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06/02/19

A minha rotina

A meio da semana passada, foi preciso formatar o computador que uso e instalar um novo sistema operativo. Com o alojamento na nuvem e os mecanismos de sincronização, repor tudo não foi exatamente como começar do zero, mas fez-me pensar nos serviços e atalhos que fazem a minha rotina diária. Achei que listá-los aqui podia dar um post interessante a quem, como eu, gosta de espreitar as rotinas dos outros.

 

Ao computador

O Firefox é o meu navegador de eleição desde que comecei a trabalhar e que me deparei com as limitações do Internet Explorer. Utilizo o mecanismo de sincronização do Firefox para ter os mesmos atalhos de navegação (vulgo, marcadores) em qualquer computador que esteja. Não uso ad-blockers nem nada do género, mas tiro sempre algum tempo para alterar as configurações pré-definidas e restringir o uso de cookies ao máximo (mais sobre isto abaixo).

Os meus atalhos mais usados estão relacionados com o trabalho: o SAPO Blogs, a página dos posts mais recentes publicados na plataforma (para seguir o vai sendo publicado), um marcador que converte um post de um blog SAPO num destaque, um atalho para guardar um post para ler mais tarde (através do Pocket) e um atalho para suspender SPAM (vamos só dizer que o SPAM mexe muito comigo).

Fora do trabalho, é muito provável que tenha algum destes atalhos abertos durante o dia: a homepage do NY Times, o Twitter, o Público e o Techmeme.

Documentos pessoais, ficheiros de imagem e fotografias, guardo quase tudo no Dropbox e na MEO Cloud, para evitar perdas acidentais e ser mais fácil repor tudo quando mudo de computador ou, como esta semana, de sistema operativo. Uma vez por ano, copio tudo para um disco externo, de modo a ter sempre uma cópia física das coisas que me são mais importantes (uso dois discos externos da Seagate).

 

Para fazer listas

Crio listas para tudo. É a forma que encontrei de fragmentar ideias ou projetos em pequenas tarefas que podem ser assinaladas e arquivadas à medida que as vou fazendo. Isso permite-me colocar um projeto, ou um frete, à escala da minha atenção (muito volátil) e preguiça (muito constante). Se tiver de fazer logo tudo de uma vez, o mais provável é protelar eternamente.

Uma das coisas que mais me diverte é precisamente converter uma resolução ou objetivo em lista. Quero conhecer mais sítios novos? Faço uma lista de sítios novos na cidade, organizados por bairro, para ter sempre à mão no telemóvel. Quero ler mais? Crio uma lista com todos os livros que quero ler, distribuídos pelas bibliotecas onde os posso encontrar. Atravessar a cidade, aliás, para ir buscar livros, tornou-se um dos meus pretextos preferidos para passear e não andar sempre pelas mesmas zonas (isto embora as bibliotecas municipais funcionem em rede, e seja possível pedir o transporte de um título de uma biblioteca para outra).

E onde faço as listas? Já experimentei alguns serviços e aplicações, e acabei por me decidir pelo Google Keep. A principal vantagem que lhe reconheço é a de ser um serviço gratuito, sem que isso afete a sua viabilidade a longo prazo. A facilidade de utilização e a sincronização entre telemóvel e desktop também são importantes. Por fim, ajuda tratar-se de um serviço sem grandes ambições. Não preciso da "última palavra em produtividade" ou da "aplicação número 1 em organização". Só mesmo de uma aplicação que me permita criar uma lista de forma rápida e que possa consultar em todo o lado.

 

Para me organizar

No trabalho uso uma agenda em papel, mas o meu calendário principal está no Google Calendar. Gosto muito da ideia de manter uma agenda ou de fazer apontamentos por escrito, ao ponto de ter uma pequena montanha em casa de cadernos, mas nada bate a conveniência do bloco de notas que está sempre connosco (o telemóvel) e a facilidade com que podemos pesquisá-lo. Não aceito pedidos automáticos de reunião (se o assunto justifica combinar uma reunião, não é preciso comprometer-me uma segunda vez) e passo manualmente todos os eventos e reuniões para o meu calendário.

Dependo quase exclusivamente do e-mail (uso o SAPO Mail, onde tenho pelo menos 3 contas pessoais, para não falar de outras tantas de trabalho, e o GMail) e evito ao máximo fazer chamadas telefónicas. Se o assunto não for urgente, prefiro organizar as ideias por escrito e enviar um e-mail. Quando é mesmo preciso, sou o tipo de pessoa que é capaz de anotar uma lista de pontos para guiar a conversa e garantir que o telefonema não desperdiçou o tempo das duas partes.

