Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

13/04/21

13 anos a olhar o horizonte

Andei a espreitar o arquivo há uns tempos e apercebi-me que o blog estava quase a fazer anos e casar números: 13 anos no dia 13 de abril. É o meu projeto em linha de maior longevidade, agora que penso nisso, e acho isso espantoso porque cheguei a ter vários blogs antes de criar o horizonte artificial em 2008, e sei como é fácil deixar de nos identificarmos com uma ideia, um nome ou um certo registo na escrita. O que me fez aguentar (até aqui) o horizonte artificial? Algumas ideias dispersas:

  • ter enquadrado o blog, no nome e nos temas, à volta do reconhecimento de que tudo isto de que falo aqui (das flores aos livros e tudo pelo meio), é uma projeção minha, que me guia e também me ilude (nas várias aceções); por outras palavras, é um projeto de identidade em relação ao qual estou muito consciente e essa intenção explícita obriga-me a repensar e questionar todas as minhas intenções: porque quero falar deste tema? deste livro? desta situação? Não fui reler o blog todo (1115 posts, dá para acreditar?), mas tenho quase a certeza de que não me arrependo de nenhum deles. De certeza que reformularia algumas frases, fotografias (da época em que ainda não tinha a minha câmara atual), mas estou muito seguro de que nunca fui injusto com alguém ou alguma situação, uma das maiores preocupações que tenho ao escrever em público.
  • nunca me ter obrigado a uma regularidade ou frequência: tenho alguns anos no arquivo em que escrevi menos de 12 posts (menos do que uma vez por mês), algo que nunca me preocupou excessivamente. Tenho a noção de que tenho poucos leitores regulares (obrigado a quem estiver desse lado) e como super-leitor de blogs sei também uma pequena verdade: o nosso lugar de escrita na vida nunca muda. Há pessoas cuja escrita ou criatividade eu seguiria quaisquer que fossem as vezes que mudassem de endereço. Um template, um endereço, toda a moldura do blog pode mudar, desde que seja possível reconhecer o ponto de vista único daquela pessoa. Munido desta noção, e tendo adotado aqui um certo minimalismo intencional (nos temas que abordo, nas coisas que conto sobre mim mesmo, no próprio template, etc), resta pouco para onde ir ou fugir. Isto é, pouco mudaria, se tivesse de escolher outro endereço, outra forma de falar das coisas que me interessam e estimulam.
  • e isso é algo que vou querer fazer sempre, onde quer que esteja, no que quer que trabalhe, falar das coisas que me estimulam e inspiram a tentar ser uma pessoa melhor todos os dias: é uma das poucas regras que tento não infringir neste diário; uma coisa, a meu ver, mal feita ou criada, não pode ser a faísca (um bocadinho pretensioso, eu sei) que dá origem a um texto neste blog; sim, claro, um reparo ou uma sugestão construtiva, vai passando aqui e ali, porque sou humano, e também acredito por vezes que sei melhor que os outros, mas se isto fosse apenas uma compilação das coisas que detesto, das opiniões precipitadas que formulo de vez em quando e das minhas pequenas invejas que tento não coçar, não seria algo no qual gostaria de me rever. A criatividade dos outros é a minha maior fonte de inspiração, pelo que este blog, como qualquer projeto meu, tem de refletir essa disponibilidade para ser impressionado (um dos traços da minha personalidade que mais treino com este blog), assim como a minha vontade de inspirar em outros novas ideias e formas de ver o mundo.
  • uso o blog como caderno, mas também como agenda, álbum de fotografia e arquivo. Ajuda a organizar ideias, interesses, viagens, etc.
  • escrever ao fim-de-semana ou em alturas em que estou afastado do trabalho: é cada vez mais raro escrever durante a semana, exceto em dias como este; custa-me muito olhar para blogs depois de passar um dia inteiro a olhar para blogs;
  • o nome do blog: continua a parecer-me novo e um bocadinho desajustado, como um sapato novo que ainda não se ajustou à forma do nosso pé e, por isso, ainda não parece exatamente nosso, para bem e para mal — e horizonte artificial ainda me parece ter muitos quilómetros para fazer até me soar esfarrapado;

A quem estiver desse lado, obrigado por lerem, comentarem e, mais importante, deslumbrarem-se juntamente comigo.

