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23/07/16

Quando tropeçamos num ajuntamento Pokémon Go

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Passeava com a minha mãe no Parque das Nações, esta sexta-feira ao final do dia, quando nos deparámos com um ajuntamento solto de 20 a 30 pessoas, sobretudo adolescentes, de cabeça baixa e olhos postos nos telemóveis. Já tinha visto alguns grupos de amigos pela cidade a usar o Pokémon Go, mas algo assim, foi a primeira vez. Ainda precisei de alguns momentos para tomar sentido do que se passava ali. São miúdos (e alguns adultos) a jogarem na rua. É um cenário tão curioso quanto fora de uso.

31/12/15

Alguns livros que me surpreenderam em 2015

Não são necessariamente os meus favoritos do ano, mas são aqueles que causaram algum tipo de sobressalto. Vão daqui recomendados.

 

Saint Exupery, Marcel Migeo (link)

O primeiro livro que me veio parar às mãos em 2015 e um dos mais bem escritos, apesar de se tratar de uma tradução portuguesa já antiga. Migeo fez um ótimo trabalho a desmistificar o aviador, escritor e filósofo em Saint-Exupéry para nos dar a conhecer o homem, com os seus inevitáveis defeitos, e a sua incrível vida.

 

A Condição Humana, André Malraux (link)

Outro autor francês, uma grande surpresa com a pungência de Malraux. O traço que mais me ficou na memória da sua leitura é o nevoeiro da noite.

 

Go Set a Watchman, Harper Lee (link)

Esperava, como antecipa a Vanita, o resultado de um golpe de marketing, mas uma vez lá chegado, tive de entrar no livro e isolar o ruído. Foi um dos poucos livros de que falei aqui no blog, está lá tudo o que penso dele.

 

Capitães da Areia, Jorge Amado (link)

Foi a minha primeira leitura de Jorge Amado e rendi-me completamente à narrativa das aventuras daquelas crianças. No final, sentia-me uma delas e, claro, não queria que ninguém ali crescesse.

 

Segundo Sexo (1ª parte), Simone de Beauvoir (link)

Um livro que marcou o feminismo e que clarifica uma série de coisas à volta da nossa condição atual de homens e mulheres.

 

Sputnik, Meu Amor, Haruki Murakami (link)

O meu primeiro encontro com Murakami e uma excelente impressão inicial. A sua sensibilidade torna o mais pequeno gesto límpido e luminoso.

 

A Máquina de Fazer Espanhóis, valter hugo mãe (link)

Um retrato da velhice sem falsas contemplações e um bom ponto de partida para descobrir a obra de valter hugo mãe.

 

Flores, Afonso Cruz (link)

Uma das últimas leituras de 2015 e um autêntico ramalhete de belas imagens literárias. A curiosidade em relação a Afonso Cruz começou com a apresentação, na Fnac, de "Barafunda", outro livro seu para crianças e logo aí ficou evidente a sua cultura, filosofia e talento para cativar quem o lê.

 

A Possibilidade de Uma Ilha, Michel Houellebecq (link)

Um livro tão provocador que ainda não sei bem, ao final de um mês, o que pensar dele. A ironia e um certo (alguns diriam considerável) desdém pela humanidade aparecem na leitura como um degrau inesperado no caminho. Vamos tropeçar e retomar o caminho como se nada fosse, mas há um incómodo que perdura.

27/12/15

47 minutos e 28 segundos

saosilvestre

Quem segue este blog vai ter de ter alguma paciência comigo por este momento de vanglória, mas estou mesmo muito contente com o tempo que alcancei ontem, na corrida de São Silvestre Lisboa (10km que percorrem a Baixa da cidade). Não pensei mesmo que iria conseguir melhorar substancialmente sobre o tempo do ano passado (52m), especialmente com a dor de burro que me atingiu logo aos 3 quilómetros (cometi o erro de ingerir água muito cedo na corrida).