Outros serviços presentes no meu dia-a-dia que vale a pena referir: o Goodreads (uma estante virtual para quem depende quase exclusivamente de bibliotecas) e o Flickr (para pesquisar algumas imagens para uso, com permissão dos autores, no trabalho).

 

ambientedetrabalho.jpg

Há anos que ando a pedir para ver o ambiente de trabalho dos outros, por isso aqui fica o meu, sem retoques nem embelezamentos.

 

No telemóvel

Faço o possível para ter o mínimo de aplicações instaladas no meu telemóvel, por motivos de espaço e de segurança, mas há algumas que são essenciais, sobretudo por fornecerem serviços que praticamente só estão disponíveis em telemóvel:

  • Spendee: a aplicação onde anoto quase todas as despesas que faço no meu dia-a-dia. Sim, todas as despesas. Todos os dias. Desde 2014. Reconheço que é um hábito um bocadinho obsessivo, mas de que outro modo poderia saber que, em 2018, gastei 57,12€ em livros (na maioria, para oferecer)? A minha categoria de despesas mais curiosa chama-se Erros e é dedicada àquelas rasteiras que a pressa, a procrastinação ou simplesmente a nossa inépcia nos prega. Em 2018, o valor das minhas despesas nessa categoria foi de.. 373,24€. Um valor estonteante, com algumas histórias por trás que prefiro não contar (mas com as quais, quero acreditar, aprendi qualquer coisa).
  • MB Way: no meu círculo de amigos, fui o primeiro a aderir, o primeiro a ser olhado de lado por falar na app e o primeiro a franzir o sobrolho quando a coisa finalmente explodiu e colocou toda a gente a rachar entusiasticamente jantares de amigos por essa via.
  • Duolingo: a forma que descobri de treinar o vocabulário de outra língua de forma diária e de diminuir a minha dependência de outras aplicações (estou a olhar para ti, Instagram).
  • LisboaMove-me e GIRA: são as duas aplicações de que mais dependo hoje em dia para me mover em Lisboa. Apesar do interface datado, e da fraca usabilidade, a aplicação do LisboaMove-me continua a ser a forma mais rápida de consultar os horários da Carris (e só ocupa 2 megabytes no telemóvel, por oposição aos 44 megabytes da aplicação oficial da Carris). E, claro, o Google Maps.

 

Privacidade

Todas as ferramentas e serviços que refiro acima estão na internet. E é por usar tanto a internet que me parece importante tentar ser um bocadinho mais pró-ativo a definir a forma como os sites e serviços que consulto recolhem dados sobre a minha utilização. É uma guerra perdida à partida (os algoritmos modernos, combinados com alguns truques psicológicos, permitem fazer alguns cálculos razoavelmente seguros sobre quem somos e o que fazemos online), mas nem por isso devemos baixar os braços.

Como já tinha mencionado, não instalo extensões nem plugins nos browsers para bloquear publicidade e cookies, mas faço sempre questão de alterar as definições originais dos navegadores ao nível da privacidade. Não permito o uso de cookies de terceiros (ou seja, se estou a visitar um site, apenas aceito cookies relacionados com a utilização que estou a fazer desse site e mais nada) e mesmo aqueles que permito é só até fechar o navegador. Só aplico exceções àquelas páginas e serviços que uso diariamente, nos quais, de outro modo, seria demasiado oneroso estar sempre a autenticar-me (são os cookies que permitem manter a autenticação). Mesmo assim, tento apagar regularmente toda a memória dos navegadores.

 

Para me inspirar

Por fim, são as ideias, os locais e as pessoas que alimentam os meus planos e listas. Vou buscar algumas destas coisas a estes sítios:

  • Livros: seja qual for o tema ou o género, são a minha principal fonte de conhecimento e inspiração; em 2019, defini a resolução de ler menos, o que na realidade significa ser um bocadinho mais seletivo no momento de escolher os livros. Quero ler mais sobre História e Filosofia, sem deixar de parte a ficção, mas não há tempo e visão para tudo;
  • a área de Leituras do SAPO Blogs, o meu leitor de feeds, onde subscrevo centenas de blogs e há sempre alguém a tocar nos meus temas favoritos do momento: livros, criatividade, solidariedade, alimentação saudável e Lisboa;
  • Instagram, onde tiro partido das hashtags (#Lisboa, por exemplo) e da pesquisa por locais para descobrir novos sítios e eventos para visitar;
  • as prateleiras da Fnac: é uma das lojas que mais vezes visito, sem comprar nada, para espreitar as novidades da secção de livros de Fotografia, entre outras;
  • a minha pasta de marcadores, que abro uma ou duas vezes por mês, com os sites de alguns dos meus sítios preferidos (museus, teatros, etc) e as respetivas programações;
  • a secção de Eventos do Facebook, que espreito de vez em quando, à procura de algum evento aleatório que me possa interessar;
  • para engrenar as roldanas da inspiração, o Spotify (a versão suportada por publicidade) e as suas recomendações automáticas semanais;

Obrigado por lerem!