10/04/21

Uma ilha de Primavera

Vi há uns dias, por acaso, o filme "A colina das papoilas", de Goro Miyazaki, e fiquei rendido. É um filme de animação, onde a imaginação, claro, pode dar voos maiores, mas é uma obra-prima na forma como idealiza e pinta a presença da Primavera na história central. Apetece entrar em algumas das cenas, nem que seja para descer a abrir aquela colina de bicicleta. Ando com papoilas no pensamento desde então, apesar de continuar limitado ao meu bairro, que pouco ou nada tem em comum com o litoral japonês. O espanto pareceu mais sentido, portanto, quando regressava a casa, esta semana, por um caminho diferente, e dou de caras com o que me ocorre descrever como uma ilha de Primavera na cidade — uma pequena encosta recém-transformada em jardim, por iniciativa da junta de freguesia, cheio de papoilas (sobretudo encarnadas, mas também algumas nos tons rosa e laranja) e de uma espantosa diversidade de outras flores. É mesmo um pequeno festival de flores, tornado mais especial por surgir assim no meio urbano (fica adjacente à Segunda Circular), numa altura em que sair da cidade ainda não parece ser possível. Quem ali passa dificilmente fica indiferente à pequena mancha vermelha de papoilas e já há sinais de ser um espaço estimado por quem mora à volta. As abelhas e os shutterbugs da freguesia, pelo menos, têm ali um motivo novo para ficarem fora de si.

Uma abelha a sondar uma papoila encarnada num jardim de Lisboa

31/03/21

A dar à manivela do mundo

Desafiámos a comunidade a assinalar o dia mundial da Poesia (no passado dia 21), partilhando connosco um poema, e nunca li tanta poesia como nas últimas semanas. Parecia mal se ficasse de fora, por isso aqui fica um favorito meu, de Almada Negreiros, que uma amiga partilhou comigo há uns tempos, e que levanta à luz a ambivalência inerente à criatividade e ociosidade.

Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão atrasado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar pra diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que é fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar à manivela do mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.

22/03/21

Um ano depois

Uma das reações que tive ao último ano foi virar-me (ainda mais) para o meu blog. Sabia que tinha de registar de algum modo a estranheza e dimensão do que estava a acontecer e, confinado em casa, só sobrava a escrita. Um ano depois, sinto que tenho de voltar ao tema e fazer um balanço a partir da minha limitada perspetiva. Limitada, porque só posso realmente falar da forma como vivi este tempo.

Escrever sobre a pandemia

Se havia um ano para escrever ou manter um diário, foi este. Não faltou tema, tempo ou vontade. Falando por mim, a escrita foi distração e escape. Os noticiários não falaram de outra coisa, as redes também não, mas a ansiedade, a estranheza, o isolamento, são coisas de que ninguém pode falar por nós. Além disso, não foram poucas as vezes ao longo deste ano que senti que tinha de calar desabafos ou impressões sobre o rumo da crise, umas vezes feitos de esperanças, outras de pessimismos, para preservar outros à volta. A escrita, sobretudo esta feita em público, longe das redes sociais (não é curioso como na era dos feeds e murais algorítmicos, dois cliques na internet podem parecer léguas de distância?), abre esse espaço ao desabafo e à reflexão em voz alta, sem obrigações com terceiros. Aqui, só lê quem consulta, quem procura, e quem se sente preparado para o fazer, sem precisar de fazer vistoria (pondo um like). Uma certa limitação dos blogs foi, neste caso, um descanso para quem, como eu, precisava de desabafar sem pensar num possível destinatário.

O impacto mental e físico

É difícil separar as águas, entre o que foi causado pela pandemia e os achaques normais que a vida nos reserva, mas a minha saúde mental, pelo menos, não está no ponto em que estava há um ano. O isolamento é um grande fator, claro, mas atribuo a maior quota-parte do desgaste à fricção social introduzida no meu dia-a-dia (quando alguém não respeita a "distância de segurança" na fila do supermercado, por exemplo). Aquilo de que me sinto mais roubado é, precisamente, da paz de espírito de não conhecer a "distância de segurança". Fui sempre alguém muito consciente da proximidade dos outros, seja numa fila ou sala de espera, e toda esta situação tornou-me ainda mais defensivo do meu espaço pessoal.

