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22/10/13

"Já fui vítima de bullying"

A frase saiu-me assim. Sem pensar ou refletir na escolha das palavras, como se estivesse estado à espera da oportunidade certa para sair cá para fora. Depois veio a vergonha, não só por ser um dado extremamente pessoal e totalmente irrelevante para a discussão em causa (e que em nada motiva ou tem a ver com este post, começo já por dizer - está tudo bem comigo), mas por utilizar a palavra vítima. Vítima? Eu? Acho que nunca tinha usado esta palavra associada a mim.

Pensei na espontaneidade da frase, na forma como a recordação voltou a emergir passado tanto tempo e cheguei à conclusão de que não existia outra palavra melhor para descrever aquilo pelo qual passei. A coisa agora estava a céu aberto e comecei imediatamente a pensar em escrever este post e falar disso aqui, para mostrar e cimentar a convicção de que ser alvo de bullying não é realmente motivo de vergonha. Não há vergonha naquilo que nos acontece ou é infligido por outros.

Há várias formas de bullying, e só posso falar com base na minha experiência, que nunca envolveu agressões ou intimidação física. O bullying que senti na pele foi mais insidioso e prolongado, sem marcas ou episódios que pudesse apresentar como prova do que estava a acontecer. A coisa foi sempre mais subtil e calculada do que isso: as tossidelas que só ocorriam quando era chamado a falar na sala de aula, os insultos deixados nos manuais emprestados (e que só descobria mais tarde, ao chegar a casa ou ao ler partes da matéria, autênticas bombas com retardador), os recados em papel passados de mão em mão sem remetente, os comentários enquanto fazia apresentações à turma, as alcunhas sussurradas ao ouvido, e tanto mais.

Era o novo miúdo da turma, armado em sabichão e desejoso de impressionar os professores. A coisa não durou muito, como deve dar para imaginar. Poucos meses depois de começar o 10° ano, passei do tipo que levantava sempre a mão para responder a perguntas para o miúdo que sofria por antecipação com qualquer apresentação à turma. O verdadeiro terror era ser chamado à atenção dos meus atormentadores. "Não existir". Esse foi o meu lema diário ao longo de toda a minha passagem pelo secundário - três longos anos, na mesma turma.

Mostrou-se mais difícil de pôr em prática, claro. Qualquer chamada ao quadro, qualquer leitura em voz alta ou qualquer outra situação que fizesse referência a mim, constituía, para todos os efeitos, uma infração. Nada disto me foi alguma vez explicado ou verbalizado. Simplesmente sabia quais eram as "regras".

Os piores dias estavam literalmente marcados no calendário: dias com aulas de educação física. Durante 90 minutos não havia escapatória possível. Não havia professor ou espaço que pudesse colocar entre mim e as minhas sombras. O temor psicológico - de nunca saber em que circunstância seria visado - atingia o seu auge nesses dias, ao ponto de no início do 12° ano ter contado todas as aulas de educação física que ainda tinha pela frente. Foi a única estratégia mental que encontrei na altura para apaziguar o espírito. Uma espécie de contagem decrescente para a liberdade. Soa incrivelmente estúpido e fora de proporção, eu sei.

Nas últimas semanas do ano, com o "cadastro" isento de faltas, pude finalmente colocar em marcha o meu pequeno plano de fuga. Tendo em conta o número de faltas que podia dar até ativar qualquer tipo de alarme (julgo que seriam à volta de 10 por período), cheguei à conclusão que daí em diante podia faltar a todas as aulas de EF até ao final do ano. Não vos consigo explicar ou expressar o alívio que senti ao ganhar essa pequena liberdade a poucas semanas de me despedir do secundário. Foi o princípio do fim para aquilo que hoje só consigo descrever como um cativeiro mental.

Sei que a escola não é uma etapa do qual saímos sempre e todos ilesos. Há sempre experiências menos boas, simpatias e antipatias que é preciso navegar. Mas passados dez anos, ainda tenho bem presente a sensação diária de temor que era enfrentar mais um dia. Mesmo no final dos dias em que nada acontecia (que ainda foram a maioria) a sensação era de que tinha de algum modo "tido sorte".

Que marcas é que isso deixou? Ainda dou por mim muito alerta em situações que se calhar não justificam esse grau de sensibilidade (o que não quer dizer que eu não saiba por vezes ser um otário), consigo sempre detetar o bully na sala e, talvez o pior, tornei-me mais fechado em situações não escolhidas por mim.

Hoje, teria feito algo diferente? Faço-me a pergunta a pensar na remota eventualidade de alguém que esteja a passar por algo semelhante venha aqui parar e comece a ler isto. Quero pensar que isto não podia ter acontecido com mais ninguém, mas também ninguém teria dito ou adivinhado (e ninguém disse ou adivinhou) na altura que eu estava a passar por aquilo.

Na altura, tive muito tempo para pensar no que fazer e nos piores dias parecia-me sempre que não havia solução ou fim à vista para o que estava a passar. Agora, claro, sei que estava errado: por muito mau que o dia de amanhã pareça, as coisas podem e vão melhorar.

Para começar, falando com um amigo (obrigado Anabela) e contando a situação. Ninguém pode colocar-se exatamente no nosso lugar e ver o mundo da nossa perspetiva, mas a magia de falar com alguém é que nos permite tentar. E quando isso acontece, também damos por nós a inclinar-nos um bocadinho e a ganhar outra perspetiva. É simples e soa demasiado básico, mas é verdade: desabafar ajuda.

Agora ocorrem-me tantas pessoas a quem podia ter recorrido e pedido essa ajuda. Mas havia sempre aquela dúvida do quão pior podia ficar a situação se falasse e fizesse algo acontecer. É por isso que mesmo que nunca tenham passado por isto, saibam que a melhor coisa que podem fazer por outra pessoa numa situação destas é ouvir. Sem julgamentos ou preconceitos. E parar para perguntar "está mesmo tudo bem?"

E é esta a minha história. Espero que ajude alguém por aí. Contá-la, ao fim deste tempo todo, já me ajudou mais um bocadinho.

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