31/12/18

Dez livros de 2018

Lord Jim, de Joseph Conrad
Conrad tornou-se nos últimos anos, à medida que vou lendo mais da sua obra, um dos meus autores preferidos, apesar da arrogância que pressinto em alguns momentos da sua escrita. Não encontrei ninguém, até agora, que rivalize com o poder descritivo de Conrad. "Lord Jim" é mais um exemplo acabado do que é possível fazer com esse poder.

 

Viver com os outros, de Isabel da Nóbrega
Um exercício de leitura de mentes entre um grupo de amigos e conhecidos reunidos para jantar e socializar num apartamento lisboeta na década 60. Parte da diversão (ou desafio) deste livro também passa por ser feito quase exclusivamente de diálogos (alguns deles interiores), sem atribuição explícita a esta ou aquela personagem. Não sabia quem era Isabel da Nóbrega até ler este ano um artigo sobre a sua obra, mas o que li suscitou a minha curiosidade. Não me arrependi de ter dado a oportunidade.

 

Humans of New York: Stories, de Brandon Stanton
Já conhecia o Humans da internet e, mesmo assim, não contava gostar tanto deste livro. Cada um de nós tem uma história única para contar, com a qual podemos aprender, rir, chorar e crescer. E é fascinante que baste a um tipo com carisma e uma câmara parar desconhecidos na rua para vermos isso tão claramente.

 

Não respire, de Pedro Rolo Duarte
Já falei deste livro aqui no blog e continuo a pensar nele de vez em quando, sobretudo naquela frase do Pedro sobre o tanto que falta para fazer. Não há tempo e energia a perder.

 

Pão de açúcar, de Afonso Reis Cabral
É um livro que a cada capítulo fica mais perto de um desfecho terrível que, de início, me parecia errado ser apropriado pela ficção. O que é que a ficção pode acrescentar ao que aconteceu à Gisberta? Ou o risco pode mesmo ser o de subtrair algo? Terminada a leitura, pareceu-me que acrescenta alguma humanidade à história da Gisberta e também à daqueles miúdos. Mísero consolo, talvez. Mas já é qualquer coisa para quem não quer acreditar que tudo se perdeu naquele poço.

 

A Cultura Mundo, de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy
Mais um livro de que falei aqui no blog e que recomendo a qualquer pessoa que procure uma moldura para enquadrar e pensar o tempo em que vivemos.

 

O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick
Uma surpresa e o ponto de partida para descobrir a obra de Philip K. Dick, que me parece ter sido um autor invulgar a vários níveis.

 

Call me by your name, de André Aciman
Uma leitura que soube a uma escapadinha de 5 dias pela Itália. Tem a combinação perfeita de horas de sol, refeições ao ar livre e passeios de bicicleta por aldeias italianas. Além de ser uma bela história do primeiro amor (e do mais difícil).

 

Os Filósofos e o Amor, de Aude Lancelin
Por falar em amor, um apanhado muito por alto, mas interessante, das várias formas como esse sentimento foi pensado e explicado ao longo da história. Na falta de um manual para amar, é um belo substituto.

 

Olhando o sofrimento dos outros, de Susan Sontag
Se o livro fosse meu, teria voltado para a estante quase todo sublinhado. Sontag não se demora em contemplações, é muito direta a fazer ligações e a partir para hipóteses de sentido. Como fotógrafo amador e consumidor de notícias é um livro que me parece obrigatório para pensar o lugar privilegiado que ocupamos de observadores da tragédia do nosso tempo e mundo.

24/12/18

Feliz Natal, amigos

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É aquela altura do ano em que apetece chamar amigos a toda a gente, mesmo aqueles que não o foram, mesmo aqueles a quem não o fomos. Que bom que é assim. Espero que tenhamos todos tempo e coragem para tentarmos fazer melhor.

14/12/18

Uma fotografia de 2018

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O ano passado iniciei aqui uma rubrica no blog que consiste em escolher a minha fotografia preferida do ano (a que escolhi em 2017 está aqui). É a desculpa perfeita para abrir a pasta com as fotografias do ano e maravilhar-me com a  aleatoriedade das minhas voltas pela cidade e não só. Há fotografias que irradiam o calor do verão, outras que me fazem recordar o tempo passado em pastelarias.

