Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Leituras: Bilhas e garrafões

22.07.10

 

Numa crónica publicada no Económico, e depois no seu blog, Nuno Artur Silva dá o seu contributo para o debate sobre o futuro dos livros, e encontra uma analogia interessante para abordar a questão:

 

"Num dos últimos fins-de-semana passei pela Feira do Livro para uma sessão de autógrafos a dois com o António Jorge Gonçalves. (...) O Jorge dizia que a multidão de pessoas com sacos cheios de livros lhe fazia lembrar o tempo em que não havia água canalizada e as pessoas iam às fontes com bilhas e garrafões. Hoje em dia os “livros” começam a chegar-nos electrónicos e canalizados e já não falta muito para que todos nós tenhamos, para além do telemóvel e do “computador” portátil, hoje absolutamente banais e essenciais à vida urbana contemporânea, um dispositivo de leitura electrónica portátil, na linha Kindle ou iPad ou o que for. Ironicamente, esta mudança não vai ser a morte do livro em papel, mas a sua salvação. Quando pudermos ler o que quisermos e quando quisermos no nosso leitor portátil, vamos poder perceber e escolher melhor, com melhor critério, aquilo que gostaríamos de ter em edição especial. Como já acontece com os CDs ou os DVDs, aquilo que faz sentido editar são colecções especiais, objectos de design em colecções limitadas e muitas vezes personalizadas pela assinatura dos autores."

 

(ler mais)

 

Retive a parte das bilhas e garrafões. Toda a gente gosta de um pouco de Bookshelf Porn, mas quem é que hoje em dia tem espaço em casa para guardar todos os livros de que gosta? Continuo a ler menos livros do que devia, mas pus-me a pensar nisso no outro dia, quando voltei a reparar na extrema relutância com que a maioria das pessoas se vê livre de livros de que não gostou ou apreciou especialmente (e que se traduz nisto: não me lembro da última vez que deitei ou vi alguém deitar um livro no lixo). Parece-me que a falta de espaço, o cálculo ecológico e a própria comodidade dos dispositivos electrónicos de leitura (nunca mais ter de sair do sofá para ir ao dicionário ver o que significa aquele palavra, etc) vão encarregar-se de reforçar a analogia das bilhas e garrafões. Embora dê um bocadinho de medo pensar num dia em que não existam mais livrarias (aliás, é aquele tipo de medo que dá vontade de apagar este post e questionar-me do que raio estou para aqui a fazer, a assinalar as vantagens dos iPads e Kindles sobre os livros de papel).

 

(imagem: analog soul, via Bookshelf Porn)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma carta de amor ao iPad

20.07.10

O Público pediu a Rui Tavares e Miguel Esteves Cardoso que fizessem uma recensão do iPad. O jornal nem precisou de emprestar um ao historiador, que escreveu uma carta de amor ao iPad a partir do próprio aparelho (para provar que não é assim tão difícil teclar sem um teclado físico).

 

"Ele é um excelente instrumento de input, e de output também. De inserção e de fruição. O que acontece é que ele passa de forma tão ágil de um papel para outro que os mistura numa espécie de contínuo.Mais do que ativo ou passivo, o iPad é um instrumento imersivo. Focamo-nos no que estamos a fazer nele, seguramo-lo com ambas as mãos, temos tendência a curvar-nos um pouco, quase como quem assume posição fetal. Mas também podemos levantar-nos e levá-lo de reunião em reunião como um caderno que nunca chega ao fim e cujas notas ficam facilmente guardadas para sempre. Imagino que ele vá ser muito prático para médicos internos, que passam o dia de um lado para o outro no hospital; o iPad é uma versão extensiva da tradicional prancheta. Mas também desce o ritmo connosco e depois de um dia de trabalho é um excelente companheiro para quem está apenas anichado num sofá. Permite ler livros como numa biblioteca e comprá-los como numa livraria."

 

Vale a pena ler o resto do texto, sobretudo pela perspectiva histórica que Rui Tavares oferece.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma Europa sem aviões

18.04.10

Nada como um vulcão islandês para nos fazer sonhar com outros mundos.

 

Na BBC, o filósofo Alain de Botton imagina um futuro sem aviões:

 

Everything would, of course, go very slowly. It would take two days to reach Rome, a month before one finally sailed exultantly into Sydney harbour. And yet there would be benefits tied up in this languor.