Lembro-me de escrever aqui sobre a estranheza que senti das primeiras vezes em que saí à rua, em março do ano passado, e me deparei com aqueles dois metros de distância nas filas da padaria ou do supermercado. Trata-se de uma cautela básica, claro, mas a maneira como começou a ser praticada na rua, sem aparente aviso e praticamente da noite para o dia, foi uma das coisas que mais me marcaram dos primeiros tempos da vida em pandemia.

Hoje, sou uma daquelas pessoas que olha constantemente por cima do ombro e, a ser preciso, se vira para trás para pedir, com uma gentileza ártica, para que outros mantenham a distância. Esta vigilância permanente, e a acrimónia que gera, acarreta inevitavelmente um custo psicológico.

Ao nível do isolamento, já antes deste segundo confinamento sentia muita falta de ver caras amigas, ao ponto de notar uma diferença imediata no meu estado de espírito sempre que me cruzo acidentalmente com alguém conhecido na rua. Os confinamentos desregularam de tal forma o convívio (mesmo na rua e em segurança) que o encontro parece ser mais feliz precisamente quando é acidental, como se o acaso nada ficasse a dever à lei. Nunca fui grande fã de encontrar pessoas conhecidas na rua, muito por conta daquela incerteza sobre quem está a reter quem. Agora, já não tenho tanto medo disso: faço questão de parar e mostrar que estou disponível para tentar uma troca mais significativa de palavras.

Fisicamente, as coisas também não estão muito famosas. O impacto mais direto e prolongado foi na duração e qualidade do sono. Há outras causas indiretas (a maior das quais é a vizinhança..), mas nunca mais tive uma daquelas noites completas de sono que nos deixam renovados e recarregados para um dia cheio de atividades fora de casa (até porque esses dias também ficaram para trás). Um problema físico mais recente, ainda sem contornos bem definidos, veio frustrar os meus planos mais urgentes para o desconfinamento (mais e maiores caminhadas na natureza), mas estou a investigar o que se passa e a torcer para que passe rapidamente. 

Janeiro

Receámos o verão, o apelo das praias e do convívio ao ar livre, mas era o inverno que nos reservava o maior pesadelo. Por um lado, o cansaço com as cautelas impostas pela pandemia, aparentemente sob controlo, por outro, a noção de que seria quase impossível, por mais restrições que fossem decretadas, cancelar o convívio da época natalícia. Chegou ao ponto em que parecia que toda a gente conhecia alguém com a suspeita de estar infetado ou, pior, que perdeu alguém para a doença.

Sobre o período que se seguiu ao Natal, tenho a sensação de que esgotámos as formas tradicionais de falar da morte em grande escala. Um forte temporal ou grande incêndio são fenómenos extremos em que a tragédia parece pontuar o nosso quotidiano. A pandemia, porém, está a revelar ser uma suspensão prolongada da normalidade. As convenções (mediáticas, conversacionais, sociais) a que nos habituámos para enquadrar a dor e a morte parecem ser insuficientes, senão mesmo desajustadas, num tempo em que nem um abraço sai espontâneo. Nessa dimensão muito específica, de sentir a necessidade de calar o espanto e a novidade, imagino que viver em pandemia não é muito diferente de viver em guerra.

Um mapa de não-ditos

Podia fazer um mapa das coisas que ficaram por dizer ou desabafar nestes doze meses. As mais desconfortáveis, claro, estão mais próximas de mim. A forma como alguns silêncios se instalaram, com pessoas que admiro e que me fazem falta, continua a ser, para mim, um dos aspetos mais inesperados deste último ano — e um dos mais difíceis de abordar pela escrita.