E depois há fotografias que quase esqueci de ter feito e que me surpreendem como se tivessem sido feitas por outra pessoa. É o caso da fotografia acima. Foi tirada ali no fim de janeiro e gosto de tudo nela. O que parece o resultado de uma escolha intencional, o foco nas mãos dadas, é na realidade o produto de um acidente resultante da pressa com que tirei a fotografia. Gosto especialmente que seja difícil perceber bem o que está a acontecer: o rapaz está a ser puxado (um "vem daí") ou a apoiar a rapariga no skate?

Gosto de pensar que pode ser as duas coisas e de que estamos a ser puxados para a frente quando nos apoiamos uns aos outros.

18/11/18

Uma frase brilhante

"E eu pensava que a vida brilha quando descobrimos uma pessoa nova. É de espantar que haja tanta gente por descobrir e a vida não brilhe sempre."

A frase é de Afonso Reis Cabral, do livro "Pão de Açúcar". Há mais a dizer sobre este livro, que gostei de ler, mas não resisti a começar por aqui. A síntese perfeita daquela sensação, que todos já passámos, de "descobrir uma pessoa nova". Podia ser uma frase dita por uma criança. Não podia ser mais perfeita.

27/10/18

Uma frase de Susan Sontag

"A memória é, dolorosamente, a única relação que podemos ter com os mortos."

A frase é de Susan Sontag e do seu brilhante ensaio sobre o poder da fotografia, intitulado Olhando o sofrimento dos outros. É mesmo um ensaio brilhante, porque nota-se que é um texto que surge como a procura de um posicionamento mais ético em relação às imagens. Admiro qualquer pessoa que tem esta capacidade para parar e colocar-se a si própria em causa. Uma espécie de "Estou a fazer isto bem? Haverá outra forma de agir e pensar em relação a este assunto?".

Quase não passa uma página do livro de Sontag sem que tenha de guardar uma frase, mas a frase acima fez-me estremecer, por fazer tanto sentido para mim e abrir uma série de caminhos que ainda preciso de fazer na sequência da morte do meu pai. No fundo, e falando claro, ao fim de quase dois anos desde a sua morte, desenvolvi este receio de perder também essa relação com ele, se não trabalhar mais as memórias que tenho dele. Isso passa por falar mais dele, e não menos, por confiar recordações à escrita e, sim, falar com ele.

A frase de Sontag tem essa dupla valência para mim. Por um lado, sublinha a necessidade de estimar a nossa memória. Por outro, penso que atribui um significado um bocadinho restrito demais ao exercício da memória, que não se limita à consulta de recordações. Recordar também passa por atualizar e reforçar memórias.

20/10/18

Falar em público

Ontem ao final da tarde fiz algo que já não fazia há bastante tempo: falei em público. Aconteceu num encontro do Clube de Leitura da Cocó na Fralda. Acompanho o blog da Sónia desde que se mudou para o SAPO Blogs e há já algum tempo que sentia curiosidade em relação ao clube. Ontem, finalmente, consegui aparecer e quase derreti com a simpatia com que fui recebido por todas as participantes. Era o único homem no grupo e, aparentemente, o primeiro a aparecer sozinho numa sessão, o que me surpreendeu.

Nunca tinha participado num clube de leitura, mas gostei do formato adotado, no qual cada participante faz uma breve intervenção sobre um livro que tenha lido recentemente. É um formato informal e descontraído que me parecem ser o cunho da própria Sónia como anfitriã e moderadora. Quando chegou a minha vez, não consegui deixar de sentir aquela vertigem que surge com o desafio de falar em público, mesmo tratando-se de um grupo pequeno de pessoas. Acho que atabalhoei um bocadinho as palavras, mas a experiência foi positiva. Se sentem falta, como eu, de mais conversas e encontros à volta de livros, em que se possam trocar impressões e sugestões de leitura, recomendo vivamente que fiquem atentos ao blog da Sónia e apareçam numa futura sessão. Até há bolo...

E o livro que levei comigo? Foi o A Cultura Mundo, de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, dois filósofos interessados em analisar e enquadrar o tempo em que vivemos, as forças que o atravessam e os seus efeitos na vida em sociedade. Gostei de o ler porque faz um excelente retrato da nossa época, sem cair no pessimismo e deixar de apontar algumas possíveis respostas às difíceis questões que ela nos coloca.

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