Those who had known the age of planes would recall the confusion they had felt upon arriving in Mumbai or Rio, Auckland or Montego Bay, only hours after leaving home, their slight sickness and bewilderment lending credence to the old Arabic saying that the soul invariably travels at the speed of a camel.

 

Por coincidência, na semana passada, antes da crise aérea começar, a Slate publicou alguns excertos de um livro escrito por um dos seus colaboradores, "Grounded: A Down to Earth Journey Around the World", que relata a sua viagem à volta do mundo recorrendo apenas a meios de transporte terrestres: atravessar o Atlântico a bordo de um cargueiro, explorar a Europa de comboio, percorrer o deserto australiano de automóvel, etc. O avião foi o único meio de transporte proibido. Pelo que li, parece ser um livro de viagens divertido, cheio de episódios curiosos que nunca aconteceriam a 10km de altitude na cabina de um avião:

 

As a result, when people think about travel these days they think purely of destinations. They barely give a nod to the actual ... traveling. The problem with this isn't just that we lose out on the pleasures of trains, ships, bicycles, and all those other terrific modes of rationally paced, ground-level transport. I think we also dim our experience of the destinations themselves. We've forgotten the benefit of surface travel: It forces you to feel, deep in your bones, the distance you've covered; and it gradually eases you into a new context that exists not just outside your body, but also inside your head.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Eyjafjallajokull

17.04.10

Um fenónemo natural, o espaço aéreo europeu fechado, milhares de passageiros presos em terra, chefes de governo retidos e, a pairar sobre tudo, incerteza e expectativa. De algum modo, cabe aqui bem um excerto de "A Jangada de Pedra" (que ainda estou a ler):

 

"Mãe amorosa, a Europa afligiu-se com a sorte das suas terras extremas, a ocidente. Por toda a cordilheira pirenaica estalavam os granitos, multiplicavam-se as fendas, outras estradas apareceram cortadas, outros rios, regatos e torrentes mergulharam a fundo, para o invisível. Sobre os cumes cobertos de neve, vistos do ar, abria-se uma linha negra e rápida, como um rastilho de pólvora, para onde a neve escorregava, e desaparecia, com um rumor branco de pequena avalancha. Os helicópteros iam e vinham sem descanso, observavam os picos e os vales, abarrotados de peritos e especialistas de tudo quanto parecesse ser de alguma utilidade, geólogos, esses por direito próprio, apesar de agora lhes estar vedado o trabalho de campo, sismólogos, perplexos, porque a terra teimava em manter-se firme, sem um estremecimento, ao menos uma vibração, e também vulcanólogos, secretamente esperançados, não obstante estar o céu limpo, despejado de fumos e fogos, perfeito e liso azul de Agosto, o rastilho de pólvora não passou de comparação, é um perigo tomá-las à letra, esta e outras, se antes não aprendemos a estar prevenidos. Não podia a força humana nada a favor duma cordilheira que se abria como uma romã, sem dor aparente, e apenas, quem somos nós para o saber, porque amadurecera e chegara o seu tempo. Somente quarenta e oito horas depois de Pedro Orce ter ido dizer à televisão o que sabemos, não era mais possível, do Atlântico ao Mediterrâneo, atravessar a fronteira a pé ou em veículos terrestres."

 

Será que não podemos ter José Saramago a fazer a crónica dos acontecimentos à volta do Eyjafjallajokull?

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

12.09.09

Há uns dias, quando estava a tentar pôr em dia todas as leituras das férias, deparei-me com este artigo do NYT, The Joy of Reading in the Subway, sobre os hábitos de leitura dos nova-iorquinos no metropolitano. O jornal quis saber o que alguns passageiros liam e porquê. É este tipo de jornalismo, que redescobre a curiosidade pelas coisas mundanas e banais, e que faz uma notícia a partir de uma pergunta tão simples como "o que está a ler?", que eu adoro consumir.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Sou o Pedro, procuro inspiração no flickr, faço algum design no escuro, colecciono achados e apanho alguns instantâneos. Estou no twitter, respondo a e-mails e acredito que tudo começa com um "olá".



Links

GPS

Wishlist



RSS