Não me sinto à vontade no meio de grandes multidões, por isso ao longo do ano só participo em duas provas de corrida, a Meia Maratona da ponte 25 de abril e São Silvestre. Ambas têm um ambiente muito próprio, a começar pela temperatura do ar, e tiram o máximo partido da cidade de Lisboa, que é o meu principal motivo para participar e as recomendar a toda a gente que conheço. É uma experiência ótima e, no caso da São Silvestre, uma das poucas oportunidades para descer a correr pela estrada a avenida da Liberdade.

Fica o recorde pessoal, que não queria deixar de registar aqui :)

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 (foto: São Silvestre Lisboa)

23/12/15

Pai Natal, se estiveres a ler...

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Esta é a minha wishlist para o Natal deste ano (um bocadinho em cima, eu sei):

1- A Arte de Star Wars: O Despertar da Força: ajudou entrar na sala de cinema com baixas expetativas, mas a verdade é que vibrei com o novo episódio da saga. Cruzei-me com este roteiro visual do filme na Fnac, já com edição portuguesa, e adorava poder apreciá-lo com mais calma.

2- Bon Iver, de Mark Beaumont: fui o último a saber, mas existe um livro que conta a história do meu projeto musical preferido.

3- Philips Hue Go: um gadget, para não serem só livros e cultura (uma lâmpada LED que pode ser controlada com qualquer smartphone).

4- Flores, de Afonso Cruz: comecei o livro há pouco tempo, depois de ler as críticas positivas nos blogs, e está a ser uma revelação. Gostava que o livro fosse meu, para poder sublinhar algumas passagens, cada vez mais belas e frequentes à medida que avanço na leitura.

5- Vitória, de Joseph Conrad: sou fã de Conrad, mas dele só tenho lido ebooks gratuitos em inglês. Esta tradução despertou a minha curiosidade.

6- Cartão Maria & Luiz, para assistir a mais teatro em 2016.

 

Mais ideias nas wishlists dos Natais passados: 2013, 2012, 2010 e 2009.

21/11/15

A cidade dos grandes sons

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Paris foi a primeira cidade que descobri sozinho e o palco de alguns dos concertos que mais me ficaram na memória. Por causa disso, e dos amigos que lá vivem, na minha cabeça, Lisboa sempre me pareceu um arrondissement de Paris, só um bocadinho mais longe que os outros vinte (com a vantagem de termos o Tejo). Enquanto houver música, e esta nos levar a sítios novos, espero regressar à cidade das luzes e dos grandes sons.

 

Sobre os eventos da semana passada, o Stephen Colbert resumiu tudo o que eu poderia dizer numa frase iluminante:

"If it makes you feel a connection to the people of Paris, go drink a bottle of Bordeaux. Eat a croissant at Au Bon Pain. Slap on a beret and smoke a cigarette like this. Go eat some French fries, which I am now calling Freedom fries in honor of the French people. Anything that is an attempt at human connection in the world right now is positive."

21/10/15

"Vai e põe uma sentinela": o lado lunar do romance que cativou o mundo

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Nota: li a versão original, Go Set a Watchman, mas neste post uso o título da tradução portuguesa, Vai e põe uma sentinela, editada pela Editorial Presença.

 

Deve o esboço de um livro, há muito esquecido e até certo ponto renegado pela sua autora, ser publicado? Sobretudo quando promete abalar a percepção de outra obra acarinhada por milhões de leitores?

 

“Vai e põe uma sentinela” foi escrito primeiro, mas dois anos de revisões produziram “Por favor, não matem a Cotovia?”, o único livro que marcava, até agora, a carreira literária da autora norte-americana, Harper Lee. Publicado em 1960, “Não matem a Cotovia” tornou-se numa espécie de tesouro literário da América, pela serenidade da sua mensagem de igualdade e justiça aliada a um nostálgico retrato da infância.