Quando toda a gente passa, ao mesmo tempo, por uma interrupção tão profunda e prolongada das suas rotinas, consigo perceber como algumas pessoas podem sentir que não é preciso ou desejável aprofundar mais o tema. Ninguém quer ficar preso num elevador com alguém que sofre de claustrofobia, certo? Acontece que a perspetiva oposta também não é muito melhor: não quereria ficar preso num elevador com alguém completamente desligado da situação (seja pelo humor, por exemplo, ou pela negação, mais perigosa). Existe um meio termo entre o pânico e a apatia, claro. A dificuldade está em encontrá-lo e mantê-lo, de dia para dia, com pessoas diferentes. Essa adaptação constante perante os outros, na forma como me mostrava ora indiferente, ora preocupado em relação à pandemia, foi outra das coisas que mexeu muito comigo neste último ano.

Os próximos tempos

A maioria dos problemas que tenho em mãos não foram causados ou agravados pela pandemia. O meu quotidiano deu uma cambalhota, mas o grande impacto humano e económico foi sentido por outros. É nesse limiar da minha experiência que me sinto obrigado a ler ou escutar o que se passa no país e a confiar na ciência, na medicina e, mais do que nunca, na democracia.

06/03/21

A cor do horizonte

Isabel Salema, numa notícia do Público, sobre a cor escolhida para a renovação da fachada do Teatro Nacional de São Carlos:

Não será o azul do complexo da Marinha na Ribeira das Naus, nem de outros edifícios vizinhos do Chiado que exibem um azul-bebé-desmaiado. Ainda estão a ser feitos os últimos testes cromáticos, mas o Teatro Nacional de São Carlos (TNSC), em Lisboa, que há décadas ostenta uma fachada amarelo-ocre, deverá passar a exibir uma nova cor quando os andaimes e a tela que cobrem a fachada desde Novembro forem retirados. Para já, chamemos-lhe a “cor do horizonte”.

É a primeira vez que encontro uma referência a esta cor, demasiado irresistível para não catalogar aqui.

28/02/21

Teoria das cores

Uma ameixeira-de-jardim em flor

Uma ameixeira-de-jardim em flor, aqui perto de casa, em meados de fevereiro.

As ameixeiras-de-jardim em flor sinalizam mais o clímax do inverno do que a chegada da primavera, e o timing não parece ser acidental. A minha teoria pessoal é de que o rosa das suas flores destaca-se mais com os céus cinzentos de fevereiro do que com os céus mais soalheiros de março. Uma vantagem competitiva em relação a outras espécies, porventura, ou uma árvore simplesmente que gosta de ter todas as atenções só para si.

25/02/21

A janela do envelope

Inspirados no twitter, fizemos uma ligeira alteração, esta semana, à forma como apresentamos, nas nossas listagens públicas (exemplo, a lista de posts com a tag viagens), os excertos dos posts publicados na plataforma. Trocámos a ordem do texto e da eventual fotografia (agora, o excerto começa pelo texto) e limitámos a altura da imagem, centrando-a no espaço que lhe está reservado. É uma alteração insignificante, em páginas relativamente pouco utilizadas, mas tenho dado por mim deslumbrado com a forma como algumas imagens encaixam na perfeição na "janela do envelope". É uma boa analogia, porque parte do meu dia consiste em navegar nestas páginas, e espreitar o que vai sendo publicado — no fundo, espiar correspondência alheia. Já agora, não deixem de ler o post da Ana. Se algum dia visitar Atenas, vou lembrar-me dele.

24/02/21

Auto-poesia

Inventei um sistema de fintar a preguiça de ler poesia: deixá-la no carro, para aquelas alturas em que não resta literalmente mais nada para fazer. Chamei-lhe auto-poesia e é uma das minhas mais imaginativas (e desesperadas) ideias de 2020. O primeiro livro de poemas que usei para testar este sistema, e o primeiro em anos que consigo terminar de ler, foi Jóquei, de Matilde Campilho, publicado em 2014.

