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26/01/17

CT1DUU

As pessoas não são números, mas desde novo que sei que podem ser combinações alfanuméricas. O meu pai era, e será sempre, o Charlie Tango One Delta Uniforme Uniforme, o seu indicativo de chamada como radioamador. Ouvi-o tantas vezes soletrá-lo para o rádio que, no meu espírito, se tornou indissociável dele, da mesma forma que Pai e Batista (como era tratado por todos os que o conheciam).

O radioamadorismo era o seu hobby de eleição. É uma atividade que puxava pela sua curiosidade e espírito desenrascado, e que o punha em contacto com outros tantos que, como ele, encontraram na rádio um meio para criar e manter uma rede virtual de amigos e conhecidos, muito antes da explosão da internet. E era um hobby que nunca o deixava, quer estivéssemos em casa, onde encontrou um cantinho para montar o seu posto radioamador, ou a passar férias em família, sempre de olho no ponto mais elevado da região onde nos encontrássemos. O rádio era o seu Posto de Escuta, onde lhe chegavam ecos de todo o país (e mundo!).

É apenas uma das maneiras subtis pelas quais o meu pai acabou por me inspirar. Devo-lhe muita coisa, a começar na vontade de procurar um sentido para a vida que passe o mais ao largo possível do ego e da pretensão, mas também a minha curiosidade por Lisboa e pelo mundo.

A doença obrigou o meu pai a deixar o radioamadorismo muito antes da sua morte. Soletrar agora o seu indicativo faz-me sentir como se estivesse a pronunciar um feitiço, capaz de acender, por um escasso mas generoso instante, um projetor cá dentro, em que os slides são recordações suas. Traz-me imediatamente à memória o seu companheirismo, a sua humildade e sentido de humor. Nesse sentido, trata-se realmente de uma combinação mágica de letras e números. Uma magia muito pessoal, mas magia.

Os radioamadores usam o eufemismo "Silent key" (ou, mais engraçado, "desligou o rádio") para assinalarem a morte de um dos seus. O indicativo do meu pai ficou em silêncio no passado 21 de dezembro, mas vai continuar, teimosa e saudosamente, a ser chamado.

14/12/16

Concerto de Natal

Ontem, ao final da tarde, cruzei-me com um concerto de Natal do grupo de coral dos trabalhadores do metropolitano de Lisboa na estação do Marquês de Pombal. Sem cadeiras ou divisórias, o grupo de 15 a 20 elementos, dispostos à volta do maestro, cantava alguns temas natalícios para um número ainda menor de pessoas paradas a ouvir. À hora que passei, o concerto já estava a chegar ao fim, mas levei comigo essa imagem reconfortante, de um pequeno ajuntamento de pessoas ao virar da esquina, a resistir ao turbilhão da hora de ponta e cantar para as multidões apressadas, como se, no lugar de folhetos publicitários, distribuíssem notas musicais.

05/12/16

Ser livre

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Na semana passada, fui assistir à apresentação do livro do rapper Luaty Beirão, um dos 16 ativistas presos em 2015 pelas autoridades angolanas por se terem reunido para discutir um livro ("Da Ditadura à Democracia", de Gene Sharp). Esteve preso quase um ano, durante o qual fez uma greve de fome de 36 dias em protesto contra a sua detenção, e decidiu recorrer da sua amnistia, apesar do risco que existe de ser obrigado a cumprir o tempo que resta da sua pena de prisão de 5 anos por rebelião e associação de malfeitores.

Por tudo isto, esperava ouvir um homem mais abatido e desiludido. Luaty Beirão mostrou o oposto: uma boa disposição marcada por sorrisos e pela gratidão por toda a atenção e ajuda recebida de amigos, conhecidos e desconhecidos. E mostrou que continua empenhado em desafiar e expor as contradições do governo angolano, apesar do custo pessoal que isso pode ter e já teve. Estou curioso para ler o seu livro, chamado "Sou eu mais livre, então" e baseado no diário que escreveu a partir da prisão, mas já fiquei impressionado com o homem e o exemplo (a "pedagogia da coragem", como lhe chamou, na sala, Daniel Oliveira).

Na fotografia, Luaty Beirão e Mónica Almeida, que falou das consequências da prisão do marido na sua família e atividade profissional como fotógrafa.

25/11/16

O céu sobre a Fontes Pereira de Melo

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Uma das minhas fotografias preferidas de ontem. A minha intenção era registar as movimentações à volta da falsa ameaça de bomba na avenida Fontes Pereira de Melo, mas não foi o que esta fotografia cristalizou (depois de alguns realces no Lightroom). Quem veja a fotografia e não esteja a par do seu contexto, pode pensar, com razão, que há céus que justificam diretos televisivos.

25/10/16

A proa do MATT

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Um novo museu em Lisboa, junto ao rio, é como uma prenda antecipada de Natal para qualquer fotógrafo amador. E eu estava há meses a querer desembrulhar esta. Não pude ir ao MAAT quando foi inaugurado, no dia 5, mas fui seguindo, com curiosidade e crescente deleite, algumas das fotografias que foram sendo publicadas nas redes sociais. Uma das perspetivas que mais gostei de encontrar foi este post do João Freitas Farinha, cuja competência técnica, ao nível da fotografia, salta à vista. Tinha algumas reservas em relação à localização do MAAT, e ao que podia trazer a uma das minhas partes favoritas da cidade, mas depois de o ver de quase todos os ângulos possíveis no instagram, e a forma como claramente cativou os lisboetas, acho que posso render-me.

 

02/09/16

A Festa do Livro em Belém (e o Presidente Marcelo)

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A curiosidade da Festa do Livro em Belém começa logo na forma como é apresentada na brochura oficial, como "uma iniciativa de Sua Excelência  O Presidente da República". Já muito foi dito e escrito sobre a originalidade do estilo presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa, mas organizar uma feira do livro nos jardins do Palácio de Belém é notável. Passei por lá ontem, no primeiro dia, e gostei desse dois em um que é ficar a conhecer os jardins do Palácio com livros à volta. Se essa descrição for aliciante, quem quiser tem até domingo para passar por lá, com entrada gratuita. Quanto à feira propriamente dita, tem a dimensão que o espaço permite e preços apenas ligeiramente reduzidos.

 

 

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