 

A polémica à volta de "Vai e põe uma sentinela" envolve questões sobre a forma como o seu manuscrito foi descoberto pelos representantes legais de Harper Lee e como a autora, debilitada pela idade, deu o aval à sua publicação. A tradução portuguesa do livro chega hoje às mãos do público, pelo que só resta responder às questões de caráter literário: é um bom livro por mérito próprio? Ou não passa de um rascunho que devia ter ficado na gaveta? O seu conteúdo trai, de algum modo, a história e os personagens que os leitores já conhecem?

 

Apesar de conter os indícios que dariam origem ao primeiro livro a ser publicado, “Sentinela” é um livro acabado e diferente. Escrito a partir do ponto de vista de Jean Louise, agora com 26 anos e a viver em Nova Iorque, a sua história tem lugar quase 20 anos depois dos eventos descritos em “Não matem a Cotovia” e com o movimento dos direitos civis dos negros como pano de fundo.

 

Ao regressar à sua terra natal, Maycomb, Jean Louise espera reencontrar as pessoas e os locais da sua infância inalterados pelo tempo, mas o presente tem necessidades mais urgentes. A maior prova disso é a revelação de que o seu pai, o advogado Atticus Finch, aceitou participar num conselho de cidadãos oposto ao reconhecimento de direitos políticos à maioria negra da população de Maycomb.

 

No primeiro livro, Atticus é o único defensor público que aceita representar (e consegue ilibar) um jovem negro de uma acusação falsa de violação. Não é fácil conciliar esse exemplo de justiça e retidão com o Atticus racista e calculista que a história agora publicada apresenta. A revelação desencadeia em Jean Loiuse uma rejeição do pai e do seu modelo moral. Para um leitor de “Não matem a Cotovia”, que tenha sido cativado pela sua idealização de Atticus, o desnorte não é menor.

 

A um nível metatextual, o desapontamento sentido pelo leitor dos dois livros em relação à figura de Atticus causa um certo fascínio, na medida em que esse efeito decorre de um contacto anterior com o personagem que não foi planeado ou previsto pela autora. A deceção de Jean com Atticus espelha o sentimento de quem lê o segundo livro e sente que perdeu um exemplo de virtude, ainda que ficcional.

 

“Vai e põe uma Sentinela” é um livro igualmente fascinante pelo vislumbre que oferece do processo criativo na origem de “Não matem a Cotovia”. Os dois livros parecem tocar-se nos momentos em que Jean Louise recua na memória até à sua infância, passada com o irmão Jem. Lee sabe evocar com imaginação e habilidade a magia e a inocência da infância. O novo livro, e os episódios de infância da protagonista que nele constam, dão sentido à opção de Lee, nos anos 50, de voltar atrás e rescrever “Sentinela” a partir do ponto de vista de uma criança.

 

Sem a história agora vinda a público, o primeiro livro nunca teria sido possível. Ao mesmo tempo, é por ter sido escrita primeiro, e contar uma história diferente, lunar e de perda de inocência, que "Sentinela" merece ter sido encontrado e lido.

 

O final de “Vai e põe uma Sentinela” é algo inconclusivo e abre o livro a críticas de um certo conformismo e até condescendência. Em qualquer caso, é uma história que lembra como, apesar da mudança das leis, restam sempre as consciências individuais. Tal como a segregação racial, no seu tempo, ou os direitos LGBT, no nosso, há um intervalo entre as leis e as mentalidades, que leva o seu tempo a ser fechado. A tolerância não pode ser cultivada com intolerância é mais um eco da mensagem de “Não matem a Cotovia".

 

O novo livro não é uma "traição" da história conhecida desde os anos 60. É o recontar da mesma lição, a partir de um perspetiva diferente. Pode dizer-se que “Vai e põe uma sentinela” é a versão mais adulta e exigente de “Não matem a Cotovia”, na qual questões sobre a desigualdade, o progresso e a vida adulta sublinham a responsabilidade intransmissível de cada um formar e seguir a sua própria consciência.

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