diário é um veículo para o meu sentido de individualidade. Representa-me como emocional e espiritualmente independente. Em consequência (infelizmente) não é um registo simples da minha vida diária — em muitos casos — oferece uma alternativa ela."

— Susan Sontag, em Renascer.