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Gostava de ter registado o uau colectivo que a multidão no Trocadéro soltou quando a torre começou a cintilar (embora tenha conseguido, algo desajeitadamente, filmar o momento).
Estar ali fez-me lembrar uma cena inesquecível de Belle toujours, um filme de Manoel de Oliveira. Falar em cena talvez não seja o termo mais apropriado. O filme simplesmente pára a certa altura para mostrar a Torre Eiffel, mais o seu farol, à noite. Acreditem, admirar a Torre Eiffel numa tela de cinema é tão impressionante quanto vê-la ao vivo. Não me lembro da duração exacta da cena, mas a mim pareceram-me vários minutos.
Acho que foi isso que me fez começar a respeitar o cinema de Manoel de Oliveira. Poucos realizadores podem, hoje em dia, dar-se ao luxo de parar durante sequer 30 segundos para demorarem-se na Torre Eiffel à noite. Só um olhar verdadeiramente apaixonado pelas coisas faz isso. E há coisas que pedem um olhar demorado.
Já agora, aproveito para recomendar Paris, o filme, de Cédric Klapisch. Não sei bem se já estreou ou não em Portugal, mas é outro olhar apaixonado de Paris, que abre com a imagem da personagem de Romain Duris debruçada sobre o horizonte da cidade. Vale a pena ver.
Reparem no míssil que aparece aos 9 segundos.
O horizonte artificial de Paris. Parece estar tudo a uma distância segura de ser feita a pé, mas não está. É tão simples, e doloroso, quanto isso. Fiquei surpreendido com a forma como a Torre Eiffel domina o céu da cidade. Olhar para o céu de Paris equivale a procurar a torre no horizonte. E ela lá está, sempre, como se estivesse a segurar algo.
"It's fucking Paris", dizia Justin Vernon, em tom de descrença. Soube exactamente do que ele estava a falar. Foi só neste momento, em que estava a ouvir Bon Iver ao vivo, a dois metros de mim, em Paris, que me dei conta de onde estava. A música leva-nos a lugares novos, sem dúvida.