Não consigo fazer-lhe um elogio mais completo do que aquele que Pedro Mexia lhe dedicou, mas achei que podia falar dele aqui, sobretudo na sequência do post anterior, sobre o processamento que a escrita faz da vida. O Jóquei é um exemplo muito claro disso, e do que a poesia pode ser. Passei o livro a pensar para os meus botões como gostaria de ter a habilidade para fixar em poemas algumas das coisas que só a mim podem ter acontecido (naquele minuto, naquela rua, com aquelas pessoas, com a minha atenção). Vou fixando algumas delas aqui no blog, pela escrita ou fotografia, porque acho que preciso dessas construções, mas também porque me parecem infinitamente mais fáceis de mexer nelas. Além do grande domínio da língua que exige, a poesia é biografia sem bilhete de identidade (ou, para usar uma expressão minha, é fotografia sem metadata). Implica prescindir de uma série de coisas que estamos formatados a pedir ao texto, a começar pela explicação. O poema é um texto que não sente necessidade de se explicar. E isso vai contra tudo o que fui habituado, no entretenimento e no jornalismo, a esperar do texto.

A analogia não deve ser nova, mas a poesia parece estar para a prosa, como o bonsai está para a jardinagem. No fundo, a poesia também é uma arte da miniaturização, feita de uma atenção extrema às unidades mínimas do sentido (as palavras?). A esse nível "microscópico", a escolha de uma palavra pode fazer toda a diferença. Fascina-me imaginar, por exemplo, que um poeta, desafiado a isso, consiga escrever um poema a partir de um hemograma (sim, acredito que já tenha sido feito).

A propósito de tudo isto, Roland Barthes tem um pensamento, no seu ensaio "O prazer da leitura", que me parece valer muito a pena trazer para aqui:

Valéry dizia: «Não pensamos palavras, só pensamos frases.» Dizia-o porque era escritor. Chama-se escritor, não àquele que exprime o seu pensamento, a sua paixão ou a sua imaginação por frases, mas sim àquele que pensa frases: um Pensa-Frase (isto é: aquele que não é nem um pensador nem um fraseador).

É isso que um escritor faz. Inventa, pensa frases, que são, no fundo, novas formas de ver o mundo. A escrita, seja poética ou não, é uma máquina de reinventar o mundo.

13/02/21

Como criar um blog de sucesso?

Este texto não é realmente sobre aquilo que o título sugere que é

Comecei a escrever este post há uns anos, só que fui-me esquecendo dele nos rascunhos, e quando dei por isso, deixaram de me fazer a pergunta no título. Não quis desperdiçar a chama-piloto, por isso decidi avançar mesmo assim com o post e alinhar alguns pensamentos algo dispersos sobre isto de ler e escrever blogs.

Quem chegou aos blogs nos primeiros anos atrás de uma certa ideia de sucesso, ligada ao lifestyle e à ostentação, descobriu entretanto o Instagram e não olhou duas vezes para trás. Vistos desse ângulo morto, é inegável que os blogs perderam mediatismo e apelo económico. Se é para mostrar, e comercializar aquilo que pode ser mostrado, haverá melhor meio para o fazer do que uma plataforma onde o tempo estimado de consumo e interação é medido em segundos? E atenção, isto não é uma crítica. Adoro a ideia na base do Instagram, e que o próprio nome evoca: a ideia de um telegrama visual. Sou utilizador diário há mais de dez anos e, apesar dos contras (aos quais precisaria de dedicar um post inteiro), continua a ser uma plataforma importante para a minha criatividade. Posto isto, o que resta aos blogs é aquilo que está na génese deste formato de publicação, e continua a motivar a maioria dos que por aqui andam: o desafio criativo e um sentido de realização pessoal pela palavra escrita.

A escrita é das poucas formas de criatividade que não dá para falsificar. Sim, podemos copiar, plagiar, até mesmo contratar um escritor-sombra, mas ninguém se safa com isso a médio e longo prazo, especialmente num blog, em que cada post funciona como certificado de autenticidade do próximo. O estilo da linguagem, a diversidade do vocabulário, até a forma como se separam os parágrafos (sem linhas vazias, por favor) servem como marcadores textuais da autoria. E depois há a autenticidade do que é exposto, que não é tão importante. Mesmo a esse nível, contudo, sei que há boas probabilidades de estar a ler uma experiência em primeira mão quando tropeço numa analogia inesperada, que ilumina um tema ou acontecimento e surpreende pela sua especificidade. Não tem de ser necessariamente um jogo de palavras bem conseguido, basta ser um cruzamento de referências que só podia ter ocorrido àquela pessoa, naquele momento, no encontro entre memória e situação, e que revela uma nova forma de ver algo.

