Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

29/11/17

Levantar voo

Ando a ler "Escrever: memórias de um ofício", um livro de Stephen King com reflexões e conselhos sobre a arte da escrita. Estou a gostar da forma como organizou as suas experiências e ideias à volta do tema, e não resisto a partilhar este trecho do livro, no qual King usa um episódio da sua vida familiar para explicar a diferença entre prática e talento:

"Quando o meu filho Owen tinha sete anos, mais coisa menos coisa, apaixonou-se pela E Street Band de Bruce Springsteen, sobretudo por Clarence Clemons, o robusto saxofonista da banda. Owen decidiu que queria aprender a tocar como Clarence. A minha mulher e eu ficámos divertidos e encantados com a sua ambição. (...) Oferecemos-lhe um saxofone pelo Natal e aulas com um dos músicos locais, Gordon Bowie. Depois cruzámos os dedos e fizemos votos que tudo corresse pelo melhor.

Sete meses mais tarde sugeri à minha mulher que era tempo de acabar com as lições de saxofone se Owen estivesse de acordo. Owen esteve e o seu alívio foi palpável - não tinha querido ser ele a dizê-lo, sobretudo depois de ter pedido o saxofone. (...)

Eu sabia, não porque Owen tivesse deixado de praticar, mas porque o estava a fazer apenas nos períodos estabelecidos por Bowie: meia hora depois da escola quatro dias por semana, mais uma hora aos fins-de-semana. Owen dominava as escalas e as notas (...) mas nunca o ouvíamos levantar voos, surpreender-se a si próprio com qualquer coisa nova, estar no sétimo céu. (...) O talento esvazia de sentido a ideia de ensaio; quando encontramos algo para o qual temos talento, fazemo-lo (seja o que for) até os dedos sangrarem ou os olhos estarem prestar a saltar das órbitas."

Fez-me pensar nas coisas em que estou a "levantar voos" e naquelas em que não estou.

27/11/17

Um pôr-do-sol pode ser viral?

pedron17-7849-2 (1).jpg

Foi a palavra que me veio à cabeça há uns tempos, ao pensar no espetáculo de luz e cor que é montado ocasionalmente no céu sobre Lisboa. Nos dias de espetáculo, as condições atmosféricas conjugam-se com a paleta de cores do sol, e a ubiquidade das redes móveis, para produzirem um ocaso viral. Não acontece todos os dias, e é difícil dizer o que o torna mais especial que os outros ao ponto de escapar ao rótulo de "clichê fotográfico", mas não há sítio onde alastre mais rapidamente do que no Instagram, com a hashtag Lisboa, onde o momento aparece registado a partir de dezenas de pontos de vista diferentes espalhados pela cidade.

Nos dias em que acontece, e estou dentro de portas, penso inevitavelmente "Caramba, falhei este". Quando faço parte da audiência, e estou na rua com a máquina, dou-me por sortudo. O pôr-do-sol acima foi um desses pôres-do-sol virais que apanhei este ano, no dia 8 de janeiro, às 17h37. Hoje fica um pouco mais viral com este post.

24/11/17

Pedro Rolo Duarte

Ontem acabei de ler uma pequena história de Julio Cortázar, chamada "Aí mas onde, como". É uma expressão incerta mas perfeita para descrever aquela zona onde "os nossos mortos" vivem. E eles vivem, porque nós os lembramos e continuamos a pensar neles e na forma como se cruzaram connosco. E, em alguns casos, a lê-los.

Hoje recebemos a surpreendente e triste notícia da morte de Pedro Rolo Duarte, que fiquei a conhecer em 2007 por intermédio da Jonas, e a quem ajudei a montar o seu excelente blog no SAPO. A partir daí, nunca trocámos mais de dois ou três curtos e-mails por ano, sempre em resposta a alguma dúvida ou pedido de ajuda relativa ao blog, mas foi sempre impecável comigo, sem qualquer tipo de afetação ou arrogância. Em agosto de 2016, propus-lhe, assim do nada, renovar o design do seu blog, e aceitou, sem condições nem entraves. Receber "carta branca" de um senhor como o Pedro Rolo Duarte foi, para mim, um motivo de orgulho.

E fiquei muito orgulhoso do resultado final, sobretudo por achar que o novo layout, aquele que hoje continua visível e que o próprio descreveu como mais "depurado", fazia justiça à sua sobriedade e ao seu apurado sentido para encontrar o interessante no detalhe e no quotidiano. E porque, aqui entre nós, sempre o achei uma versão mais crescida de mim próprio (jornalista, Pedro no nome, Duarte também, Diário de Notícias e, claro, o interesse pelo mundo dos blogs, que é, lá no fundo, o interesse pela observação e leitura dos outros).

Vou sentir a falta dessa identificação com alguém que sabia expressar-se tão bem (ao ponto de o ter citado neste blog várias vezes) e de quem me tornei leitor regular. Os meus sentimentos aos amigos e à família.

 

"Sei que estás vivo aí onde estás, numa terra que é esta terra e não uma esfera astral ou um limbo abominável". - Julio Cortázar

Mais sobre mim

imagem de perfil

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.