Escrever, para mim, é a forma mais difícil de criar. Segue-se que escrever bem, com originalidade e verve, seja ainda mais árduo de alcançar. Não acredito no nasce-se com isso, mas pela minha experiência como leitor, também não é algo que vejo acontecer por acidente ou mera persistência. É por isso que é tão mais fácil mostrar o que aconteceu com uma fotografia do que contá-lo por escrito. A imagem digital é uma criação automática na qual a nossa intenção serve apenas de gatilho. Tudo o que acontece entre o disparo e o resultado final faz curto-circuito ao pensamento. Escrever é filtrar a existência pela linguagem, com todas as suas limitações e exigências (de tempo, cultura geral e literária, etc).

Parece impossível que não deixemos uma atividade tão exigente do nosso raciocínio e imaginação a quem a tem de praticar profissionalmente numa base diária, como os escritores e os jornalistas. Sinto uma réstia de inveja por quem se propõe a trabalhar para uma agência noticiosa, qual linha de produção de textos, e tem de estar preparado, a todo o momento, a escrever sobre qualquer tema, seja um atentado terrorista de proporções e contornos inéditos ou um fenómeno meteorológico raramente visto. A prática e as convenções jornalísticas ajudam, claro, mas aspiro a essa capacidade para escrever sobre tudo.

A minha curta experiência no jornalismo, todavia, confrontou-me com as minhas limitações como autor. Qualquer que fosse o tipo de artigo (uma curta adaptada da Lusa ou um raro artigo de abertura da secção), gastava sempre largas horas a martelar o Back Space e a recauchutar o texto. Só já muito em cima da hora de fecho é que lá me via forçado a escolher um enquadramento e a correr com ele. Por vezes, ia contra a parede.

Mesmo hoje, depois de mais de mil posts publicados aqui, continuo a debater-me com as mesmas dificuldades. A grande diferença no blog, claro, é que não há hora de fecho (este post, por exemplo, esteve a maturar vários dias nos rascunhos) e, mesmo que escape algum erro flagrante, posso vir aqui editá-lo. O papel não confere esse beneplácito, como descobri no dia da publicação do meu primeiro artigo de abertura de secção no DN (uma oportunidade cara a qualquer estagiário). O orgulho desse dia deu rapidamente lugar ao desengano, quando abri um exemplar do jornal à procura do meu artigo e percebo que repeti a mesma palavra, não duas, mas três vezes (!) na introdução. Lembro-me de ter largado o jornal como se tivesse saído dele um aranhiço e de ter decidido fazer tábua rasa do assunto, esquecendo que o artigo existira — se não podia estar orgulhoso daquele texto, para mim só podia contar como dissabor.

A escrita é a pior das matemáticas, na medida em que recusa fórmulas e ilude qualquer explicação. Não é raro dar por mim a ler duas, três vezes um texto que me chamou a atenção, na ânsia de aceder aos segredos da sua lógica interna. Não é preciso sequer que o tema me interesse especialmente ou que o autor tenha procurado usar um registo diferente do habitual. Basta uma certa cadência, imediatamente reconhecível, para me cativar. Normalmente, são textos que só imagino como tendo sido escritos de rajada, com hesitações mínimas por parte do autor.

É por tudo isto que falar de sucesso num meio baseado na escrita parece-se um bocadinho a falar de sucesso no seio de um clube de xadrez. Existe alguém que se inscreva num campeonato de xadrez pela fama? O desafio do jogo, o estímulo mental do taticismo e a recompensa do xeque-mate valem por si. Da mesma forma, acredito que uma boa parte da motivação para manter um blog esteja ligada à satisfação íntima causada pela escrita ou, para ser mais rigoroso, à satisfação obtida pelo processamento que a escrita faz do pensamento (ou deslumbramento). Há casos em que uma fotografia pode valer por mil palavras, mas há coisas (sensações, memórias, pensamentos) que só a escrita é capaz de fixar e contar.

Mais sobre mim

imagem de perfil

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.